terça-feira, setembro 27, 2022
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Lobato, os jecas e a questão racial no pensamento social brasileiro

Por: Ricardo Augusto dos Santos

Este texto narra a construção da figura simbólica do Jeca Tatu e é parte de uma biografia sobre Monteiro Lobato, tendo como cenário o pensamento social brasileiro. Uma análise das representações sociais e literárias sobre o país, destacando um aspecto pouco presente na literatura acadêmica, que examina a difusão dos textos, sem uma investigação rigorosa das condições históricas de produção do pensamento social e político. Portanto, sem articulação da identidade cultural com a criação dos tipos sociológicos, que em vários momentos, foram “retratos” desta identidade: Jeca-Tatu, Macunaíma, Policarpo Quaresma e outros.

Consideramos que a contribuição deste trabalho consiste em investigar a participação dos membros do movimento sanitarista[1] na adoção de idéias e práticas de educação higiênica e, ao mesmo tempo, nas interpretações sobre a sociedade brasileira. Em outras palavras, julgamos relevante construir um projeto que relacione as imagens simbólicas da obra lobatiana às políticas de saúde pública e de educação. Em suma, este texto é um ensaio biográfico sobre este pungente personagem das letras nacionais: o Jeca Tatu.[2] Nascido como um símbolo do trabalhador rural pobre e doente, em carta escrita por Monteiro Lobato ao jornal “O Estado de São Paulo”, Jeca tornou-se sinônimo de homem do interior. Inclusive, através de sua narrativa, uma empresa de produtos farmacêuticos, difundiu um tônico, propagando os seus valores terapêuticos, chegando a circular em milhões de exemplares nas páginas do folheto “Jecatatuzinho”. A presença do símbolo do homem da roça em campanhas de educação higiênica, especialmente as direcionadas ao controle das endemias rurais, ajudou a popularizar os cuidados com a higiene individual e a saúde pública nas primeiras décadas do século XX.

Caricatura do caipira brasileiro, o Jeca é um dos mais conhecidos personagens de nossa cultura. De caboclo preguiçoso, parasita e indolente à vítima da doença, a trajetória do matuto desenvolvido por Lobato está relacionada ao papel conferido às políticas de saúde publica e de educação no desenvolvimento econômico e social do país. Trata-se de uma das mais fortes representações sociais de nossa identidade, em que se articula o retrato pobre, ignorante e doente da sociedade, especialmente dos trabalhadores rurais, personagens presentes na literatura brasileira, à regeneração e salvação do “povo” por meio da ação do Estado.

Lobato foi uma personalidade central do campo intelectual e literário, sendo possível perceber em sua trajetória duas atividades, escritor e empresário editorial, que visavam um objetivo: a ampliação do número de leitores, através da renovação da linguagem literária, pela modificação na distribuição e comercialização, causando um impacto no incipiente mercado, ao produzir os livros com o farto uso de desenhos, figuras e cores (PASSIANI, 2001).

Nosso objetivo não é apresentar um texto conclusivo acerca do dito racismo cientifico[3] no Brasil. O que pretendemos é esclarecer alguns pontos que permanecem nebulosos. Acreditamos que desta maneira, estaremos empenhados em desvendar os meandros do pensamento social e político do país. Quase todos os pensadores do período, que podemos datar entre 1870 e 1930, pelo menos em algum momento de suas vidas, pensaram a miscigenação racial como um problema a ser solucionado. Em maior ou menor grau, para estes autores, a questão racial era a grande questão nacional. Para alguns, a “mistura racial” era um obstáculo ao desenvolvimento econômico e social. Viam como prova da evolução do Brasil um suposto e crescente “branqueamento das nossas gentes”. Acreditamos que aos olhos destes homens, esta expressão não se referia apenas à cor da pele. Naquela conjuntura, com o país recém-saído do escravismo colonial e da abolição da escravidão, as idéias e as atitudes estavam, e ficariam por muito tempo, impregnadas por símbolos que marcaram as relações sociais escravistas.

Monteiro Lobato, em 1918, publicou O Problema Vital, reunindo em livro uma série de 14 artigos veiculados pelo jornal O Estado de S. Paulo. Estes artigos evidenciam uma mudança de perspectiva do homem rural brasileiro. Ao criar o Jeca tatu, um provável modelo do homem do campo, Lobato estava, ao menos, de acordo com o pensamento social dominante na passagem do século XIX para o século XX. Este pensamento adotava as teorias científicas surgidas na Europa para pensar a identidade cultural brasileira. Para tais idéias cientificistas, o clima, a localização geográfica e a raça determinavam a evolução e a hierarquia das sociedades humanas.

Neste momento, Lobato denunciava uma determinada corrente de interpretação dos elementos nacionais, denominada por ele de “caboclismo”, e atribuía ao Jeca, espécie degenerada em sua origem mestiça e adaptada ao ambiente natural, a responsabilidade por todos os problemas do universo rural. O Jeca era indolente, incapaz de participação na política e na produção do trabalho no mundo moderno. Não possuía qualquer noção de pátria ou de nação. Era, portanto, incapaz de evolução e progresso.

Contudo, o enfoque mudaria. E o diagnóstico seria outro. Se o determinismo biológico representava um problema grave, uma herança genética, o saneamento poderia transformar cientificamente a realidade. Lobato, criador do Jeca, mostrava-se um entusiasta do discurso científico de sua época, especialmente no campo da microbiologia e da parasitologia. É por meio da ciência médica que Jeca, personagem literário, adquiria sua cidadania.[4] A primeira aparição do Jeca data de 12/11/1914, num texto enviado por Lobato ao jornal O Estado de S. Paulo com o titulo de “Velha Praga”, no qual Lobato se insurgia contra as queimadas de roça e descrevia o modo de vida dos caboclos de sua propriedade.

“Este funesto parasita da terra é o CABLOCO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando… vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão (…) de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se (…) o caboclo é uma quantidade negativa.” (Lobato, 1957:271)

Neste trabalho, aparecem os nomes de Manoel Peroba, Chico Marimbondo e Jeca Tatu. Porém, segue-se um novo texto, novamente publicado no mesmo jornal, com o título de Urupês, onde Lobato dá um panorama mais completo do Jeca e do seu modo de vida, em oposição a uma literatura que exaltava romanticamente o caboclo. Para Lobato, então fazendeiro no interior paulista, a explicação para a apatia, a indolência e a incapacidade produtiva do Jeca encontrava-se nas facilidades de sobrevivência proporcionadas pela mandioca, milho e cana, e concluía:

“Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive”. (Lobato, 1957:289-292).

Em correspondência enviada ao seu amigo Godofredo Rangel em 20 de outubro de 1914, portanto, poucos dias antes da publicação do primeiro texto enviado ao Jornal O Estado de S. Paulo, encontra-se mais uma descrição indignada de Lobato sobre o modo de vida do urupê de pau podre. Apesar de um pouco longa, é muito esclarecedora, porque descreve o processo de criação do personagem sombrio e apático — O Jeca Tatu:

“Atualmente estou em luta contra quatro piolhos desta ordem – ‘agregados’ aqui das terras. Persigo-os, quero ver se os estalo nas unhas. Meu grande incêndio de matas deste ano a eles devo. Estudo-os. Começo a acompanhar o piolho desde o estado de lêndea, no útero duma cabocla suja por fora e inçada de superstições por dentro (…) Contar a obra de pilhagem e depredação do caboclo. A caça nativa que ele destrói, as velhas árvores que ele derruba, as extensões de matas lindas que ele reduz a carvão. Havia uma gameleira colossal perto da choça, árvore centenária – uma pura catedral. Pois ele derrubou-a com três dias de machado – atorou-a e dela extraiu (…) uma gamelinha de dois palmos (…) Como aproveitou a gameleira, assim aproveita a terra. Queima toda uma face de morro para plantar um litro de milho (…) o piolho, afugentado, vai parasitar um chão virgem mais adiante. A nossa literatura é fabricada nas cidades por sujeitos que não penetram nos campos de medo dos carrapatos. E se por acaso um deles se atreve e faz uma ‘entrada’, a novidade do cenário embota-lhe a visão, e ele, por comodidade, entra a ver o velho caboclo romântico já cristalizado – e até caipirinhas cor de jambo (…) O meio de curar esses homens de letra é retificar-lhes a visão. Como? Dando a cada um, uma fazenda na serra para que a administrem. Se eu não houvesse virado fazendeiro e visto como é realmente a coisa, o mais certo era eu estar lá na cidade a perpetuar a visão erradíssima do nosso homem rural. O romantismo indianista foi todo ele uma tremenda mentira; e morto o indianismo, os nossos escritores o que fizeram foi mudar a ostra. Conservaram a casca (…) Em vez de índio, caboclo” (Lobato, apud Landers, 1988:43).

Alguns anos depois, Lobato lançaria uma publicação com o mesmo nome do segundo texto publicado no jornal paulista: O livro Urupês, reunindo contos seus já editados, e incluindo os trabalhos “Velha Praga” e “Urupês”; páginas militantes contra o caboclo indolente e o romantismo ufanista. No entanto, naquela conjuntura Lobato estava progressivamente participando do debate em torno da campanha pelo saneamento das áreas rurais. Ele tomara contato com os médicos Arthur Neiva, Belisário Penna, Renato Kehl e outros participantes do movimento sanitarista. Assim, surgia um novo Jeca: O Jeca dos artigos de “O Problema Vital”. O Jecatatuzinho padecia dos mesmos males, no entanto, após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser indolente; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos. Esta narrativa foi publicada com o título de “Jeca Tatu – A Ressurreição”, e ficaria conhecida como jecatatuzinho, chegando a vender milhões de exemplares através do Almanaque de Produtos Farmacêuticos Fontoura.

Mas, se a personagem mudava, o seu criador também mudaria. Marisa Lajolo afirmou que “Monteiro Lobato parece ter percorrido quase todas as posições ideológicas disponíveis para um intelectual do seu tempo”. (Lajolo, 1983). A autora menciona aquele que seria uma continuidade do Jeca Tatu: O Zé Brasil — publicado pela Editorial Vitória, em final dos anos 40. Este Jeca era compreendido não como preguiçoso nem como um mero doente, mas como um trabalhador explorado. O texto foi apreendido na época. “Coitado deste Jeca. Tal qual eu. Tudo o que ele tinha eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho” (Lobato, apud Lajolo, 1983). A figura do caipira nacional aparecia pela terceira vez na obra de Lobato. Neste momento, superando a intolerância patronal presente no primeiro (Velha Praga e Urupês) e a ótica paternalista no segundo Jeca (Jecatatuzinho). Marisa Lajolo conclui:

“Se o itinerário é plausível, o autor de Urupês parece ter corrigido progressivamente os desvios de uma má consciência. Se suas primeiras baterias se assentam com intolerância patronal frente ao camponês, se esta intolerância é substituída pela solução paternalista para um problema de saúde pública, o texto final — o de zé-brasil — aponta para uma análise da infra-estrutura, isto é das condições de produção e das relações sociais por ela instauradas no Brasil de Lobato.” (Lajolo, 1983)

Como entendermos a mudança do primeiro para o segundo Jeca? Algumas respostas podem ser buscadas nos artigos escritos por Lobato para o jornal O Estado de S. Paulo durante o ano de 1918, que foram reunidos no volume O Problema Vital, por decisão da Sociedade de Eugenia de S. Paulo e da Liga Pró-Saneamento do Brasil, graças às relações que o autor mantinha com Renato Kehl e Belisário Penna — Kehl, inclusive foi o autor do prefácio do volume. THIELEN & SANTOS (1989) sugerem que o ponto de inflexão desta transformação foi o contato de Lobato com o diário de viagem de Neiva e Penna. Em 1912, estes médicos chefiaram uma expedição cientifica patrocinada pela Inspetoria de Obras contra as Secas que percorreu regiões do Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. O diário desta viagem foi publicado no periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em 1916, com fotografias obtidas durante a expedição registrando em detalhes a miséria em que viviam os homens do interior. No artigo “Início de Ação”, também publicado em O Problema Vital, Lobato refere-se a essas imagens fotográficas ao falar de idéias capazes de mudar a realidade:

“A idéia do saneamento é uma. Bastou que a ciência experimental, após a série de instantâneos cruéis que o diário de viagem de Artur Neiva e Belisário Penna lhe pôs diante dos olhos, propalasse a opinião do microscópio, e esta fornecesse à parasitologia elementos para definitivas conclusões, bastou isso para que o problema brasileiro se visse, pela primeira vez, enfocado sob um feixe de luz rutilante. E instantaneamente vimo-la evoluir para o terreno da aplicação prática. E a idéia-força caminha avassaladoramente. Avassaladoramente e consoladora, porque o nosso dilema é este: ou doença ou incapacidade racial. É preferível optarmos pela doença.” (Lobato, 1957 a 297).

Se em Urupês e Velha Praga (1914) Lobato atribuía preponderância às teses raciais e climáticas para a pobreza, chegando a culpar o trabalhador do campo por sua condição, nos artigos de 1918 refletia sobre a questão nacional do saneamento. É através de uma explicação médico-científica que Lobato, preocupado com a reprodução da força de trabalho improdutiva, mudaria a sua concepção do caboclo brasileiro. A ineficiência do Jeca não era mais uma questão de inferioridade racial, mas sim um problema médico-sanitário. O caipira é doente. Ele é pobre porque é doente e assim não produz. A epígrafe do livro O Problema Vital é, neste sentido, elucidativa: “O Jeca não é assim, está assim.” Esta mudança de concepção passava pela crença positiva de Lobato na ciência:

“O nosso problema, verificado que foi o mau estado da população nativa, é simples e uno: sanear. Para sanear é forçoso, preliminarmente, convencermos o país da sua doença; e em seguida fazer dessa idéia o programa de todos os governos, a idéia fixa de todos os particulares. Tudo mais rola para plano secundário. Sanear é a grande questão. Não há problema nacional que não se entrose nesse”. (Lobato, 1957 a 272).

Lobato acreditava, sobretudo, no poder da ciência experimental biomédica perante as doenças, vistas estas como obstáculos ao desenvolvimento econômico. Tratava-se de superar e modificar a realidade com o auxílio da ciência.

“Depois dos estudos de Carlos Chagas, Artur Neiva, Oswaldo Cruz, e depois das veementíssimas palavras de Belisário Penna, governo nenhum, nenhuma associação, nenhuma liga pode alegar ignorância. O véu foi levantado. O microscópio falou. A fauna mentirosa dos apologistas que vêem ouro no que é amarelo e luz na simples fosforescência pútrida, que recolha os safados adjetivões que velaram durante tanto tempo os olhos da nação”. (Lobato, 1957 a 257).

Em outro artigo, Lobato reafirmaria e consolidaria esta visão. Neste momento, para Lobato, o Jeca não era um homem decaído por força de uma preguiça e/ou indolência, mas um indivíduo doente e, por isto, improdutivo. Clamando contra a existência de milhões de vítimas da ancilostomíase, Lobato se compadeceu daqueles Jecas.

“A inteligência do amarelado atrofia-se, e a triste criatura vira um soturno urupê humano, incapaz de ação, incapaz de vontade, incapaz de progresso. Retrato do nosso caboclo quem o dá perfeito, com fidelidade fotográfica, é o médico ao desenhar o quadro clínico do ancilostomado. Tudo mais é mentira, retórica, verso. Esses heróicos sertanejos, fortes e generosos, evolução literária dos índios plutárquicos de Alencar; essa caipirinha arisca, faces cor de jambo, pés lépidos de veada, carne dura de pêssego; licenças poéticas de poetas jamais saídos das cidades grandes.” (Lobato, 1957 a 234).

Ressaltando o caráter revelador da ciência, Lobato asseverava que a imagem fotográfica é fiel à realidade por ela representada. Esta concepção acompanhou todo o desenvolvimento da fotografia e contribuiria para o seu constante uso como documentação. No caso analisado, em oposição à aludida subjetividade dos discursos ufanistas, estava a objetividade e neutralidade da fotografia, capaz de retratar e diagnosticar a verdadeira realidade nacional, assim como o médico sanitarista.

O processo de modernização pelo qual passava o Brasil nas primeiras décadas do século XX foi acompanhado de várias conquistas técnicas que, gradualmente, passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas. O período compreendido entre os últimos anos do século XIX e o início do XX tinha como horizontes técnicos não só a difusão da telefonia, do cinematógrafo e do fonógrafo, mas a introdução de novas técnicas de registro e de impressão. Com o advento dos processos de reprodução fotomecânicos, a fotografia foi introduzida na imprensa e logo surgiram as primeiras revistas ilustradas. Lobato não ficou imune a essas conquistas, pois identificamos nos seus escritos não apenas a referência direta à fotografia, como também inúmeras metáforas derivadas deste meio de comunicação visual. É assim que Lobato refere-se aos “instantâneos cruéis” de Penna e Neiva: denunciando a situação de doença e pobreza do Brasil e estabelecendo um marco, a fotografia como documento social.

Ao participar da campanha pelo saneamento do país, é provável que Lobato tenha progressivamente desenvolvido suas idéias a respeito de alguns temas, entre eles, a identidade nacional e a composição física, étnica e moral do “povo brasileiro”. Lobato estava inserido em seu tempo, produzindo e veiculando idéias que, naquele momento, eram expressões de um “racismo à brasileira”, reproduzindo uma hierarquia social. O correto é que Lobato realizou um mea culpa em sua opinião sobre o indolente e apático Jeca Tatu. No texto “Uma Explicação Desnecessária”, publicada na quarta edição do livro Urupês, em 1919, Lobato assumia uma cristalina revisão ao pedir perdão ao pobre e doente Jeca.

“Cumpre-me, todavia, implorar perdão ao pobre Jeca. Eu ignorava que era assim, meu caro Tatu, por motivo de doenças tremendas. Estás provado que tem no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte. Tens culpa disso? Claro que não. Assim, é com piedade infinita que te encara hoje o ignorantão que outrora só via em ti mamparra e ruindade. Perdoa-me, pois, pobre opilado…” (Lobato, apud Leite, 1996: 82).

Pouco a pouco a campanha pelo “saneamento do Brasil” e “criação da consciência sanitária nacional” ganharia contornos mais definidos. Políticos, escritores e jornalistas manifestariam suas opiniões em várias oportunidades:

“Há tempos o Dr. Miguel Pereira disse em um discurso célebre que o Brasil era um vasto hospital. Pareceu que havia nisso até, em certo ponto, um exagero, uma amplificação retórica. Quando, porém, foram sucessivamente aparecendo os trabalhos dos Drs. Belisário Penna e Arthur Neiva, nos anais do Instituto Oswaldo Cruz, e depois o do Dr. Roquete Pinto, nos anais do Museu Nacional, houve de certo em muita gente a surpresa de verificar a exatidão cruel daquela frase (…) O sertão de que os nossos literatos às vezes falam, o sertão idílico em que a vida se passa em misteres poéticos e bucólicos, onde se ouve a cada passo o tocar do violão, à noite, ao desafio, esse sertão, quando não é apenas ficção literária, representa somente uma faixa de terra muito próxima das capitais (…) O verdadeiro sertão é o que nos pintam os Drs. Roquete Pinto, Neiva e Belisário e esse não tem nada de poético: um atraso…” [5]

Deste debate o escritor Lima Barreto não ficaria ausente. Em artigo de jornal, publicado em 1918, encontramos suas opiniões sobre o “problema vital”:

“… trabalhos de jovens médicos como os doutores Artur Neiva, Carlos Chagas, Belisário Penna e outros, vieram demonstrar que a população roceira do nosso país era vítima desde muito de várias moléstias que a alquebravam fisicamente (…) julgo que o doutor Penna tem razão, julgo que ele e seus auxiliares não falsificam o estado de saúde de nossas populações campestres. Têm toda a razão. O que não concordo com eles, é com o remédio que oferecem… ”

Lima Barreto seria, naquele momento, um dos poucos a atacar a questão social e econômica, escrevendo: “Em suma, para não me alongar. O problema, conquanto não se possa desprezar a parte médica propriamente dita, é de natureza econômica e social”. (Barreto, 1956:131-133).

Do Congresso Nacional também surgiam alguns comentários acerca da campanha pelo saneamento do Brasil:

“O grito de Miguel Pereira veio despertar naquela atonia a que me referi; os nossos estadistas e assumindo a flâmula do combate, surgiu, secundando, não na palavra, mas na ação, o espírito altamente patriótico e abnegado de B. Penna”.[6]

Mas é de Lobato a opinião mais contundente:

“… Manguinhos já fez mais pelo Brasil do que um século inteiro de bacharelice onipotente. A salvação está lá. De lá tem vindo, vem e virá a verdade que salva – essa verdade científica que sai nua de arrebiques do campo do microscópio, como a verdade antiga saía do poço” (Lobato, 1957, p. 244).

Como declaramos anteriormente, Lobato publicou O Problema Vital, reunindo os artigos veiculados pelo jornal O Estado de S. Paulo. Estes textos demonstram uma mudança de diagnóstico dos males da sociedade. A primeira aparição do Jeca, símbolo do homem da roça, data de 1914, onde Lobato, revoltando-se contra o triste espetáculo das queimadas, afirmava ser o caboclo um parasita da natureza. Nesta oportunidade, Lobato estava influenciado pelo pensamento social hegemônico daquela conjuntura, dominado pelas teorias cientificistas de origens européias. Concordamos com LEMOS (1995) no tocante à assimilação das idéias cientificistas e o caráter flexível do cientificismo no Brasil. No entanto, queremos ressaltar que por mais inconsistentes que fossem e até mesmo existissem contradições no seio deste conjunto de idéias positivistas e cientificistas, elas apresentavam uma relação com a sociedade e uma história.

“Em vez de absorção passiva ou mera repetição, o que implicaria negar ao Brasil chances de futuro, ocorreu um esforço de apropriação, um trabalho de interpretação, reelaboração e mesmo de luta com princípios que nos eram francamente desfavoráveis” (Luca, 1999:157).

De acordo com o aspecto aglutinador da memória coletiva, citado por WEHLING e WEHLING (1997), o relatório da expedição Penna-Neiva consolidava as idéias cientificistas. Segundo WEHLING (apud LEMOS, 1995), estas idéias compreendiam um conjunto desconexo de abordagens. Para este autor o cientificismo se traduzia na aquisição de alguns dados do pensamento científico, na priorização e hipertrofia da ciência, na supervalorização do pensamento científico e a supremacia da pesquisa empírica sobre a especulação filosófica. Ainda, segundo este autor, este conjunto de idéias a respeito de ciência no Brasil não constituía um corpo homogêneo.

“… o cientificismo não envolveu todos os espíritos preocupados com a ciência. Ao contrário, as grandes contribuições científicas em todos os campos de saber, até o final do século XIX, partiram daqueles que se alhearam às conseqüências filosóficas do radicalismo cientificista, ou os que as superaram. O cientificismo acabou por limitar-se a uma “versão popular” da ciência, afirmando determinismos e certezas absolutas que a ciência verdadeira estaria longe de possuir ou sequer desejar.” (Wehling, apud Lemos, 1995:18).

As doutrinas do darwinismo social[7] tiveram no Brasil, de forma bastante ampla, uma aplicação relacionada ao contexto sócio-histórico, dando-lhes novos significados. Assim, o cientificismo ordenava as diferenças e explicava a inferioridade inata das populações mestiça e negra.(REIS, 2000) A principal preocupação dos cientistas e intelectuais era com a questão racial. Por que? Porque segundo o conjunto de idéias cientificistas dominantes no Brasil e na Europa, a intensa miscigenação conduzia para uma degeneração étnica e moral que inviabilizaria uma “caminhada para o topo da civilização”. Desta maneira, a mestiçagem representava um obstáculo para a construção da nação e o desenvolvimento do país. Estas leituras da questão racial colocavam algumas perguntas para os intelectuais nacionais. Como construir uma verdadeira nacionalidade, se as “teorias” adotadas indicavam uma improvável nação moderna?

Como os intelectuais resolveram estas questões? Este impasse? Adotando perspectivas que modificaram os modelos deterministas do “racismo científico”, que condenavam o futuro da nação brasileira, sob o argumento de o país possuir uma mistura racial biologicamente incapaz: negro, branco e índio. A partir daí, consolidaria-se um conjunto de discursos que apontariam o abandono da saúde e da educação como o fator principal da decadência e degenerescência. Haveria uma chance para o impasse, para o dilema nacional, pois solucionados tais problemas estaríamos a um passo de consolidarmos um projeto de nação moderna e industrial.

Lobato e seu Jeca regenerado pela ciência são os sinais emblemáticos desta mudança de concepção. Influenciado pelo contato com os membros do movimento sanitarista e pela leitura do relatório da expedição, Lobato transformou seu personagem ignorante. Este, depois de tratado pelo médico, tornar-se-ia trabalhador produtivo e saudável. Deste modo, para afastar qualquer risco de incerteza no processo de “branqueamento” da nação, foi necessário que os intelectuais se apropriassem do conhecimento dito científico em voga no campo das idéias, que era a eugenia. A adoção das regras e conceitos da educação higiênica-eugênica assumiria uma posição confortável na ciência para o desejado branqueamento dos corpos e mentes.

Seduzidos pela idéia de um conhecimento cientifico que anunciava medidas concretas para resolver o problema apontado como grave da mestiçagem racial no Brasil – obstáculo para a construção da nação – os intelectuais brasileiros, sobretudo os médicos, vão aderir à causa eugênica. Desta forma, para este pensamento social influenciado pela eugenia caberia aos homens de saber transformar o processo de seleção dos que devem sobreviver, que funcionava naturalmente, em um instrumento racional e social de construção de uma raça brasileira saudável e de uma nação restaurada fisicamente e mentalmente. Como definiu Renato Kehl, citando Galton a quem chamava de “pai da eugenia”: “O que a natureza realiza às cegas e impiedosamente, deve o homem fazer precavida, rápida e suavemente”.[8] Lobato seria um importante interlocutor dos membros do movimento sanitarista.[9] Inclusive, correspondendo-se durante grande parte de sua vida com Renato Kehl, Belisário Penna e Arthur Neiva.

De raça e clima, o problema que inviabilizava a construção da nação e de sua verdadeira identidade deslocou-se para a doença que passou a ser considerada a origem de todos os males. O Jeca permanecia incapaz, porém estava assim porque encontrava-se vitimado pelas doenças tropicais. No futuro, a ciência o absolveria da sua incapacidade étnica. A educação o capacitaria para a vida e para o trabalho. A parasitologia, a bacteriologia e a microbiologia libertariam seu corpo dos agentes patogênicos. A higiene o protegeria dos males.

“A nossa gente rural possui ótimas qualidades de resistência e adaptação. É boa por índole, meiga e dócil. O pobre caipira é positivamente um homem como o italiano, o português, o espanhol. Mas é um homem em estado latente. Possue dentro de si grande riqueza de forças. Mas força em estado de possibilidade. E é assim porque está amarrado pela ignorância e falta de assistência às terríveis endemias que lhe depauperam o sangue, catequizam o corpo e atrofiam o espírito. O caipira não ‘é’ assim. ‘Está’ assim.Curado, recuperará o lugar a que faz jus no concerto etnológico.” (Lobato, 1957 O Problema Vital :285).

Manoel Bomfim, de maneira diferente da maioria dos intelectuais da época, que responsabilizavam as supostas raças inferiores, a mestiçagem étnica e o clima tropical pelo atraso dos países latino-americanos, abordava a exploração das colônias pelas metrópoles, além de criticar a sociedade brasileira. Acreditava que com a difusão do ensino básico a trágica realidade nacional iria se transformar. Bomfim rompia com o pensamento hegemônico ao criticar a idéia da inferioridade racial, valorizando os tipos mestiços e as culturas ditas inferiores. Argumentava com os intelectuais pessimistas quanto à futura nação brasileira ao criticar os modelos que justificavam o domínio das elites e que se ligavam aos interesses da dominação neo-colonial dos países europeus: “A ciência alegada pelos filósofos do massacre é a ciência adaptada à exploração”.[10]

É de um comentário de Dante Moreira Leite sobre Manoel Bomfim que surge uma explicação das “teorias racistas”. Segundo tal assertiva, Bomfim teria sido um autor nacionalista num momento de pessimismo “racial”. Afinal, os intelectuais brasileiros do período discordavam quanto às razões da inferioridade racial; mas quase todos reafirmavam esta condição inelutável.[11] Esta é uma característica da identidade nacional presente na memória social. Somos inferiores? Por que somos inferiores? O caráter da resposta implicava na formulação do que necessitaríamos fazer para fundarmos uma grande nação moderna.

O movimento pela reforma das políticas de saúde e educação exerceu um papel crucial na construção da identidade cultural. A idéia de redenção nacional através de “reformas” educacional e sanitária legitimaria a função do Estado no campo das políticas sociais. Para alguns desses pensadores, após a identificação da inferioridade cultural, racial e moral realizada pelo pensamento “cientificista” haveria somente uma resposta: a educação. O ensino de novas maneiras de agir, viver e pensar orientadas pela educação higiênica e eugênica. Tarefas que seriam gerenciadas pelo Estado e conduzidas por cientistas e técnicos aptos.

No Brasil, nas décadas iniciais do século passado, a eugenia possuía uma concepção bastante abrangente. Uma definição corrente seria o de um aperfeiçoamento genético para a eliminação de traços defeituosos físicos e morais. No entanto, Belisário Penna, Renato Kehl, Monteiro Lobato e outros atribuíam uma linha bastante flexível entre higiene, eugenia e educação.[12] Em artigo publicado na Revista do Brasil, Renato Kehl declararia: “instruir é eugenizar, sanear é eugenizar”; e ainda nas páginas dessa revista podemos acompanhar a lógica do “racismo à brasileira” ou como as idéias eugênicas no Brasil assumiam a hierarquia social. Personagem central deste processo de disciplinamento social, o médico Renato Ferraz Kehl expôs em determinado momento seu conceito de eugenia, como sendo:

“… a ciência da boa geração. Ela não visa, como parecerá a muitos, unicamente proteger a humanidade do cogumelar de gentes feias. Seus objetivos não se restringem à calipedia, isto é ter filhos bonitos. A beleza é um ideal eugênico. Mas a ciência de Galton não tem horizontes limitados; ao contrário, seus intuitos além de complexos são de uma maior elevação…”. (Kehl apud LUCA, 1999:224).

Em vários livros, correspondências e manuscritos de Belisário Penna, Renato Kehl e Monteiro Lobato, podem ser encontradas passagens de variados tons da teoria eugênica. Os novos conhecimentos higiênicos e eugênicos ofereciam uma saída para o dilema nacional. Estávamos realmente condenados pela herança genética e climática a uma imutável inferioridade social e racial? Os registros sobre a saúde e condições sócio-sanitárias do povo brasileiro, retratadas e reveladas ao público, ofereciam novos e reveladores argumentos. Os tipos humanos, produtos da “miscigenação racial”, eram indolentes, preguiçosos e improdutivos porque estavam doentes. Regenerar e curar o Brasil seria construir uma nação. Saneá-lo, higienizá-lo e eugenizá-lo.

“Temos literatura; ciência quase nenhuma. O esforço disciplinado que a ciência pede não condiz com o nosso temperamento de povo tropical, tão mais amigo da rua que dos interiores. A rua é literária e a ciência só germina no recesso silencioso dos gabinetes e laboratórios – instituições nitidamente peculiares aos climas frios. Como pode medrar a meditação, o estudo longo, numa terra em que o calor constantemente nos toca para a rua – para o ar livre? Falta na obra de R. Kehl uma página sobre a função do frio no desenvolvimento da ciência e da atitude científica…” (Lobato, 1957:81).

Tânia Regina Luca (1999) ajuda-nos a esclarecer estas relações e “saberes”. De uma interpretação racial dos problemas para uma interpretação sanitarista, o “sertanejo”, habitante do interior do país, tido como ser inferior e inadaptável para a civilização havia passado à condição de vítima, doente, sem saúde e educação. As ciências emergentes não modificaram a visão hegemônica sobre a incapacidade nacional para o mundo moderno? No entanto, segundo esta autora, o elo de ligação entre as diversas “leituras” era um ideal de sociedade dominada por um conjunto eclético de idéias cientificistas.

“… a uni-los estava a crença, de fundo neolamarquista, na transmissão dos caracteres adquiridos, que permitia encarar qualquer melhoria nas condições higiênico-sanitárias da população, nos hábitos alimentares, como um avanço em termos de aperfeiçoamento genético” (Luca, 1999:230).

O processo chamado de “redescoberta” do Brasil havia sido para as elites políticas e intelectuais um “retrato” da identidade nacional. A existência de dois “Brasis” – o rural-atrasado e o urbano-civilizado – foi considerado um obstáculo à realização da verdadeira identidade. Mas havia uma esperança. Um novo diagnóstico e novos remédios estavam no campo das idéias: as viagens científicas haviam “retratado” o verdadeiro país. Afinal, não se tratava de uma opinião e tampouco de literatura ufanista e romântica. O Brasil, sob a lente do microscópio e da máquina fotográfica, transformara-se num laboratório onde se podia alcançar a verdadeira nacionalidade. A descoberta do país pela ciência apresentava uma saída para o dilema brasileiro, pois, além de “diagnosticar” os problemas, indicava o remédio necessário. O encontro da ciência com a verdadeira realidade nacional apresentava uma saída para o dilema. Era preciso acabar com a indolência. Indagados sobre a necessidade de construção de um poço de água limpa, os membros da expedição Penna-Neiva obtiveram uma resposta dos habitantes dos “sertões” que indicava a eterna apatia do homem rural:

“A água é detestável, salobra, extraída de poços (…) porque não se faz um poço, revestido de pedra, e coberto, colhendo-se a água por meio duma bomba? Não vale a pena, é a resposta. O povo já está acostumado com isso, que não faz mal algum. Não há esgotos, nem se usam fossas para as fezes. Cada qual se exonera ao ar livre e a depuração é feita pelo sol…” (Penna & Neiva, 1961:191) (Grifo nosso).

O movimento político pelo saneamento das áreas rurais concentrava suas atenções na rejeição do determinismo biológico e climático (influência negativa de clima, raça e geografia) e na melhoria das condições de vida e, no caso, voltando-se para a erradicação das graves endemias que assolavam os “sertões”.[13] No relatório da expedição Penna-Neiva, as deficiências do homem do campo foram atribuídas à ausência de saneamento que o protegesse das doenças tropicais. O pensamento social brasileiro ainda sofria forte influencia das teses raciais e climáticas. Até o próprio Monteiro Lobato escreveu:

“Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.” (Lobato, 1957:279).

Pouco tempo depois, Lobato atacaria a visão ufanista e romantizada do campo, chamando a atenção para a dura realidade nacional dos “sertões” e, como declaramos, associando a verdadeira realidade com as imagens fotografadas, Lobato usaria com certa freqüência as representações metafóricas das imagens fotográficas. A fotografia havia surgido com a modernidade do século XIX, como representação visual dos novos valores sociais, substituindo as técnicas até então utilizadas para a produção de imagens. Contemporâneo do processo de modernização que pretendia transformar a sociedade brasileira nas primeiras décadas do século passado, Lobato lançou um olhar crítico sobre sua época. Constantemente, demonstrava crença no progresso e na ciência como verdade única e totalizante, veementemente afirmada.

Reiterando, para alguns dos cientistas-intelectuais[14], a constituição racial do país era um obstáculo à construção da nacionalidade. Sob este ponto de vista, o povo deveria ser transformado. Era intensa a influência dos teóricos do racismo científico como Gobineau, Agassiz e Le Bon (CARVALHO, 1999). Os cientistas-intelectuais do movimento sanitarista criticavam as teses do determinismo biológico e racial, baseando-se em seus conhecimentos do Brasil verdadeiro adquirido nas viagens científicas efetivamente realizadas, em contraste com as diferentes idealizações do país. Como outros autores observaram, a imagem negativa do Jeca Tatu seria reformulada após o contato de Lobato com os membros do movimento pela criação da consciência sanitária nacional, como Belisário Penna, Arthur Neiva e Renato Khel (SKIDMORE, 1976 e THIELEN & SANTOS, 1989). Contrários ao ufanismo romântico e ao determinismo biológico, estes homens qualificavam suas idéias e propostas como científicas — e assim pensavam justificar suas interpretações dos problemas nacionais, pois estavam autorizados pela racionalidade cientifica.
“Em extenso Relatório que há mais de um ano apresentamos, o jovem cientista Dr. Arthur e eu, ao eminente Dr. Oswaldo Cruz, de uma excursão de sete meses, com um percurso a cavalo de mais de 4.000 quilômetros, através dos sertões da Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás, vem descrita e documentada a trágica epopéia da vida sertaneja”. (Penna, 1918:8).

Após a publicação do relatório (1916) e como desenvolvimento da campanha pelo “Saneamento do Brasil”, Belisário Penna escreveu no jornal Correio da Manhã uma série de 13 artigos que, em 1918, foram publicados em livro. Ele tornou-se um crítico das idéias ufanistas que exacerbavam as supostas qualidades positivas do sertanejo e do país, opondo-se à visão do Brasil que ele conhecera. Ao considerar o relatório da missão científica como o documento que comprovava a verdadeira identidade, pensava, assim, corroborar a frase de Miguel Pereira sobre o Brasil: “… o Brasil é ainda um imenso hospital”. O país que Penna documentara era um grande hospital, mas um hospital de pobres, doentes e analfabetos.

“Não esmoreça o eminente professor na patriótica campanha iniciada e conte com a colaboração de todos aqueles que não se deixam mais iludir pelas fantasias e devaneios mentirosos de romancistas e poetas, descrevendo os nossos sertões como pedaços de terra da promissão, onde reinam a fartura, a saúde e a alegria, quando ao contrário são eles em geral, a sede da miséria, da doença, da tristeza e do aniquilamento físico e moral do homem (…) vegeta o sertanejo na miséria, idiotado pela moléstia de Chagas, ou cachetizado pela malária ou pela ancilostomíase, inteiramente abandonado à sua trágica sorte, sem assistência de espécie alguma”. (Penna, 1918:8).

O determinismo biológico e o racismo científico que fundamentavam as teorias raciais, condenavam a miscigenação considerando que a incapacidade social dos brasileiros explicava-se por fatores hereditários de natureza biológica ou pela influência do clima e/ou da geografia. Penna definiria o caboclo como incapaz e inferior, porém ele era “vítima indefesa da doença, da ignorância, da deficiência ou vício de alimentação”. Se educado, alimentado e curado das doenças, a produção de seu trabalho seria como a de qualquer trabalhador europeu. Para Penna, era um equívoco atribuir uma exclusividade negativa às razões da degenerescência racial. E sempre enaltecendo a observação empírica, verdade irrefutável porque documentada:

“… foi depois da verificação pessoal, demorada e conscienciosa dessas calamidades universais no nosso território, que no meu espírito, sucumbido ao peso desse cataclisma nacional, arraigou-se a convicção, a certeza de que é à miséria e à doença, multíplice, generalizada e incontida, mais do que à ignorância, que devemos todos os defeitos que se nos apontam, de indolência, de desânimo, de indiferença e de fatalismo, arrastando-nos todos eles, à ausência de organização social…” (Penna, 1918:31).

Diagnosticando a situação do “povo brasileiro”, B. Penna não à associava a um só fator, mas a um conjunto de causas que prejudicavam as potencialidades do país. Nesse sentido, os indivíduos poderiam ser regenerados através do seu plano de educação higiênica.

“Além do otimismo exagerado e inconsciente, a doença e o analfabetismo são as calamidades que vão destruindo as forças vivas da nação e arrastando-a para a insolvência, e quiçá para a queda da sua soberania. A prova está feita, o alarma está dado…” (Penna, 1918:24).

Nísia Trindade Lima (1999) e Aluízio Alves Filho (1979), em seus livros, destacam uma característica da bibliografia sobre o pensamento social brasileiro. Estes autores ressaltam que, embora crítica, esta literatura restringe-se a alguns nomes. Assim, pensadores como Monteiro Lobato, Manoel Bomfim, Belisário Penna, Renato Kehl e outros que interpretaram o país encontram-se um pouco esquecidos. As interpretações sobre a sociedade tiveram a importante participação destes intelectuais, contudo, eles não são reconhecidos como relevantes autores do pensamento brasileiro, embora muitos tivessem sido divulgadores das representações sociais que ainda hoje estão presentes em nosso imaginário social. Este é o caso dos cientistas-intelectuais, que participaram da campanha pelo saneamento do Brasil e implantação de uma educação higiênica nos lares e escolas. No âmbito deste texto, não esgotamos as inúmeras possibilidades de pesquisa que esses pensadores possui. Vários projetos, artigos e dissertações serão necessários para se compreender a contribuição das idéias de Lobato, Penna e Kehl.

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Resumo:

Este artigo narra as transformações do personagem Jeca Tatu, contendo considerações sobre a questão racial no pensamento social brasileiro. Procuramos recuperar a construção do Jeca, que nascido como um símbolo do trabalhador rural, em carta escrita por Monteiro Lobato ao jornal “O Estado de São Paulo”, tornaria-se sinônimo de homem da roça.

Palavras-chaves: expedições cientificas, racismo cientifico, educação higiênica, eugenia.

Notas:

[1] Sobre movimento sanitarista consultar LIMA, Trindade Nísia. Um sertão chamado Brasil. Rio de Janeiro: Revam, 1999; HOCHMAN, Gilberto. A era do saneamento. São Paulo: Hucitec, 1998.

[2] Alguns trabalhos foram realizados no intuito de analisar a importantíssima contribuição de Lobato para a nossa História Cultural. Enio Passiani (2001) apresentou relevante Dissertação de Mestrado em Sociologia onde descreve a influencia de Lobato no campo literário brasileiro.

[3] Sobre este conceito largamente utilizado pelos intelectuais do período (1870-1930), consultar MAIO, M. C. & SANTOS, R. V. (orgs.) Raça, Ciência e Sociedade. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998.

[4] “A Concepção de progresso de Lobato ligava-se ao espirito científico, ao emprego do microscópio e ao uso do remédio de laboratório, prescrito pelo doutor. O Jeca emergiria de sua miséria, por meio da ciência, do remédio científico, da casa higiênica e da botina, todos resultantes do moderno, do progresso e do espirito científico” (Ribeiro, 1993:210).

[5] Jornal A Noite, 8/3/18 – “Os Últimos Bandeirantes”.

[6] Discurso pronunciado na Sessão de 8/12/22, no Congresso Nacional, por Gouveia de Barros.

[7] Sobre a aplicação das idéias de Darwin nas sociedades humanas e, especialmente, sua difusão no Brasil consultar REIS, José Roberto Franco. Higiene Mental e eugenia: o projeto de regeneração nacional da Liga Brasileira de Higiene Mental (1920-40). Dissertação de Mestrado. Campinas/Unicamp, 1994.

[8] Galton apud Kehl, in Boletim de Eugenia, Ano III, n, 30, junho de 1931. Fundo Pessoal Renato Kehl, DAD-COC. Fiocruz.

[9] Como dissemos, Lobato manteve, neste período, uma intensa relação com os membros do movimento da campanha pelo saneamento do Brasil.

[10] Bomfim Apud Ventura, Roberto. Estilo tropical. São Paulo, Companhia das Letras, 1991. P. 62.

[11] Foi neste contexto que o racismo cobriu-se com a máscara da cientificidade. A este respeito, comentou Dante Moreira Leite: “Em primeiro lugar, (o racismo) era a fórmula preciosa para justificar o domínio branco sobre o resto do mundo: se as outras raças eram incapazes de atingir os valores mais elevados da civilização, só poderiam sobreviver como massas trabalhadoras submetidas aos brancos. Essa justificativa era mais sutil do que parece à primeira vista: através dela, o europeu não chegava a sentir conflito ideológico com seus ideais democráticos e liberais. Não fora ele, europeu, que intencionalmente estabelecera as diferenças entre as raças; ao contrário, estas eram determinadas pela natureza. Em segundo lugar, o racismo parecia justificado pela teoria evolucionista de Darwin e também sob este aspecto se harmonizava com a vida intelectual européia; se o homem resultava de uma longa evolução, na qual sobreviveram os mais capazes, as várias raças estariam em estágios diferentes de evolução e as menos capazes deveriam ser destruídas pelas mais aptas”. (Leite apud Alves Filho, 1979:28)

[12] Renato Kehl modificaria sua opinião a respeito de Eugenia. Mais tarde, ele procuraria um conceito menos amplo. Consultar “Eugenia, Eugenismo e Educação” (1941), do próprio R. Kehl. Fundo Pessoal Renato Kehl, DAD-COC. Fiocruz. Sobre Renato Kehl ver “Apontamentos Historiográficos sobre a fundamentação biológica da Eugenia”, de CASTEÑEDA, Luzia Aurélia” In Episteme, Porto Alegre, v.3, n.5, 1998, pp.23-48.

[13] Depois seriam eleitas três endemias como as principais que atacavam o “povo brasileiro”: A Malária, a Ancilostomíase e a Doença de Chagas.

[14] Valemo-nos da definição, ainda que imprecisa, de Herschmann: “Na falta de um termo melhor que designasse estes intelectuais, utilizei este termo composto (cientistas-intelectuais). A dificuldade de encontrar um termo apropriado para este agente social está fundamentada na atuação deste especialista, que extrapolava a produção científica, realizando obras abrangentes, de cunho teórico, sociológico e literário. A partir de sua especialização, de seu saber tecno-científico, eles ‘inventavam’ soluções para os chamados ‘problemas nacionais’. Longe de propor uma definição de ‘intelectual’, considerei-o como aquele que se reconhece e é reconhecido pelos outros como tal”. (Herschmann & Messeder, 1994:46)

* Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Mestre em Memória Social e Documento pela UNIRIO.

 

 

Fonte: Achegas

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