Luta pela fé e liberdade: 191 anos da Revolta dos Malês 

23/01/26
Por Beatriz de Oliveira
Em 24 de janeiro de 1835 aconteceu a maior rebelião escrava urbana do Brasil, liderada por africanos mulçumanos

Neste 24 de janeiro completam-se 191 anos da maior rebelião escrava urbana do Brasil: a Revolta dos Malês. Na ocasião, por mais de três horas, africanos escravizados ocuparam Salvador (BA) em confronto com civis contrários à ação e soldados, motivados pela conquista da liberdade e contra a imposição do catolicismo. 

Foram cerca de 600 revoltosos, o que representava uma parte significativa da população da cidade. Segundo o historiador João José dos Reis, em 1835 Salvador tinha 65,5 mil habitantes, dos quais 42% eram escravizados, 29,8% de negros livres e 28,8% de brancos. A palavra “malês” vem do idioma Iorubá “imalê” e significa “muçulmano”. O Islã era a crença da maioria dos participantes da revolta, liderada por descendentes da etnia nagô. 

“Os malês encontraram na Bahia de 1835 um campo fértil onde semear a rebeldia escrava e tentar mudar a sociedade em favor dos africanos. Fundada na desigualdade étnico-racial e social, a Bahia vivia uma profunda crise econômica e política. De um lado, as revoltas das classes livres pobres e dos dissidentes liberais. Do outro, escravos africanos ameaçavam a hegemonia dos senhores da Bahia e a ordem escravocrata”, sublinha o historiador no livro “Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835”. 

As repressões vivenciadas pelos escravizados e a proibição de praticar o islamismo – já que a única religião permitida era o catolicismo – foram os motivos que levaram os malês à organizarem uma revolta. Os objetivos eram tomar a cidade de Salvador, libertar os escravizados e defender a liberdade de culto religioso, sem restrições. 

Por serem escravizados urbanos, também conhecidos como escravos de ganho, circulavam pela cidade para trabalhar, o que facilitava o encontro com seus pares e o planejamento da ação. Além disso, os muçulmanos em geral eram conhecidos por saberem ler e escrever. Além disso, usavam panfletos escritos em árabe para comunicar o levante. 

“Não há sombra de dúvida sobre o papel central desempenhado pelos muçulmanos na rebelião de 1835. Os rebeldes – ou uma boa parte deles – foram para as ruas com roupas usadas na Bahia pelos adeptos do islamismo. No corpo de muitos dos que morreram a polícia encontrou amuletos muçulmanos e papéis com rezas e passagens do Qur’an usados para proteção”, escreve João José dos Reis em seu livro. 

A prisão do líder religioso islâmico Pacífico Licutanfoi um dos estopins para o levante. Os malês marcaram a ação para o dia 25 de janeiro de 1835, data em que se celebra o fim do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos, naquele ano. Seria um domingo e os revoltosos aproveitariam a missa da manhã na Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, momento em que o centro da cidade estava mais vazio. O plano consistia em incendiar diversos pontos da cidade, resgatar Pacífico Licutan e seguir para os engenhos para libertar os escravizados. 

No entanto, após uma denúncia de Sabina da Cruz,  africana nagô  liberta, à prefeitura, a revolta foi antecipada para o dia anterior. Sendo assim, no dia 24 de janeiro, centenas de africanos com vestes tradicionais muçulmanas, chamadas de abadás, ocuparam as ruas de Salvador. 

Os revoltosos se dirigiram à Câmara Municipal, onde, no subsolo, Pacífico Licutan estava detido.  Entretanto, foram surpreendidos por um ataque de carcereiros e não conseguiram concluir a missão de libertar o líder religioso. 

Os confrontos aconteceram em diversos pontos da cidade e se encerraram no bairro Água de Meninos, quando a cavalaria barrou violentamente qualquer possibilidade de seguirem com o planejado. Ao menos 70 africanos morreram e os sobreviventes foram condenados à pena de morte e ao açoitamento.

A partir de então, ficou ainda mais difícil para os africanos viverem naquele contexto escravocrata. No artigo “A legalidade como estratégia: africanos que questionaram a repressão das leis baianas na primeira metade do século XIX”, a historiadora Luciana Brito explica: “considerados os responsáveis pela revolta dos malês, [os africanos] passaram a ser vistos como inimigos da nação, da civilidade e da segurança. (…) Isto gerou o ambiente anti-africano que dominou a capital da província baiana no ano de 1835, repercutindo nas leis que visavam responder a esta necessidade de controle e repressão da população africana”. 

Apesar dos combatentes não conquistarem seus objetivos iniciais, a Revolta dos Malês se tornou um marco da resistência negra contra a escravidão e pela liberdade religiosa. O episódio demarcou a capacidade organizativa e de articulação política da comunidade negra na luta por dignidade.

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