terça-feira, julho 5, 2022
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Luedji Luna canta sobre herança, hereditariedade e encontrar seu lugar no mundo

Disco ‘Um Corpo no Mundo’ foi lançado em 2017 e cresce com o tempo

por Pedro Antunes no O Estado de S.Paulo

De mala pronta para São Paulo, Luedji Luna ouvia palavras de encorajamento da mãe. Sem chororô – se houve, foi escondido, distante do olhar da filha em sua despedida de Salvador. Depois da partida, em 2015, a cantora só voltaria para casa dos pais para passar os Natais.

Viveria intensamente a nova cidade, a nova vida, a nova percepção de quem é, distante de casa, da sua origem. Foi um impacto deixar Salvador, morar em São Paulo, ela diz. Dessa pancada, veio Um Corpo no Mundo, o disco de estreia da artista de 30 anos.

 “A mudança foi o gatilho de tudo”, explica ela, de São Paulo. Nesta sexta-feira, 2, ela toca mais uma vez na cidade, no Sesc Belenzinho, a partir das 21h. Mostra o repertório do álbum lançado no fim do ano passado.

Um Corpo no Mundo é um trabalho para ser dissolvido na boca e o gosto às vezes é amargo – necessário como um remédio. E suas canções crescem com o tempo, tal qual a popularidade de Luedji.

Na última apresentação na cidade, em fevereiro, a cantora esgotou os ingressos do espaço Mundo Pensante, na Bela Vista. Era uma terça-feira, a casa abriria às 23h. Nesse horário, não havia mais ingressos disponíveis na bilheteria e muita gente ficou do lado de fora.

Hoje, Luedji Luna surfa numa boa onda: é uma das cantoras mais interessantes da atualidade, pela voz, pela estética escolhida (é jazz, é afro, é samba) e pela sua escolha poética, de versos afiados, que sangram questões sobre as heranças negadas a ela e a tantos outros negros no País, descendentes daqueles que chegaram nos navios negreiros, sem identidade, sem humanidade.

Ainda neste ano, a cantora participou do projeto Acorda Amor!, cuja direção artística era assinada por Décio 7, da banda Bixiga 70, e por Roberta Martinelli – apresentadora do programa Som a Pino, da Rádio Eldorado, do Cultura Livre, da TV Cultura, e colunista do Caderno 2, no Sesc Pompeia.

Entre outras vozes femininas de destaque dessa geração tão forte, como Liniker, Maria Gadú, Xenia França e Letrux, Luedji levou pessoas às lágrimas ao recitar o poema de Tatiana Nascimento, registrado na última canção do disco Um Corpo no Mundo: “O complexo de contenção: hospício é a mesma coisa que presídio / É a mesma coisa que escola / É a mesma coisa que prisão que é a mesma coisa de hospício / É a mesma coisa que as políticas uterinas de extermínio dum povo que não é reconhecido como civilização / Mas eu sei ser trovão”, vociferou ela. Arrepio e lágrimas.

A força hipnótica de Luedji no palco vem se construindo aos poucos. Quando veio para São Paulo, aos 27 anos, ela já tinha o plano de viver de música na única mala trazida consigo. Vieram também duas músicas, Asas e Dentro Ali, composições datadas de 2012. São as únicas canções pré-Um Corpo no Mundo, mas que provam que aquele sentimento de não pertencimento e de busca pela sua essência e origem já estavam dentro dela, faltava algo.

E veio, com um gosto amargo, na solidão. Luedji chegou a São Paulo com uma mala, mudou-se para a Barra Funda, frequentou o centro da cidade. “Não conhecia as pessoas daqui”, ela relembra. “Me deparei com uma solidão e percebi que não era representada na cidade. Vim de Salvador, que é a cidade do mundo com o maior número de negros fora da África. Em São Paulo, não me via nos lugares que frequentava”, ela explica.

Cantora Luedji Luna lançou, em 2017, o disco Um Corpo no Mundo Foto: Nino Andrés/Centro da Terra

Por viver próxima da estação rodoviária, via ali imigrantes haitianos e africanos a chegar à cidade, refugiados. “Eu ficava aliviada em perceber que não era a única”, ela conta. “E me lembrou da diáspora africana, que é não saber de onde eu vim, né? Qual é a nossa herança? Descendentes de italianos têm uma narrativa, é um avô que veio da região da Sicília. Eu não sei de qual das ‘áfricas’ eu vim”, conclui.

Daí nasceu Um Corpo no Mundo, cujo título entrega esse descolamento e uma herança perdida. “É sobre a sensação de me sentir identificada com outro continente que não tenho como estabelecer uma conexão”, explica. Luedji planou nesse “não lugar”. E, no palco, encontrou seu espaço. Um lugar que é seu, por direito.

LUEDJI LUNA

Sesc Belenzinho. Teatro. Rua Padre Adelino, 1.000, telefone 2076-9700. 6ª (2), às 21h.

Ingressos: de R$ 6 a R$ 20.

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