quinta-feira, julho 7, 2022
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Impactos do racismo no cotidiano da sociedade brasileira: alguns apontamentos sobre o processo de interdição escolar

Impactos do racismo no cotidiano da sociedade brasileira: alguns apontamentos sobre o processo de interdição escolar “Podemos estar a entrar num período em que as sociedades são politicamente democráticas e socialmente fascistas” Boaventura dos Santos

ANIELE FERNANDES DE SOUSA 

Resumo

Selecionando momentos de construção da identidade brasileira para análise, este artigo promove uma breve viagem pela história do Brasil com a finalidade de identificar elementos de promoção, construção e difusão do pensamento e ações racistas.

Considerando que as desigualdades sociais atingem diretamente a parcela negra da população, em virtude da manutenção de valores racistas, este artigo apresenta a hipótese de que o processo de evasão escolar está intrisicamente ligado ao racismo à la brasileira. Palavras-chave: Racismo, Educação, Interdição escolar.

Alguns apontamentos históricos

Em 1816, o botânico Auguste de Saint-Hilaire chegou ao Brasil para pesquisar a nossa flora, levando daqui diversas plantas para estudo, essa ação é hoje caracterizada como biopirataria; Contudo, o que perturbou a elite brasileira do século XIX, ao ler as obras de Saint-Hilaire, não foram os seus estudos botânicos, mas suas considerações acerca da sociedade que encontrou por aqui. Saint-Hilaire (1937) concluiu que “havia um país chamado Brasil, mas absolutamente não havia brasileiros”.

Essa visão sobre o Brasil não era exclusiva de Saint-Hilaire, outros viajantes também já mencionavam a inexistência de uma nação nestas terras. É neste contexto de busca por uma identidade brasileira que, em 1838, é criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB. D. Pedro II teve, durante todo o seu reinado, uma proximidade muito grande com o Instituto, não só como financiador, mas também como membro. Foi um assíduo frequentador das reuniões do IHGB.

Schwarcs (1998) calculou que o monarca presidiu “um total de 506 sessões de dezembro de 1849 até 7 de novembro de 1889”, enquanto sua presença na Câmara se restringia ao inicio e ao final do ano, salvo situações de urgência.

Foi no IHGB que surgiram as primeiras obras com o objetivo de construir uma identidade brasileira. D. Pedro II dizia “A ciência sou eu” fazendo uma analogia à famosa frase de Luís XIV, rei da França.

Era a ciência brasileira a cargo dos interesses da elite. Em uma busca instigante para se encontrar um símbolo para a nação, os estudiosos do IHGB optam pelo indígena como emblema da cultura nacional, o próprio Imperador começa a estudar o tupi e o guarani e o movimento nativista cumpre o papel de enaltecer e idealizar um modelo indígena.

Neste cenário em que a elite branca idealiza e elege o indígena como símbolo da cultura nacional, parece não sobrar espaço para a população negra, que é representada com inferioridade, mesmo nos estudos que colocam as três raças (negro, indígena e branco) como constituintes da sociedade brasileira.

Representar o negro em uma situação de inferioridade não é exclusividade do período imperial brasileiro, desde o início da exploração da África, América e Ásia, os acadêmicos da Europa incumbiram-se de realizar estudos acerca das regiões recém-descobertas, contudo, essas pesquisas tinham como objetivo justificar a ação dos grupos colonizadores.

Santos (1980) apresenta em sua obra “O que é racismo” uma citação de Ginés de Sepúlveda, do século XVI: Os espanhóis têm todo direito de exercer seu domínio sobre estes bárbaros do Novo Mundo e ilhas adjacentes, os quais em prudência, inteligência e toda espécie de virtudes e sentimentos humanos são tão inferiores aos espanhóis quanto as crianças com relação aos adultos, as mulheres com relação aos homens, pessoas cruéis e desumanas com relação a pessoas mansas, pessoas desequilibradas com relação a pessoas equilibradas; e, enfim, estou prestes a admitir que com relação aos espanhóis estão na posição de macacos em relação a homens. (SANTOS, 1980, p. 24)

Estudos como o de Sepúlveda inundaram o mundo acadêmico a partir do século XV, e, segundo Santos (1980) é a partir deste momento que há uma transição do pensamento, onde o racismo deixa de ser puramente cultural e passa a ser também biológico.

Neste contexto, os acadêmicos europeus elaboram diversos estudos afirmando a inferioridade dos povos, sempre em complacência com a ciência. Este racismo biológico que é minuciosamente construído a fim de atender aos anseios de uma elite passa a ser difundido, cada vez mais, alimentando o pensamento racista contra os povos não-europeus; Santos (1980, p. 24) apresenta uma citação dos seguidores de Sepúlveda que diz: “nos trópicos a pobreza é inevitável: aqui o homem só tem energia para pensar em sexo e baixezas.

Sendo, além disso, habitados por gente de cor, seu futuro é triste. A difusão frequente destas idéias levou ao surgimento de regimes de segregação racial, como nos Estados Unidos e na África do Sul. Gilberto Freyre, depois de longos anos de estudos nos Estados Unidos, voltou seus olhares ao Brasil, visando compreender como se davam as relações raciais aqui, já que durante sua estadia no exterior conviveu com a segregação racial.

Assim, desejou compreender a história desta nação a partir de outras análises, contrárias ao pensamento economicista da época, objetivava uma análise cultural. Para Freyre o encontro das três raças foi uma genialidade, embora houvesse no primeiro momento um embate militar a continuidade das relações caminhou para uma convivência harmoniosa, sem receio entre vencidos e dominados, tratou se de um encontro “fraterno, solidário, generoso, democrático, viabilizado pela miscigenação.” (REIS, 2000, p. 66).

Devido à ausência de mulheres brancas para satisfazer os anseios dos portugueses, estes foram buscar nas índias e nas negras o aconchego de que necessitavam e uma relação que nasceu de estupros aos poucos tornou-se harmoniosa. Longe de casa os portugueses sentiam-se sozinhos, assim as relações que tinham com as negras e índias tornou-se suave, muito além do sexo em si, além disso, ressalva Freyre, a vida sexual dos portugueses adolescentes era iniciada pelas negras, em uma relação social amigável.

Seguindo esta concepção Freyre construíu uma história do Brasil que valoriza a miscigenação, compreendendo que os portugueses nada fizeram de errado, declamando um grande elogio no decorrer de toda sua obra. Ressalva ainda que os filhos dos brancos eram aleitados pelas negras, em uma relação de ternura, e, que as negras e indígenas eram as preferidas pelos brancos pelos mimos e carinhos que recebiam destas e também pelos seus seios que despertavam enorme desejo, eram estas as mulheres recomendadas para a vida sexual.

As relações com os homens negros também perpassavam por esta harmoniosa convivência, enquanto crianças, negros e brancos brincavam juntos sem distinção, sendo que esta relação de infância gerou profundo afeto, provocando uma convivência de amizade e ternura entre vencidos e dominados.

Essa análise romantizada, que camufla os problemas raciais, constituiu-se em um mito, o da democracia racial brasileira. Ainda hoje é comum ouvirmos pessoas que dizem não haver racismo em nossa sociedade, que vivemos em uma democracia, considerando que somente os fatores econômicos são responsáveis pelas desigualdades sociais.

Contudo, quando analisamos a posição do negro em nossa sociedade é possível observar que sua presença é maior nos locais de intensa vulnerabilidade, que esta igualdade e esta fraternidade difundida por Freyre são excessões de um sistema que discrimina e exclui as pessoas pela sua cor de pele.

Racismo à la brasileira Pensar o racismo brasileiro é refletir sobre uma série de peculiaridades, não é possível analisá-lo sob a ótica segregacionista de outras regiões, há uma particularidade no racismo brasileiro.

Freyre ao se deparar com o intenso processo de miscigenação percebeu que havia algo diferente aqui no Brasil e, elaborou, com base no campo cultural, uma leitura das relações raciais brasileiras. O estudo realizado em Casa Grande e Senzala foi um escândalo para a época, até então a miscigenação era vista apenas como uma alternativa de branqueamento da nação brasileira.

A partir da obra de Freyre “o Estado Novo passa a adotar a miscigenação como símbolo de identidade da jovem nação” (SCHWARCZ, 1996, p. 164), considerando que vivíamos uma democracia racial aqui no Brasil. Essa interpretação levou a UNESCO a realizar um estudo do caso brasileiro, que serviria como propaganda da Instituição junto ao combate do racismo.

O Programa de Pesquisas sobre Relações Raciais no Brasil sustentava a hipótese de “que o país representava um exemplo neutro na manifestação de preconceito racial e que seu modelo poderia servir de inspiração para outras nações cujas relações eram menos democráticas” (SCHWARCZ, 1998, p. 201).

No decorrer dos estudos, enquanto uma ala correspondia às expectativas da UNESCO, outro grupo compreendia que as relações raciais aqui não se davam de forma tão harmoniosa como difundido até então. Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni empreenderam estudos que expunham que o racismo mostrava-se cada vez mais presente em nosso cotidiano.

As investigações apresentaram elementos que deixava evidente que havia um mito naquilo que chamavam de “democracia racial” brasileira, revelando que o brasileiro partia do pressuposto que classificar-se como preconceituoso era ainda mais feio do que o próprio fato de discriminar alguém.

Assim, Fernandes concluiu que “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Os estudos realizados por este grupo que revelava as peculiaridades do racismo brasileiro tinham as teorias marxistas como base de análise, assim defendiam a idéia de que “o que explicava a sociedade brasileira não era a raça, não era a cultura particular, mas sim uma situação de luta de classes e de total assimetria” (SCHWAERZ, 1996, p. 166). Promovendo um estudo que desapontava as expectativas da UNESCO.

As novas pesquisas iluminavam aspectos jamais formalizados e revelavam a característica discriminadora da sociedade brasileira; no entanto, acabaram por desvalorizar alguns argumentos de Freyre que merecem atenção. A questão racial não se resumia a um problema de classe, e tratá-la como tal era deixar de lado um tema fundamental da sociedade nacional. (SCHWARCZ, 1996, p. 167)

Analisar os impactos do racismo somente a partir dos aspectos culturais não abrangia toda a complexidade da situação, mas as teorias economicistas, sozinhas, também não davam conta de todas as peculiaridades da conjuntura, contudo, foram de grande importância para a desconstrução do mito da democracia racial brasileira. Esses breves apontamentos nos mostram o quão é difícil e polêmico o embate em torno das relações raciais.

Uma pesquisa realizada na USP, em 1988, sob coordenação de Lilia Schwarcs, indagou os entrevistados sobre situações de preconceitos, nesta ocasião 97% dos entrevistados disseram não ter preconceito, contudo, quando perguntados se conheciam alguém que tinha preconceito 98% dos entrevistados responderam que sim. Estes mesmos sujeitos revelaram ainda o grau de relação que tinham com pessoas racistas, nestas circunstâncias disseram que se tratava de “parentes próximos, namorados e amigos queridos”. (1996, p. 155) Schwarcs (1996, p. 155) concluiu a partir desta pesquisa que “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.

É como se houvesse um reconhecimento do racismo, mas há um tabu em discuti-lo, prefere-se não tematizar a questão. É também nesta perspectiva que o termo “raça” gera contestações até mesmo dentro do Movimento Negro. É certo que nunca houve uma neutralidade no uso do termo “raça”, o que mudou foi à conceituação do mesmo. É importante ressaltar que o termo “raça” é compreendido aqui neste artigo como um conceito político e social, seguindo a definição de Nilma Lino Gomes: Apelar para a existência da ‘raça’ do ponto de vista da genética é, atualmente, cair na cilada do racismo biológico.

Todos concordamos que ‘raça’ é um conceito cientificamente inoperante. Porém, social e politicamente, ele é um conceito relevante para pensar os lugares ocupados e a situação dos negros e brancos em nossa sociedade. (GOMES, 2003, p. 23) O termo “raça” e a concepção de racismo no Brasil estão diretamente relacionados a uma questão de aparência, aqui, diferentemente dos regimes segregacionistas, não é o biológico o fator determinante da situação, mas a cor da pele, o físico, aquilo que vemos.

O racismo à La brasileira, que percebe antes colorações do que raças, que admite a discriminação apenas na esfera privada e difunde a universalidade das leis, que impõe a desigualdade nas condições de vida, mas é assimilacionista no plano da cultura. É por isso mesmo que no país seguem-se muito mais marcas de aparência física, que, por sua vez, integram status e condição social, do que regras físicas ou delimitações geracionais. (SCHWARCZ, 1998, p. 184)

Esse racismo brasileiro marcado pelas características físicas do individuo e difundido no campo da cultura acompanha todo o nosso processo de formação enquanto sujeitos. Em nossas casas, no nosso bairro, nas escolas que frequentamos, etc., vivenciamos um desenvolvimento cultural e social repleto de resquícios deste tempo em que a elite, com o aparato da ciência, empreendeu uma série de ações que colocava o negro em situação de inferioridade, entretanto, alguns grupos se eximem da responsabilidade em desconstruir estes mitos e, o que é ainda pior, continua reproduzindo uma série de valores racistas no cotidiano da sociedade brasileira.

Neste cenário conflituoso a educação torna-se uma importante ferramenta para desconstruir estes valores e viabilizar a promoção de um ensino que valoriza a diversidade e combate as formas de discriminação. Contudo, é importante ressaltar que trata-se de uma responsabilidade coletiva, não se pode deixar o processo educativo somente a cargo da educação formal, é preciso que esse desenvolvimento humano possa ser visto como responsabilidade social.

É importante combater o imaginário de que o processo educativo é uma responsabilidade somente da escola, contudo, tratando-se de uma ferramenta tão essencial é preciso incumbir, primeiramente neste espaço, uma mudança efetiva de posturas, tanto de educandos quanto de educadores, reconhecendo o espaço escolar como um lugar de trocas.

As formações políticas, culturais e sociais dos educandos perpassam por uma série de valores que devem ser levados em consideração no processo de aprendizagem, nossos educandos são sujeitos de um tempo em que a educação parece não dar conta de acompanhar tantas transformações. Enquanto a saúde compreende que, em média, a juventude se inicia aos dez anos, os estudos no campo da educação ainda vêem este individuo como uma criança, ou, como cita Arroyo (2007) como massinhas e fios coloridos maleáveis.

Reconhecer nossos educandos como sujeitos históricos e sociais é o primeiro passo no combate ao racismo e às discriminações e, mais que isso, é preciso reconhecer e identificar essas mazelas dentro da escola, já que terminologias novas como o bullying, tendem a camuflar as verdadeiras formas de opressão que rondam o universo escolar. Impactos do racismo na contemporaneidade A história brasileira construída ao longo dos anos encarregou-se de ocultar os problemas raciais presentes em nossa sociedade, esta situação fez emergir o mito da democracia racial. Sem o problema racial o fator econômico foi colocado como o principal fator da desigualdade social do nosso país, nestas circunstancias o fracasso ou o sucesso dos sujeitos passam a ser interpretados como uma responsabilidade do próprio individuo. Quando propus este breve passeio pela história do Brasil foi com o objetivo de sintetizar como o racismo à La brasileira foi, e ainda é, construído de forma “sutil”, não há no Brasil uma admissão do racismo, ao mesmo tempo em que pessoas são discriminadas diariamente pela cor da pele.

A novela Insensato Coração, que está sendo exibida pela rede Globo no horário “nobre”, por exemplo, apresenta dois casais protagonistas, um casal negro e um branco, essas situações repercutiram a idéia de que esta tudo bem, negros e brancos tem os mesmos espaços, é apenas uma questão de meritocracia, contudo quando lemos nas entrelinhas percebemos que não é bem assim. É notório que o número de personagens negros ainda é bem menor, além disso, o casal negro da novela, representado por Lazaro Ramos e Camila Pitanga, apresenta algumas distinções inquietantes. O papel de “mãe solteira” foi destinado à Camila Pitanga, não vejo nenhum problema na gravidez administrada apenas pela mulher, o problema é que esta atitude é colocada como subalterna nos moldes sociais.

No caso do Lazaro Ramos é ele quem faz o papel de “cafajeste”, homem viril e, que propõe uma relação não oficializada. O casal negro vivencia, diariamente na televisão brasileira, espaços julgados e construídos como subalternos, mas de forma “sutil”. Oficializando espaços e relações o público tende a naturalizar as hierarquias sociais e raciais, esta é a principal marca do racismo à La brasileira. É neste emaranhado de relações que educamos e somos educados na sociedade brasileira, nega-se preconceitos e racismos ao mesmo tempo em que imagens de subalternização são perpetuadas e difundidas na figura do negro.

Paulo Freire (1982) pontuou que “Temos de saber o que fomos para saber o que seremos”, para este pensamento completo a idéia de que temos que saber o que fomos para construir o que queremos ser. É nesta perspectiva que propus reflexões acerca da construção e difusão do racismo na sociedade brasileira, visando indagar as relações de um espaço tão diverso, a escola, onde se reúnem crianças, jovens e adultos de diferentes origens, raças, gêneros, credos, etc. Sendo um ambiente de encontro entre as diferenças a escola torna-se também um lugar de segregação, exclusão e até interdição, fruto de preconceitos e racismos que se revelam no cotidiano da sociedade.

Gênero e Raça na escola A diversidade no ambiente escolar tem sido pauta de uma série de estudos que visam compreender melhor as relações que afloram neste espaço. Contudo, essa linha de análise é muito recente, já que ainda é bastante comum generalizar e universalizar um perfil estudantil. A partir de uma breve contextualização de como se deu o processo de construção da identidade nacional brasileira é possível observar que nossa história ficou carente de uma valorização das diferenças, tanto no que diz respeito aos critérios de raça, quanto aos critérios de gênero. Sobre gênero é como se fosse tão natural a subalternização, que a identidade construída para a nação brasileira nem precisava citar, exemplo disso é a primeira constituição brasileira, não consta em seus artigos a proibição do voto da mulher, é como se fosse algo já sabido e “compactuado por toda a sociedade”: mulher não vota.

Agora, no que diz respeito à raça a situação foi diferente, as discussões neste campo perpassaram por várias gerações, contudo, de uma forma egocêntrica, desvalorizando a cultura africana, como exceção dos estudos de Freyre, a miscigenação foi vista como uma alternativa para eliminar definitivamente traços e heranças destes povos. Roquete Pinto ficaria decepcionado ao saber que suas previsões acerca do branqueamento dos brasileiros falharam. No ano de 1929, no I Congresso Brasileiro de Eugenia, em resposta as posições racistas, o antropólogo alegou que em 2012 já teríamos uma população composta por 80% de brancos e 20% de mestiços, não haveria mais homens de cor aqui nestas terras.

Essa definição usual do termo homem para falar sobre seres humanos, por si só, já invisibiliza todas as distinções de gêneros da nossa sociedade. Durante meus estudos no Ensino Fundamental, lembro que a chamada era organizada em ordem alfabética, mas com um diferencial, primeiro o nome dos meninos e depois o das meninas, certo dia indaguei minha professora sobre esta situação; A resposta que tive foi que o nome dos meninos deveria aparecer primeiro para evitar que algum menino fosse identificado pelo nº 24, já que se trata de um número relacionado à questão de sexualidade.

Nota-se que a opção de colocar o nome dos meninos primeiro na chamada é mais fácil do que promover uma discussão acerca da sexualidade, “fingir” não ver o problema é uma alternativa para não ter que combatê-lo. Apresentei este relato para refletir sobre uma variedade de problemas que assolam a sala de aula, dentre eles podemos destacar o que vou chamar aqui de cartilha de comportamento escolar; Meninos e meninas têm papeis pré-definidos a ser seguido no ambiente escolar e, na sociedade em geral, um comportamento mais agressivo, por exemplo, é esperado de um menino, ao ponto que atitudes mais afetuosas cabem somente à menina.

A raça e o gênero apresentam-se como fatores determinantes da condição social dos indivíduos, sendo assim, a escola não pode eximir-se de promover uma educação que leve em consideração estes fatores, é preciso (re)conhecer nossos educandos como sujeitos históricos e sociais. Impactos do racismo na interdição escolar Esse racismo construído e difundido, ainda na contemporaneidade, que subalterniza indivíduos e determina suas condições sociais, está diretamente ligado ao fracasso ou ao sucesso escolar dos sujeitos. Sua ascensão, permanência e saída da escola não se da de forma desvinculada de sua vida social, trata-se de relação emaranha e determinante.

Os impactos do racismo podem ser percebidos em diversos setores de nossa sociedade, contudo, pontuarei neste momento uma reflexão acerca dos impactos do racismo no processo de interdição escolar. O uso da palavra interdição, em substituição ao termo evasão dar-se em virtude de outra perspectiva de leitura, compreendendo que muitas vezes os sujeitos são forçados a abandonar a escola por condições adversas, assim o uso do termo evasão implicaria, diretamente, que o motivo de saída do sujeito do universo escolar ocorreu por uma iniciativa do mesmo, ao ponto que será defendida a hipótese, aqui neste artigo, de que o sujeito não abandona a escola por iniciativa própria, mas a faz em virtude de condições adversas.

Os estudos em torno da evasão escolar apontam a falta de interesse do aluno e suas condições financeiras como os principais fatores responsáveis desta ação, acredito que tratam-se de fatores muito relevantes, contudo, é notória a ausência de uma análise que leve em consideração o perfil destes educandos. Estudos do Ipeadata apontaram que não há equidade racial no processo de evasão escolar. A pesquisa avaliou os dados de 1991 até 2000, tendo como referência pessoas de 7 a 14 anos, nesta ocasião constatou-se que no Brasil as crianças e os jovens negros são a maioria fora da escola.

A pesquisa revelou que do total de crianças brancas, nesta faixa etária, que se matricularam na escola 13,54% evadiram, ao ponto que as crianças negras apresentam um dado ainda mais agravante, 26,56%, o dobro das crianças brancas. O que faz com que nossos educandos negros liderem o rank do processo de interdição escolar não pode ser explicado somente a partir da falta de interesse do mesmo ou da sua situação econômica. Sobre esta situação Rosemberg (1998) pontua que: Ao reconhecer a concentração maciça do alunado negro nas camadas mais pobres da população, tende a identificar as dificuldades interpostas à escolaridade da população negra com os problemas enfrentados pela pobreza, não considerando a especificidade do pertencimento racial. (ROSEMBERG, 1998, p. 74)

Essa percepção de que os problemas econômicos são mais determinantes que o pertencimento racial do sujeito é fruto dos estudos economicistas dos anos 50, que embora foram de extrema relevância no combate ao mito da democracia racial brasileira, interpretou os problemas da desigualdade como fruto, exclusivo, da classe social dos indivíduos, desconsiderando que o pertencimento de classe dar-se também em virtude da raça.

Na contemporaneidade é notória uma busca pela universalização do acesso ao ensino e permanência na escola, contudo, essa universalização tende a não investigar as particularidades de cada situação, nota-se que análises baseadas na equidade racial, por exemplo, ainda são muito carentes. Um país que nasce a partir de um processo de colonização, que é o ultimo a abolir a escravidão, que tem a segunda maior população negra do mundo – atrás apenas da Nigéria, que construiu e consolidou uma sociedade em critérios de desvantagens, excluindo cidadãos da vida política e social, não pode eximir-se de reparar as mazelas sociais geradas por este impacto.

É preciso investir em políticas publicas de combate ao racismo, mas isso só é possível a partir de teorias que identifiquem essas ações em todos os segmentos sociais. Esse modelo social contraditório que vivenciamos na atualidade torna essa identificação muito mais difícil, vivemos em um momento turbulento onde Boaventura (2007) pontua que: Direitos humanos são violados para que possam ser defendidos, a democracia é destruída para que se garanta sua salvaguarda e a vida é eliminada em nome da preservação. Linhas abissais são traçadas tanto no sentido literal quanto no metafórico. (SANTOS, 2007, p. 79)

Essas linhas abissais que demarcam espaços, invisíveis ou não, afetam diretamente nosso convívio social e racial, essas delimitações tendem a naturalizar nossas relações, impedindo, por exemplo, a associação do racismo ao processo de interdição escolar. A pesquisa Motivos da Evasão Escolar, realizada pela Fundação Getúlio Vargas no ano de 2009, apresentou dados intrigantes quanto a essa temática. Segundo esta investigação 10,9% dos alunos que estão fora da escola afirmaram estar afastados devido à dificuldade de acesso; 27,1% alegaram que a ausência é decorrente da necessidade de trabalho; 40,3% disseram não ter interesse de estudar e 21,7% alegaram outros motivos Dentre os números apresentados pela pesquisa o mais intrigante é o maior deles, 40,3%, estes algarismos representam o percentual de alunos que alegaram não ter mais interesse de estudar.

Trata-se de um número muito alto, quase metade das justificativas, logo ele merece uma maior atenção. Ao apresentar estes dados esta pesquisa possibilita-nos uma série de análises, primeiramente gostaria de refletir sobre o interesse dos alunos na escola. É comum ouvirmos educandos reclamando do modelo das aulas, da forma como as disciplinas são lecionadas, entre outros, contudo, caminhamos para um momento de mudanças, onde as novas pedagogias indagam sobre as diversas formas do saber, construindo novos rumos para o campo da educação. Mas, o que pretendo problematizar aqui não é o modelo pedagógico difundido em nossas escolas, mas a responsabilização do próprio educando quanto aos motivos da sua ausência no ambiente escolar. É mais fácil transferir a responsabilidade para o próprio sujeito do que investigar de forma mais ampla os fatores da sua desmotivação.

Ao culpabilizar o próprio sujeito pela sua ausência na escola a pesquisa Motivos da Evasão Escolar exime-se de problematizar uma série de fatores. Não há, por exemplo, uma análise quanto à raça e o gênero dos educandos. Ao universalizar o perfil dos sujeitos fica ainda mais difícil identificar e compreender as particularidades de cada situação.

O documento Jovens de 15 a 17 anos no Ensino Fundamental lançado pelo MEC apresenta uma argumentação muito relevante, que convém ser citado aqui: (…) é necessário aproximarmo-nos desses jovens e vê-los em seus tempos e espaços de real inserção. Para isso, propomos três proximações de imediato: a primeira é revelar, com mais acuidade, quem são esses jovens e como é que esse percurso escolar, ou melhor, a ausência de um percurso mais laborioso, impacta suas vidas; a segunda é ver nesses jovens o que os constituem e os movem como sujeitos para que nos desvencilhemos de uma visão focada no déficit e possamos agir potencializando o que de positivo eles trazem em suas vivências (…) a terceira é perceber que se há um débito é da sociedade e do Estado brasileiro que acumularam uma dívida historica com essas populações. (DAYRELL; NOGUEIRA; MIRANDA, 2011, p. 20)

Esta aproximação, proposta pelo documento citado acima, é uma interessante alternativa para conhecermos melhor o perfil dos nossos educandos, promovendo a partir daí uma série de políticas públicas de combate ao racismo em nossa sociedade e, consequentemente, a erradicação do processo de interdição escolar. Também é possível identificar os impactos do racismo nas taxas de homicídio da população brasileira.

O Mapa da Violência de 2011 apresentou dados intrigantes. Analisando o número total de homicídios da população, com atenção para os critérios de cor/raça, a pesquisa revelou que durante os anos de 2002, 2005 e 2008 houveram, respectivamente, 18.852, 15.661 e 14.650 casos de homicídios entre a população branca. Nota-se que as taxas são decrescentes, ou seja, houve uma visível redução dos índices de homicídio entre esta parcela da população.

Contudo, quando analisadas as taxas de homicídio da população negra, nota-se que a situação é mais preocupante. Observa-se que em 2002 ocorreram 26.915 homicídios, seguido de 28.230, em 2005 e, 32.349 em 2008. Enquanto as taxas de homicídio da parcela branca da população diminuíram, a situação do negro tornou-se ainda mais calamitosa com um aumento significativo dos números de homicídio. Comparando as taxas de assassinato de negros e brancos, no ano de 2008, é possível observar que os negros mortos representam mais que o dobro da população branca. Ao tomar como análise somente o número de homicídios da população jovem, compreendendo a juventude entre 15 e 25 anos, os dados são ainda mais impactantes.

O número de homicídios entre a juventude branca, em 2008, foi de 4.582 e da juventude negra de 12.749, praticamente três vezes a mais que a população branca; Além disso, os assassinatos da juventude reproduzem os índices da população total, onde há o aumento de assassinatos entre a parcela negra e a redução destes crimes para a parcela branca.

Estes dados desiguais mostram-se presente também no acesso à educação; Em 2001 uma pesquisa do INEP revelou que as taxas de analfabetismo para pessoas de 15 anos ou mais, ainda eram duas vezes maior para a parcela negra da população. Neste mesmo ano o Mapa da Exclusão Digital divulgou que entre os brasileiros que têm computador, 79,77% são brancos, 15,32% são pardos e 2,42% pretos e, quando considerado o acesso à internet a pesquisa revelou que a possibilidade de um branco ter acesso a este serviço é 167% maior que um negro. São essas desigualdades, entre negros e brancos, presentes nos índices de violência, nos números de detidos em presídios, nos dados da saúde, nos valores dos salários, nos altos índices de pobreza, etc., que alimentam a hipótese de que o processo de interdição escolar não se dá de maneira isolada, conforme aponta alguns estudos, mas de forma intrínseca, revelando a onipresença do racismo à La brasileira na contemporaneidade. Considerações Finais A forma como a história do Brasil foi construída e difundida, inferiorizando sujeitos e naturalizando preconceitos, impediu a formação de uma sociedade igualitária e perpetuou uma variedade de discriminações. Neste contexto, a criação de políticas públicas tem sido umas das alternativas mais eficazes na promoção de oportunidades mais justas.

Contudo, é preciso desenvolver e consolidar pesquisas que apresentem os impactos do racismo em diferentes contextos, já que somente a partir da identificação desta mazela é possível lutar por políticas públicas que a erradique. É nesta perspectiva que Movimentos Sociais têm empreendido uma série de lutas e resistências contra este modelo opressor que vivenciamos. Se durante seu governo o Presidente Hermes da Fonseca (1910-1914) considerava que problema social é caso de polícia, a realidade parece reproduzir esta máxima. A parcela negra da população enfrenta uma série de dificuldades que afetam diretamente seu convívio social. Diversas pesquisas revelaram que não há uma democracia racial como se imaginou, que negros e brancos não têm as mesmas oportunidades em nossa sociedade e que o racismo revela-se “sutilmente” em nosso cotidiano.

É nesta perspectiva que este artigo levantou algumas hipóteses de que o racismo está intimamente ligado ao processo de interdição escolar. As justificativas de que esta saída é fruto somente da falta de interesse do aluno ou da sua condição financeira mascara a realidade brasileira, impedindo, por exemplo, outras análises que levem em consideração não só a raça do educando, mas também seu gênero. Se nossos educandos têm abandonado as escolas por falta de interesse existe um fator que determina esta ação e, sendo nossos educandos negros o dobro dos brancos fora da escola, suponho que esta ação dar-se também em virtude de ações e/ou pensamentos racistas presentes em nossa sala de aula.

Esse artigo promoveu apenas alguns apontamentos iniciais sobre a intrínseca relação do racismo com a interdição escolar, o que não é suficiente, é preciso uma pesquisa mais ampla que revele melhor esta relação. Contudo, problematizar esta questão e promover reflexões acerca da temática é também uma forma de luta contra a opressão racial vivenciada em nossa sociedade, é uma maneira de dizer que não podemos admitir que a parcela negra da população continue a sofrer, muitas vezes calada, uma série de preconceitos e discriminações, sobretudo na escola que é um importante espaço de socialização de saberes e valores.

Somente com a luta cotidiana é possível erradicar esse mal que assola diversas sociedades.

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Fonte: WebArtigos

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