Londres: A fogueira onde ardem todas as verdades

por Fernando Sobral

Num dos seus mais empolgantes livros, “Millennium People”, o escritor JG Ballard dizia que no nosso mundo totalmente pacificado pelo consumo, os únicos actos com algum significado seriam os da violência sem sentido.

Num dos seus mais empolgantes livros, “Millennium People”, o escritor JG Ballard dizia que no nosso mundo totalmente pacificado pelo consumo, os únicos actos com algum significado seriam os da violência sem sentido. Chegámos à idade da insensatez e onde direita e esquerda andam perdidas em busca de um significado para o que está a acontecer em Londres. Não entendem o porquê dos assaltos e incêndios organizados por bandos de jovens. Porque não são meros actos de “gangsterismo” urbano ou uma revolta de classe ou étnica, devido ao racismo. O que dói nestes actos de vandalismo é que eles são feitos contra os locais que esses mesmos jovens frequentam (os restaurantes Nando’s, que ostentam o nosso Galo de Barcelos, porque foram criados por um português, ou as lojas de desporto e de produtos tecnológicos, e não as lojas das grandes marcas de luxo). Não há aqui destruição motivada politicamente. A identidade de todos estes jovens é feita pelas marcas que usam na roupa e que, não podendo comprar, roubam.

Mundo de fantasia

Quando os Clash, em 1977, cantavam “London’s Burning”, estavam a falar de uma luta consistente e ideológica contra a pobreza, em plena fúria punk. Os jovens de hoje, no seu silêncio, querem apenas ter direito ao mundo de fantasia em que cresceram. Não conhecem valores nem regras. E criam o medo e a insegurança, os verdadeiros pés de barro da democracia. Os incêndios nas ruas de Londres, aliadas à austeridade económica, têm apenas um perdedor: a sociedade democrática. Os governos surgem aos olhos de todos como fracos, incapazes de defender a segurança comum que parece hoje ser o último dos seus deveres. Incapazes de combater a crise económica e incapazes de combater o caos nas ruas, “para que servem?”, interrogam-se os cidadãos. A democracia de consumo baseia-se na possibilidade de fazermos parte dela. Quando o crédito e emprego desaparecem, o diabo solta-se. O contrato social deixou de ter validade. E como é que, sem crédito fácil e com a austeridade em todas as esquinas da vida, é possível recuperar a segurança? A teia social que funcionava como colchão que amolecia todos os choques está a ser destruída pela crise. É assim que irrompe, facilmente, a violência e o roubo sem sentido. Os jovens não assaltam bancos: pilham lojas de “gadgets”. O valor, para eles, está aí.

A sociedade moderna acredita que vive num centro comercial onde todos têm direito a tudo o que vêem. Fruto do crescimento económico após a II Guerra Mundial e do Estado social, o contrato social desenvolveu-se à volta do equilíbrio entre o capital e o trabalho. O crédito permitiu a criação de uma sociedade democrática onde o consumo era o cimento social. A globalização financeira acelerou ainda mais a transferência de paradigmas. E alterou definitivamente a lógica de legitimidade social. Deixámos de ser o que pensamos ou o que fazemos. Somos o que temos e mostramos. A “Fogueira das Vaidades” de que falava Tom Wolfe no auge da década de 80 deu lugar à fogueira das verdades. A coesão social rompeu-se. Os jovens que se passeiam pelas ruas de Londres (e de outras cidades do mundo) são o fruto desta sociedade: são amorais, vivem de aparências (especialmente luxos baratos como roupas desportivas e tecnologia) e a sua identidade social vem dos produtos de consumo que usam como identificação. Nenhum se revolta porque quer mais democracia, como no Egipto ou na Síria. Assaltam lojas porque querem ter, ou vender, o paraíso que está à sua frente.

Crise de confiança no sistema político e financeiro

Nada disto pode ser visto sem vislumbrar o horizonte económico e financeiro de austeridade circundante. Presos nas suas indecisões políticas, os governos começam agora a ter de se defrontar com uma situação desconhecida: a revolta de quem não o faz por motivos políticos ou porque tem fome mas, sim, porque quer os luxos de consumo prometidos.

Mas isso revela como a política e a economia deixaram de ter uma visão comum. Não há uma visão transversal da sociedade como no passado: cada decisor olha para o seu quintal. Isso faz-nos recordar que os clássicos Adam Smith ou David Ricardo nunca usavam isoladamente o termo “economia”. Falavam de “economia política”. Ou seja, era impossível perceber a economia sem a política ou esta sem aquela. Eram universos paralelos e não distintos como hoje julgam alguns técnicos.

Os sistemas políticos, para Smith, derivavam das realidades económicas. E é aí que chegamos à questão que a selvajaria de Londres nos traz defronte dos olhos: esta é uma crise de confiança, quer no sistema financeiro, quer no político. E é um toque de alarme para um sistema democrático que assenta num forte contrato social e numa numerosa classe média que se pode deleitar nos prazeres do consumo e da ascensão social.

O perigo é este: nas ruas de Londres não há uma luta ideológica, há uma guerra pelo consumo prometido. Não foi por acaso que Adam Smith chamou ao seu livro basilar “A Riqueza das Nações”. A pobreza das nações actuais é uma traição à arquitectura que ele desenhou. Porque é feita, nalguns casos, por quem se considera herdeiro dos seus pensamentos.

Fonte: Jornal de Negócios

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