terça-feira, agosto 9, 2022
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Hoje na História, 1960, Leopold Sédar Senghor se torna Presidente do Senegal

Introdução

Devo, em primeiro lugar, agradecer à direcção do Instituto Superior João Paulo II pelo facto de ter recaído sobre mim a responsabilidade de conduzir este debate sobre algumas das figuras proeminentes do continente africano, sobretudo aquelas que mais se destacaram na luta pelas independências na segunda metade do século XX.

Em segundo lugar a formulação da temática sugere várias interpretações. Falar de figuras representativas em África é falar de toda uma plêiade de políticos, intelectuais, músicos, cineastas, escritores, missionários, pintores que contribuíram para a afirmação do continente africano. Se for esse caso então estaremos diante de um debate que levaria algum tempo para a sua abordagem. Se assim é gostaria de colocar algumas questões para entrarmos especificamente a temática central do nosso debate. Quem são essas figuras representativas e porque são? Se utilizarmos o critério da participação na luta pelas independências o leque é muito variado. Aqui podemos referir, brevemente, as figuras de Julius Nyerere da Tanzânia, Sekou Touré da Guiné-Conakry, Jomo Kenyatta do Quénia, Leopold Sedar Senghor do Senegal, Bem Bella da Argélia, Modibo Keita do Mali, Kwame NKrumah do Gana, Mohamed V de Marrocos, Patrice Lumumba do Congo Leopoldville, Abdel Nasser do Egipto, Nandi Azikwe da Nigéria, Félix Houphet da Costa do Marfim, Milton Obote do Uganda. Para as antigas colónias portuguesas teriamos Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Holden Roberto, Eduardo Mondlane, Uria Simango, Samora Machel, Amílcar Cabral, Aristides Pereira. Como vemos a lista é enorme e teríamos que elaborar uma outra para falarmos dos intelectuais, cineastas, escritores, missionários e músicos que com o seu talento dão uma outra imagem do continente africano. Como foi sugerido seria de todo o interesse falar de uma figura africana e neste caso Leopold Sedar de Senghor (1906-2001), o primeiro presidente do Senegal independente.

Vamos abordar algumas das figurativas representativas do continente africano, sobretudo de líderes políticos que mais de destacaram na gestão dos seus Estados sem olhar a meios, sacrifícios ou bens materiais, cuja filosofia de governo era introduzir um sistema de escolaridade geral e técnica dos seus povos.

1. Socialização política e cultural

Não se pode analisar a figura de Senghor, o seu percurso político e literário sem fazer referência ao processo de socialização para percebermos melhor o contexto histórico em que se formaram as suas principais ideias. E aqui é fundamental fazermos referência à influência das duas guerras mundiais na na socialização política e literária cujo espaço foi a França. Poderemos perguntar que influência os dois grandes conflitos mundiais do século XX tiveram sobre os africanos?

1.2. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Os investigadores que analisam o impacto das duas guerras mundiais sobre o despertar do nacionalismo em África (Hernandez, 2003; Mbokolo, 2000; Davidson, 1980; Cornevin, 1972 e Ki-Zerbo, 1990) consideram que a primeira guerra mundial encerrou um primeiro conjunto de acontecimentos que estremeceu a estrutura do colonialismo mundial. Além disso, pelo artigo 119 do Tratado de Versalhes de Junho de 1919, foram legalmente reconhecidos os desmoronamentos dos impérios alemão e otomano, cujas possessões passaram a ser divididas entre britânicos e franceses.

A Conferência de Paz de Versalhes celebrou as ideias de auto-governo e de democracia representativa a qual, ao menos no plano do discurso, é uma democracia de indivíduos iguais, independentes e capazes de se fazer representar. Paradoxalmente, nos territórios ultramarinos o exercício administrativo-jurídico, articulado a uma teia de crenças e valores, reforçava a existência de indivíduos e nações dependentes e incapazes de formular e conduzir projectos político-sociais próprios do mundo moderno.

Esse foi o argumento da Sociedade das Nações quando redesenhou o mapa da África instituindo um regime de mandato (o qual cedeu lugar ao regime de protectorado só depois da Segunda Guerra Mundial), substituindo a Alemanha pela França e a Inglaterra, no Togo, nos Camarões e no Tanganika; pela África do Sul no Sudoeste Africano [Namíbia], onde a campanha teve longa duração, cujo fecho decisivo foi desempenhado por tropas africanas. Esse processo de substituição ocorreu também no Rwanda-Urundi em que a Bélgica substituiu a Alemanha.

No final da I Guerra Mundial os combatentes africanos regressaram aos seus países de origem mas passado algum tempo não viram, da parte da administração colonial, um reconhecimento da sua participação nesse conflito.

É assim que começam a surgir as manifestações contestatárias com greves, reivindicações de ordem económica e social que abrangiam desde as privações e exclusões próprias das práticas quotidianas até a não aplicação do decreto de autodeterminação dos povos como foi apresentada nos 14 pontos do presidente americano, Woodrow Wilson, reiterando a ideia básica aprovada já no Congresso da II Internacional Socialista realizado em Londres em 1896.

Por sua vez, sob a força das circunstâncias, a Inglaterra e a França assinaram, em Novembro de 1918, uma declaração conjunta por meio da qual reconheciam a importância da emancipação dos “povos oprimidos pelos turcos”. Destruiu-se o Império Otomano com o reconhecimento da independência a um grupo de países árabes da África setentrional (Egipto, Líbia, Tunísia), enquanto nos demais territórios governados pelas mesmas potências europeias a independência era recusada.

Essa contradição da colonização levou a um inequívoco crescimento dos movimentos nacionalistas. O fim da I Guerra Mundial frustrou a expectativa de reconhecimento do “esforço de guerra” que incluía o cumprimento de promessas da burocracia colonial de resolver necessidades materiais básicas dos africanos com reformas social e política. O adiamento na solução dos problemas sociais aumentou a oposição à administração colonial.

O investigador Ilídio do Amaral considera que:

“Tanto a Conferência de Berlim 1884-1885 como a Primeira Guerra Mundial tendo sido assuntos especificamente europeus, impuseram modificações profundas e duráveis nos africanos, de que uma das formas mais visíveis é a partilha de territórios coloniais, os mesmos que, desde meados do século XX, os movimentos independentistas viriam a receber, tentando superar, no interior de fronteiras arbitrariamente traçadas pelas potências coloniais europeias, o enorme desafio da construção do Estado-nação, a partir dos aglomerados complexos de grupos étnicos diversos, muitos dos quais dotados de heranças espaciais ou territoriais, de tradições comuns e de relações de parentesco coesas, de instituições sociopolíticas e recursos económicos partilhados e, por vezes, da aceitação de um controlo político comum, que podem ser considerados atributos do conceito ocidental de “nação” “(2000; 48).

Ilídio do Amaral num extenso texto apresentado na III Reunião Internacional de História de África, em Lisboa, acrescenta:

“Muitos desses soldados, como outros africanos, nomeadamente os europeizados, esperavam que a participação numa guerra que não lhes dizia respeito fosse recompensada com melhorias constitucionais, económicas e sociais nos seus territórios de origem. Não o foram, o que deu azo a radicalização de um anticolonialismo latente. As elites africanas esperavam que os princípios da auto-determinação (e, de certo modo, a antecipação do princípio da nacionalidade) enunciados pelo presidente norte-americano T. W. Wilson em 1918 e outros também viessem a ser aplicados em África, o que só sucederia passados muitos anos; depois da Grande Guerra Mundial de 1939-1945. (p. 58)”.

Por outro lado, a guerra colocou os povos africanos em contacto com o carácter instrumental da técnica, sobretudo militar que actuou violentamente sobre os povos europeus. O mais importante legado dessa experiência militar tenha sido o de ter posto a nu o carácter desumano dos chamados civilizados. Ora, não havia razão para acreditar que o sistema colonial fosse necessário ou mesmo inevitável para que os indígenas evoluíssem segundo padrões ocidentais. Gradualmente os africanos tomam consciência da necessidade de tomarem conta dos seus próprios destinos e traçar um rumo melhor das suas sociedades segundo os seus padrões culturais.

As acções levadas a cabo pelos africanos nesse período excluíam a conquista da independência. Reivindicavam um tratamento melhor dentro do sistema colonial. A esse respeito a opinião de Marianne Cornevin é a seguinte:

“O nacionalismo na África ao Sul do sahara antes de 1939 é essencialmente a denúncia do racismo e da injustiça social que resulta da colonização. Para as colónias britânicas existem alguns factores que concorreram para o despertar do nacional nacionalismo: a releitura da Bíblia com a criação das igrejas sincréticas e o panafricanismo, enquanto que nas colónias francesas a Carta dos Direitos do homem e a Negritude influenciaram profundamente os nacionalistas” (1972, 12-13).

Como veremos mais adiante as verdadeiras acções a favor da independência serão desencadeadas com o fim da II Guerra Mundial. Aliás existiram circunstâncias mais favoráveis para os povos africanos exigirem às potências colonizadoras o direito a independência.

1.2. Os efeitos da II Guerra Mundial (1939-1945)

Logo após a II Guerra Mundial as potências europeias debilidades pelos efeitos desse conflito tentam corrigir os erros do anterior conflito no que diz respeito às possessões coloniais. A França e a Grã-Bretanha adoptam algumas medidas legislativas nomeadamente a abolição do Estatuto dos Indígenas, concede direitos sindicais aos africanos e autorizam a criação de partidos políticos.

De facto, a II Guerra Mundial (1939-1945) foi o factor externo que permitiu a consolidação do nacionalismo em África. A participação de africanos nessa guerra permitiu-lhes compreender a natureza do colonialismo e das sociedades europeias. Ki-Zerbo, em História da África Negra estima que em 1940 só nos territórios sob dominação francesa foram recrutados 127.320 soldados da África Ocidental Francesa (AOF), 15.500 na África Equatorial Francesa (AEF) e 34.000 em Madagáscar. Desse contingente 24.271 africanos da África Ocidental e Equatorial perderam a vida e 4.350 malgaxes perderam a vida nos combates da Normandia, do Médio Oriente, em África, Itália, Indochina, Birmânia e Alemanha”.(II, p.225).

O esforço africano na guerra foi enorme. Pelas estatísticas avançadas vê-se, claramente, que não houve da parte das administrações coloniais o cuidado de reconhecer o esforço físico, financeiro e psicológico desse africanos. Pelo contrário, alguns episódios mostram que esses africanos foram espezinhados ao não receberem as suas compensações financeiras. Alguns soldados africanos que tentaram reivindicar foram barbaramente assassinados. O caso mais falado é o massacre de Thiaroye em que 1.290 soldados africanos que acabavam de regressar da França encontraram a morte ao reivindicarem as suas indemnizações. Leopold Sédar Senghor, na qualidade de deputado do parlamento francês pediu ao antigo presidente francês Vincent Auriol a libertação dos atiradores senegaleses que escaparam do campo de Thiaroye. Mas não fez mais do que isso. Só o Mali de Alpha Omar Konaré edificou um monumento em homenagem aos mártires de Thiaroye inaugurado em Dezembro de 2001. Alpha Omar Konaré é o único Chefe de Estado africano a tomar uma iniciativa de reabilitação dos atiradores mortos em Thiaroye1. Sobre esse assunto o presidente francês Jacques Chirac reconheceu em 2002 a injustiça cometida pelo seu país a esses africanos. “Cuidadosamente evitados pelos livros de história, esquecidos da memória nacional, os soldados franceses originários de África foram remetidos à mendicidade e à humilhação. Sua pensão cristalizada em 1959, diferente daquela dos seus irmãos de armas franceses faz hoje objecto de processo diante dos tribunais. O Estado francês produziu um sistema injusto”. Cornevin ilustra muito bem o número de africanos que serviram o exército francês:

“Dos 63.000 africanos recrutados nos territórios da África Ocidental Francesa e que combatiam em França em 1940, 24.000 morreram logo após o armistício com a Alemanha. Em Agosto de 1945, 60.000 africanos e 16.000 europeus chegaram a Africa Ocidental Francesa para participar nas operações militares na Africa do Norte, Itália e França (1972:80)”.

Para Hernandez (2005:185) “outro conjunto de fatores teve um peso decisivo para o processo que deu impulso às lutas de independência. O primeiro deles foi que a participação de africanos na Primeira Guerra Mundial se repetiu na Segunda Guerra quando perto de 190 mil homens estiveram em frentes de batalha (…). Ora, a guerra colocou aos povos negros em contato com o carácter instrumental da técnica multiplicada pela violência exercida pelos povos brancos entre si. Talvez o mais importante legado dessa experiência tenha sido o de ter desnudado a desumanidade dos “civilizados”. A Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, cujo Estado se tornou modelo para os países africanos inscreveu a libertação dos povos colonizados como o pilar da sua política externa. Defenderá essa política junto da recém criada Sociedade das Nações, antecessora da Organização das Nações Unidas.

Ali Mazrui (1998: 590) enfatiza o papel da França de Charle de Gualle na transferência gradual do poder aos africanos. Na realidade, logo após a II Guerra Mundial, a França decidiu a participação dos africanos na vida política, mesmo que essa participação seja feita nos partidos políticos da metrópole. É assim que em Novembro de 1945, Leopold Sédar Senghor e Lamine Guèye (Senegal), Félix Houphouet-Boigny (Costa do Marfim), Apithy Sourou Migan (Daomé), Fily Dabo Cissoko (Sudão Francês) e Yacine Diallo (Guiné-Conakry) foram eleitos a Assembleia constituinte para ai representar a África Ocidental Francesa.

Nas colónias sob tutela, no caso os Camarões, também foram eleitos Alexandre Douala-Manga Bell e L.P. Anjoulet. Ficou de fora a colónia da Argélia, porque os nacionalistas gostariam de ver aprovado um projecto de federação entre a França e uma futura República argelina, o que não foi aceite.

Os deputados africanos e a Constituição da IV República introduziram mudanças na legislação sobre as colónias. A legislação de maior impacto nas colónias foi o decreto de 20 de Fevereiro que suprime o Indigenato; a lei de 11 de Abril sobre a abolição do trabalho forçado; o decreto de 30 de Abril que aplica à África o Código Penal da metrópole e a lei de 30 de Abril sobre a criação do Fundo de Investimentos e de Desenvolvimento Económico e Social (FIDES).

Quatro dessas leis foram votadas antes do referendum de 5 de Maio de 1946. Essas acções legislativas e outras inflectiram no sentido de dar um novo rumo ao processo de descolonização. Aqui, é importante sublinhar que os nacionalistas africanos encontraram na Organização das Nações Unidas (ONU) um importante aliado e um bom campo de batalha para reivindicar a independência. Aliás a Carta das Nações Unidas defendia o princípio da autodeterminação.

Ainda de acordo com Cornevin (1972) dessas quatro leis somente a da abolição do trabalho forçado obteve o acolhimento mais entusiasta das populações africanas, sobretudo nos Camarões e Costa do Marfim onde o recrutamento forçado para as plantações era mais pesado (p. 112). Essa medida legislativa não eliminou por completo o trabalho forçado nas grandes plantações dos países africanos.

De facto, o fim da II Guerra Mundial permitiu a organização de campanhas contra a manutenção dos impérios coloniais. De acordo com David Martelo (1998) “a aprovação da Carta das Nações Unidas (1945) e da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) vai criar o quadro político e legislativo internacional que porá fim ao colonialismo tradicional. Anos volvidos, a 18 de Abril de 1955, os novos países do Terceiro Mundo, reunidos na Conferência de Bandung, acordam o seu apoio ao processo de desenvolvimento dos povos africanos mais atrasados” (p.229).

Enquanto as restantes potências coloniais em África, em função dessa nova realidade preparam a transferência do poder político para os africanos, Portugal decide prosseguir a sua política de colonização. Segundo ainda Martelo “o Governo português entende por bem informar a ONU (1956) de que não possui sob sua administração quaisquer territórios (…) conforme descritos no artigo 73º da Carta das Nações Unidas. Com esta posição – que haveria de ser repetida, sem cessar, nos dezoito anos seguintes – estavam criadas as condições para o isolamento político de Portugal e, inevitavelmente, para a eclosão de conflitos armados contra a soberania portuguesa. Como seria de esperar, os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas iriam ter o mais amplo apoio dos seus parceiros africanos, da URSS e de não poucos países ocidentais, com os EUA à cabeça (idem).

A Conferência de Bandung ao aprovar um conjunto de princípios, os famosos 10 pontos, deu um alento significativo às lutas de libertação em África, pois os movimentos que se batiam pelo derrube do sistema colonial estiveram presentes nesse encontro que marcou uma viragem na afirmação do chamado Terceiro Mundo e com reflexos nas colónias portuguesas.1 A esse ímpeto seguiram-se outras conferências como a de Belgrado (1961) e do Cairo (1962) que trataram, entre outras questões, do fim definitivo da colonização quer em África como na Ásia.

A elite política portuguesa manteve-se renitente na aplicação da sua política colonial clássica. Em vez de preparar o quadro jurídico de transferência do poder para os africanos, aprova leis que restringem à cidadania, a promoção no quadro do funcionalismo público, aumenta a imigração para as colónias, e incentiva a expropriação de terras para as culturas agrícolas obrigatórias. Essa política retirou espaço económico e social aos nativos, facilitou o aumento da segregação racial e alargou o fosso entre colonizados e colonizadores. Os resultados são conhecidos: rebelião em todo lado.

2 – O percurso de Leopold Sédar Senghor

Quem é Senghor? Para traçar a sua trajectória vamos nos socorrer da obra de Christian Roche. Segundo esse autor, Leopold Sédar Senghor nasceu em Joal, no Senegal, em 1906 no seio de uma família que vivia na antiga feitoria portuguesa onde o seu pai era comerciante. Pertencente a etnia serer, o seu nome vem do português senhor e Sédar do da língua serer que significa “aquele que não pode humilhar”. Passou a sua infância em Fimla no sul do país até aos sete anos e foi marcado pelos cultos animistas que inspirou alguns dos seus poemas.

De 1913-1922 fez os seus estudos nas Missões Católicas de Joal e de Ngasobil e prosseguiu no Colégio de Dakar onde foi excluído por um ano por indisciplina. Esse facto toma consciência da sua negritude. No final dos seus estudos secundários em Dakar, viaja para Paris onde fez preparação para o curso de agregação em gramática e é no decurso dessa formação que ele conhece o antilhano Aimé Césaire e o francês Georges Pompidou e fazem amizades que durarão por muito tempo. Em 1935 conclui com sucesso o exame de agregação tornando-se no primeiro agregado africano e matricula-se nos seminários dos antropólogos franceses Marcel Maus e Paul Rivet no Instituto de Etnologia de Paris.

No decurso dessa formação a Europa vivia já um ambiente que prenunciava um conflito militar em grande escala com a ascensão dos nazis ao poder e a anexação da Áustria e a região dos Sudetas na Checoslováquia em 1936. A mobilização em França é um facto. Após a invasão da Polónia em 1939, Senghor foi alistado nas fileiras do exército francês e em 1942 foi feito prisioneiro. Bilé (2005) relata que “44.000 prissioneiros em 1942 entre eles se encontrava um jovem professor do liceu, totalmente desconhecido na época que no pôs-guerra s tornou um grande Chefe de Estado: Léopold Sédar Senghor. Senghr ensinava, antes da guerra, em Saint-Maurdes-Fossés. Mobilizado para os primeiros combates foi incorporado no 3º regimento de infantaria colonial em Fevereiro de 1940. Ficou um semestre na frente de combate antes de ser capturado em Junho em Charité-sur-Loire” (p. 49). Um companheiro de armas, Janet Vaolland, citado por Serge Bilé, conta como Senghor escapou a um fuzilamento: “Logo que a nossa unidade foi capturada, os alemães fizeram sair todos os negros da fila e os alinharam a parte. Senghor compreendeu que os alemães queriam fuzilá-los. Mas no momento em que o pelotão se apressou a atirar nós gritamos Viva a França e Viva a África Negra. Os alemães ficaram surpreendidos e depuseram as suas armas. Finalmente um oficial convenceu-se que não valeria a pena executá-los (idem). O mesmo autor revela ainda que “Senghor escapou e foi enviado para o campo de prisioneiros (Frontstalag 230, POitiers) onde encontrou os dois filhos do governador do Tchade, Félix Éboué [por sinal seus futuros cunhados]. O soldado Léopold foi transferido a Romilly-sur-Seine, depois a Troyes e repatriado de novo para o campo de Amiens. Foi neste cativeiro que ele escreveu um dos seus mais célebres poemas inspirado no apelo do general De Gaulle sobre as duras condições de cativeiro dos soldados negros. (idem). Por razões de saúde, Senghor foi libertado em Fevereiro de 1942 e retoma o seu posto de professor num subúrbio parisiene.

Após a libertação da França pelos Aliados com a ajuda da Resistência em 1944 é solicitado pelo general Charles de Gaulle a estudar o lugar das colónias na Assembleia Constituinte. Dentro dessa reforma os africanos são chamados a participarem na vida política e em 1946 é eleito deputado ao Parlamento francês pelo Bloco Africano de Lamine Gueye. Nesse mesmo ano casou-se com Ginette Eboué, filha de um antilhano Félix Eboué que foi governador-geral do Tchade que abriu à França Livre as portas da África Central em 1941. Esse casamento dura apenas nove anos e dá-se o divórcio. Volta a casar-se em 1957 com a francesa Colette Hubert com quem viverá até a sua morte.

Com outros intelectuais africanos e antilhanos, fundamentalmente com o seu compatriota Allioune Diop, criam a revista Presence Africaine em 1947, que se propõe divulgar vários aspectos da história e das culturas africanas. Com essa revista cria-se um movimento cultural que contribuiu para desencadear um movimento em prol das independências dos países africanos e particularmente das ex-colónias francesas.

Apesar dessas acções Senghor mostrava-se contrário às independências africanas. Num discurso na Assembleia Europeia em Strasburg, em 1950 fez afirmações nesse sentido: “no século politécnico da bomba atómica o nacionalismo aparece ultrapassado e a independência não é mais que uma ilusão. Neste mundo real até a angústia, portanto absurdo, os homens, senão os povos preferem as liberdades que a Liberdade, à independência do seu país à interdependência material e moral de cada um dos seus concidadãos … a África tem a mística da igualdade na cooperação. Se vocês se recusam a satisfazê-la os homens de boa vontade que nós somos serão amanhã – dentro de 20 ou 30 anos – colaboradores aos olhos das jovens gerações. Aqueles terão a mística da independência na secessão”. Nesse discurso Senghor mostrou-se também contrário a conquista da independência pela via da luta armada tal como defendia o antilhano Franz Fanon. Para ele “a Europa deixou passar a hora da EuroÁsia. E eis que hoje sob razões que não são sempre válidas reconheço sem pena que a Ásia espera se distinguir da Europa quando ela não se opõe pelas armas. Nossa assembleia deixará passar essa ocasião, a hora da EuroÁfrica? Esperamos que se produza em África outros acontecimentos como da Coreia, da Malásia, da Indochina. Não será nem sábio, nem político”.

Esse pensamento de Senghor é recorrente nos anos 1950. Seis anos depois desse famoso discurso de Strasbug, ele voltará a falar das independências nos seguintes moldes: “Falar de independência é raciocinar de cabeça para baixo e os pés no ar. Isto não é racional. É um falso problema.” Que explicação dar a essa posição de Senghor? Considero que ele foi vítima da alienação cultural. Foi educado num sistema e num contexto cultural de ridicularização do homem africano e não conseguiu fazer uma leitura crítica da realidade social. Mesmo assim como deputado ao Parlamento Francês toma parte no processo negocial para a independência no quadro da Confederação do Sudão ou do Mali (Senegal/Mali) juntamente com o seu amigo e compatriota Mamadou Dia e o maliano Modibo Keita.

A independência da Confederação do Mali foi proclamada a 20 de Junho de 1960, no seio da comunidade franco-africana. Essa federação do Mali terá pouco duração. Segundo Christian Roche (2006) “a crise eclodiu dois depois da proclamação da independência. A 19 de Agosto de 1960, Modibo Keita, presidente do governo federal, proclama o estado de emergência e demite Mamadou Dia do cargo de Vice-presidente e de Ministro da Defesa da Federação, sob o pretexto de que certos dirigentes na perspectiva da futura eleição presidencial, criaram um clima de tensão podendo desencadear acontecimentos graves” (p. 109).

Essa decisão provocou uma reacção por parte dos senegaleses e Mamadou Dia faz um discurso pela rádio e a Assembleia legislativa reúne-se sem a presença do seu presidente Lamine Gueye e aprova uma lei, proposta por Mamadou Dia, que proclama a retirada do país da Federação do Mali, proclama a independência do Senegal e o estado de urgência. Modibo Keita e seus companheiros são conduzidos a estação dos caminhos-de-ferro e partem de comboio para Bamako.

A sua chegada são acolhidos pela população e num discurso Modibo Keita condenou as atitudes dos senegaleses e acusou a França de os ter encorajado. Sobre as causas dessa ruptura Christian Roche (2006) sugere que “a ruptura deveu-se mais as concepções opostas dos senegaleses e malianos sobre a estrutura da Federação e sobre os candidatos aos postos-chaves das instituições federais. Para os malianos o seu país devia ser um Estado unitário partilhado entre duas províncias autónomas, o Sudão e o Senegal. Os senegaleses, por seu lado, estimavam que o Estado devia ser federal afim de deixar aos outros países a oportunidade de aderirem.

No entanto, as contradições agudizaram-se quando Modiba Keita opôs-se a candidatura de Léopold Sédar Senghor à presidência preferindo o senegalês Lamine Gueye. A preferência de Modibo Keita por Lamine Gueye deve-se a sua proximidade ideológica e o seu distanciamento dos franceses” (p. 110).

Assim, a Assembleia Legislativa senegalesa reunida a 25 de Agosto de 1960 adoptou uma nova constituição e proclamou a independência do país. A 5 de Setembro de 1960, Léopold Sédar Senghor é eleito pelo parlamento presidente da República. Nascia assim a República do Senegal cuja Lei Constitucional baseava-se no modelo francês de 1946 em que o Presidente da República é o Chefe de Estado (Léopold Sédar Senghor), mas é o presidente do Conselho de Ministros (Mamadou Dia) que governa.

Veja também biografia de Léopold Sédar Senghor

Esse modelo acabou por se mostrar impraticável porquanto Mamadou Dia tinha mais protagonismo que Senghor e as suas relações começaram a degradar-se ao ponto de ter eclodido uma crise em 1962 que levou a demissão de Mamadou Dia.

Senghor tem as portas abertas para governar o país no meio de algumas reivindicações dos trabalhadores e estudantes por causa da deterioração das condições sociais resultante das más colheitas devido a seca que assolava frequentemente o país. Os episódios que marcaram a governação de Senghor foram vários entre eles o atentado que sofreu em 1967. De acordo com Christian Roche “em 22 de Março de 1967 escapa a um atentado. O autor foi preso, julgado e condenado a morte. Senghor recusou o pedido de perdão e o autor foi fuzilado. Os estudantes realizaram manifestações para protestar contra a corrupção, a repressão e boicote às eleições. Os estudantes qualificam Senghor de lacaio do imperialismo francês” (p. 134). Essas manifestações obrigaram o governo senegalês a diminuir as bolsas de estudo, a encerrar a Universidade de Dakar e a prender os dirigentes estudantis e sindicais. É assim que os sindicatos entram em acção decretando greve ilimitada a partir de 30 de Maio para protestar contra a violação das liberdades individuais e colectivas e a morte de 11 estudantes no campo universitário.

Em 1973 convence-se que era a altura de fazer algumas modificações dando expressão a uma oposição limitada. A 31 de Julho de 1974 autorizou o advogado Abdoulaye Wade a criar o seu partido que se chamou Partido Democrático Senegalês. Outras formações políticas não receberam autorização. Foram rejeitados os pedidos do advogado Majhmout Diop que projectara a formação do Partido Africano da Independência (PAI) e do historiador Cheikh Anta Diop (1923-1986) que tinha tentado criar duas formações políticas, nomeadamente, o Bloco das Massas Senegalesas em 1961 e a Frente Nacional Senegalesa em 1963.

A 17 de Março de 1976 uma reforma constitucional instaura o multipartidarismo limitado a três correntes de pensamento: UPS do presidente Senghor que se proclamou socialista em Dezembro de 1975, o Partido Africano da Independência de Majhmout Diop que se afirma marxista e de Abdoulaye Wade, Partido Democrático Senegalês de tendência liberal. Nesse quadro aparece Cheikh Anta Diop com um partido, o Reagrupamento Nacional Democrático (RND). No momento do reconhecimento dos partidos políticos a formação política de Cheikh Anta Diop foi rejeitada e permanecerá na ilegalidade durante alguns anos.

A par dessas acções Senghor convence-se que era a hora de preparar a sua retirada da vida política e escolhe como sucessor o seu antigo director de gabinete e seu primeiro-ministro Abdou Diouf. A 31 de Dezembro de 1980 apresenta, ao juiz-presidente do Tribunal Supremo do Senegal, Kéba M’Baye, o seu pedido de demissão pondo fim a trinta e cinco anos de vida política. Toma posse no dia seguinte, 1 de Janeiro de 1981, como Chefe de Estado do Senegal, Abdou Diouf. Senghor felicita-o e parte para França com uma curta passagem pelo Marrocos a convite do rei Hassan- II. Em França fixa-se na cidade de Verson onde passará o resto da sua vida até a sua morte em 2001. O ano da retirada da vida política (1981) foi também de choque, porquanto em 7 de Junho o seu único filho, Philippe Maguilen, encontra a morte trágica num acidente de viação em Dakar quando saia de uma discoteca. Já em França, Senghor foi eleito membro da Academia Francesa. Esse reconhecimento deu-lhe uma grande reputação internacional. O governo do Senegal decidiu que o seu nome fosse atribuído ao aeroporto de Dakar, alguns estádios desportivos, avenidas e pontes.


 

Dr. Júlio Mendes Lopes

Docente de História de Angola no Instituto Superior João Paulo II, de História Universal no curso médio de Educadores Sociais no Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), Assistente de História de África no Instituto Superior de Ciências da Educação

(ISCED de Luanda) da Universidade Agostinho Neto.

1- Palestra proferida na sessão cultural de 16 de Setembro de 2006, no Instituto Superior João Paulo II.

Referências Bibliográficas

AMARAL, Ilídio “Partilhas territoriais e coloniais na África ao sul do sara: jogos políticos africanos no rescaldo da guerra de 1914-1918”, in África e a Instalação do Sistema Colonial (c. 1885 – c. 1930): III Reunião Internacional de História de África – Actas/ direcção de Maria Emília Madeira Santos, Lisboa, IICT, Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga, 2000, pp. 47-70.

BETTS, Raymond F. “A Dominação Europeia: métodos e instituições”, in História Geral da África. VII. A África sob dominação europeia 1880-1935, S. Paulo, Ática/UNESCO, 1991, pp. 323-337.

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