I Fórum Econômico de Mulheres Negras apresenta dados inéditos sobre justiça econômica racial

21/05/26
Por Kátia Mello [email protected]
Pesquisa lançada durante evento, que teve intervenção de Geledés, aponta permanência das desigualdades raciais e de gênero no Brasil

Realizado em 14 de maio de 2026 no Museu Afro Brasil, em São Paulo, e promovido pelo Fundo Agbara, o I Fórum Econômico de Mulheres Negras partiu de uma pergunta central em um país onde indicadores econômicos ainda costumam ser apresentados como médias universais: quem realmente se beneficia do desenvolvimento econômico brasileiro? O lançamento do IJER — Índice de Justiça Econômica Racial — respondeu à questão ao demonstrar que raça e gênero seguem sendo fatores determinantes na distribuição de renda, no acesso a direitos, oportunidades e condições dignas de vida no Brasil contemporâneo. Ao colocar mulheres negras no centro da análise econômica, o estudo rompe com leituras que se pretendem universais e neutras e evidencia que crescimento econômico sem perspectiva racial e de gênero tende a reproduzir privilégios históricos, alicerçados no racismo e no patriarcado.

A assessora internacional de Geledés, Giovanna Coelho, durante sua fala no evento, destacou que o estudo funciona não apenas como uma ferramenta técnica, mas como um instrumento político de disputa de narrativa sobre o modelo de sociedade construído no país. Segundo ela, a pesquisa confronta diretamente os privilégios históricos da branquitude e da masculinidade ao demonstrar que o acesso desigual a direitos não é resultado de falhas individuais, mas consequência de um capitalismo racial e sexista que continua explorando corpos negros, sobretudo os das mulheres. Ao relacionar educação, renda, trabalho e moradia, Coelho argumentou que o Índice desmonta a ideia de produtividade e mérito como critérios neutros de justiça econômica. “A desigualdade no acesso a esses direitos não é acidental”, afirmou ela, ao defender que as estruturas contemporâneas ainda carregam marcas profundas da escravidão colonial.

A escolha do dia 14 de maio para o lançamento da pesquisa — data que sucede a abolição formal da escravidão — também apareceu como elemento simbólico do debate. Em sua intervenção, Coelho recuperou uma reflexão de outra assessora internacional de Geledés, Carolina Almeida, realizada durante evento no Instituto Rio Branco, em que menciona o 14 de maio como “a promessa não cumprida da emancipação política e do desenvolvimento econômico que nunca chegou efetivamente à população afrodescendente no Brasil”. A partir dessa leitura, o fórum discutiu como a abolição inacabada segue operando na distribuição desigual de riqueza, proteção social e vulnerabilidade. Os dados apresentados pelo IJER apontam que mulheres negras continuam concentradas nos trabalhos mais precarizados, mais expostas ao endividamento e mais sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado não remunerado.

Nesse sentido, um dos pontos mais enfatizados no encontro foi a necessidade de produzir dados desagregados por raça e gênero, pauta que está incansavelmente na agenda de Geledés. Para as participantes, estatísticas não são neutras: representam instrumentos centrais de incidência política, formulação de políticas públicas e responsabilização do Estado. Segundo a assessora internacional de Geledés, a atuação internacional do Instituto busca pressionar organismos globais para que a desagregação de dados por raça e gênero sejam incorporados de maneira transversal nas políticas de desenvolvimento econômico e combate às desigualdades. “Precisamos quantificar e qualificar o debate para apontar quem são as pessoas vulnerabilizadas por esse sistema predatório, onde elas estão e quais tecnologias, muitas vezes ancestrais, utilizam para resistir”, afirmou Coelho ao defender que a produção de dados também é uma disputa de poder e narrativa.

Ao citar Sueli Carneiro, Coelho reforçou que a incidência internacional não constitui um fim em si mesmo, mas uma estratégia política para pressionar o Estado brasileiro a implementar transformações concretas nas condições de vida da população negra. “O propósito último de toda essa estratégia é mudar as condições de vida da nossa gente”, afirmou, retomando uma fala recente da intelectual durante a celebração dos 38 anos de Geledés. Na ocasião, o instituto lançou uma coleção de dez publicações sobre sua trajetória de incidência internacional. Ao destacar a importância dessa atuação nos espaços multilaterais, Sueli Carneiro afirmou que, “enquanto Geledés, defendemos que este é um campo estratégico de enfrentamento ao racismo e de construção de possibilidades de transformação”. A declaração sintetiza a maneira como o instituto tem articulado, em fóruns da Organização das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos, debates sobre raça, gênero, desenvolvimento econômico e justiça social como dimensões inseparáveis da luta antirracista contemporânea.

Essa atuação internacional de Geledés vem se consolidando também no campo da justiça econômica racial. Em novembro de 2024, durante a programação do G20 Social, no Rio de Janeiro, foi lançado o documento “Empoderamento Econômico da População Afrodescendente e o Papel dos Bancos Nacionais e Multilaterais de Desenvolvimento”, resultado executivo de um seminário internacional promovido por Geledés em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os grupos de engajamento do G20 — Civil 20 (C20), Think 20 (T20) e Women 20 (W20) — além da ONU Mulheres. O encontro reconheceu a urgência de enfrentar a discriminação étnico-racial a partir de políticas econômicas estruturantes, especialmente no acesso ao crédito, ao financiamento e ao desenvolvimento sustentável da população negra, reforçando como raça e gênero precisam ocupar a centralidade das agendas econômicas globais.

Outro eixo importante do Fórum foi a crítica ao modelo econômico brasileiro. Entre as discussões estiveram a defesa da justiça racial e de gênero em temáticas que transcendem as arenas tradicionais de defesa dos direitos humanos. Assim, é preciso aprofundar o debate de justiça econômica antirracista e feminista também em espaços relacionados aos rumos da Economia nacional e global, como em relação à arquitetura financeira que resulta em desigualdade tributária entre os mais ricos e mais pobres, concentração de renda, dificuldades no acesso à credito e feminização da pobreza. Além disso, em termos da divisão sexual e racial do trabalho, temos a precarização das relações de trabalho, com salários baixos, escala 6×1, e, ainda, a carga desproporcional do trabalho de cuidados não remunerados.

Os números apresentados pelo IJER ajudam a dimensionar, inclusive, como a desigualdade racial e de gênero permanece praticamente intacta mesmo em períodos de melhora econômica geral. Em 2016, a renda domiciliar per capita das mulheres negras era de R$862,98, enquanto a dos homens brancos chegava a R$1.821,55 — mais que o dobro. Sete anos depois, em 2023, apesar do aumento da renda média em todos os grupos, a distância estrutural permaneceu quase inalterada: mulheres negras registraram renda per capita de R$1.191,66, enquanto homens brancos alcançaram R$2.381,43. Os dados revelam que crescimento econômico, por si só, não significa redistribuição racial da riqueza.

A discussão avançou também para o acesso desigual ao crédito e aos mecanismos de financiamento econômico. No mesmo evento de lançamento das publicações de Geledés, em abril deste ano, a presidenta do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Luciana Servo, afirmou que “o grande crédito econômico não é distribuído de forma igualitária” e alertou que, sem intervenção direta do Estado, ele continuará inacessível para mulheres negras e para a população negra em geral. 

Segundo a economista, a população negra segue limitada ao “nanoempreendedorismo” e ao microempreendedorismo de baixa escala, baseado em créditos reduzidos, enquanto os grandes financiamentos permanecem concentrados em estruturas empresariais que historicamente excluem pessoas negras dos espaços de poder econômico. A reflexão da presidenta do IPEA reforça um dos argumentos principais do IJER: a desigualdade racial não se expressa apenas na renda e nas condições de trabalho, mas também no acesso ao capital, ao investimento e às possibilidades concretas de construção de riqueza intergeracional.

O debate ainda dialogou com o ODS 18 — Igualdade Étnico-Racial — criado pelo governo federal. Coelho mencionou que um estudo conduzido por Geledés para o Relatório Luz identificou ausência de progresso significativo nas metas relacionadas à igualdade racial, classificadas como insuficientes, estagnadas ou em retrocesso. Mais do que diagnosticar desigualdades, o I Fórum Econômico de Mulheres Negras reposicionou raça e gênero no debate econômico brasileiro. 

Em seu documento final, o Fórum afirma que “quase 40 anos depois da Constituição, ainda há um grande abismo entre o que a lei garante e o que a população negra vive no dia a dia”. Importante dizer que a própria elaboração de uma pesquisa como essa, conduzida por mulheres negras, evidencia a capacidade de agência e articulação que essas mulheres possuem. Porque mesmo depois de 138 anos da abolição formal, ainda estamos discutindo as consequências persistentes da liberdade precária e da cidadania hipotética da população afrodescendente. Naquela época, havia resistência da população negra contra uma abolição desvinculada de condições de vida digna, reivindicação que permanece atual nas políticas de reparação e se expressa por meio de pesquisas como a do IJER.

 A conclusão do IJER reforça que direitos formais, sem políticas econômicas estruturantes e enfrentamento ao racismo nas dinâmicas do trabalho, da renda e do crédito, são necessários, mas insuficientes para transformar concretamente a vida da população negra, especialmente das mulheres negras. Uma conclusão que condiz com o posicionamento e a incidência política de Geledés. 

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