John Grisham, um racista que não vê problema na pedofilia

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Quem produz pornografia infantil é um criminoso. Quem consome, também. Mas não é isso o que pensa John Grisham, escritor de 59 anos considerado ícone do gênerolegal thriller (suspense com temática de advocacia). Em entrevista ao britânico The Telegraph, ele questiona a responsabilidade de quem assiste vídeos pornográficos com menores de idade.

Na entrevista, Grisham diz:

“Temos prisões cheias de homens da minha idade. Homens brancos em seus 60 anos que nunca fizeram mal a ninguém, que nunca tocariam em uma criança. Mas eles ficaram on-line numa noite e começaram a navegar por aí — provavelmente beberam demais ou algo assim —, e apertaram os botões errados, e foram longe demais e entraram em pornografia infantil.”

A afirmação foi feita durante uma entrevista para promover seu mais novo romance, ‘Gray Mountain’. Grisham fez tal comentário em referência a um amigo da Faculdade de Direito da Universidade do Mississippi, preso por pedofilia. Para o escritor, que já vendeu mais de 275 milhões de exemplares de livros que tratam de questões legais — entre eles, ‘A Firma’, ‘O Dossiê Pelicano’ e ‘O Cliente’ —, o sistema judiciário, neste caso de seu amigo, falhou.

“Seu hábito de beber estava fora de controle, e ele entrou em um site. Um chamado ‘putas amadoras de 16 anos’ ou algo assim. Ele foi lá, fez download de algumas coisas — eram garotas de 16 anos que pareciam ter 30. Ele não deveria ter feito isso. Foi algo estúpido, mas não eram garotos de 10 anos. Ele não tocou em ninguém. E, Deus!, uma semana depois a polícia bate em sua porta: ‘FBI!’. Era uma armação da Real Polícia Montada do Canadá [a maior força policial daquele país] para pegar pessoas, pegar criminosos sexuais, e ele foi preso por três anos.”

Apesar de Grisham não citar o nome do amigo em questão, o Salon acredita que se trata de Michael B. Holleman. Em 1997, Holleman foi a julgamento por envio e receptação de pornografia infantil. De acordo com uma notícia publicada no Sun Herald em novembro de 1997, o caso foi mais grave do que afirma Grisham:

“Um agente disfarçado que pediu fotos a Holleman no começo deste ano recebeu 13 imagens, todas de crianças menores de 18 anos, algumas menores de 12. Elas mostravam crianças durante conduta sexualmente explícita, incluindo penetração.”

 Nada justifica a defesa de quem consome pornografia, sobretudo em um momento de forte repressão a esses criminosos. Na última década, entidades que lutam contra a pornografia infantil conseguiram, junto ao Congresso norte-americano, aumentar significativamente a punição de quem acessa pedofilia on-line. De 2004 a 2010, a pena média para quem possui (não para quem produz) pornografia infantil quase dobrou: de 54 meses em 2004 para 95 meses em 2010, de acordo com um relatório da Comissão de Penas dos EUA.

Diante de diversas críticas, Grisham recuou. No Facebook, pediu desculpas pelos comentários.

 

Resta saber quando Grisham se desculpará por ser racista, também — afinal, deixar subentendido que prisão não é lugar para homens brancos que cometem crimes é preconceito. O mesmo preconceito que assassinou Michael Brown, negro de 18 anos, na pequena cidade de Fergunson, Missouri, em 9 de agosto. A morte do jovem jogou na cara da sociedade norte-americana uma verdade: a segregação racial ainda é real — e mata.

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