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Machismo e sexismo: entenda a luta da seleção feminina de futebol dos EUA

Jogadoras que ostentam o título de campeãs do mundo ouviram da entidade que rege o futebol nos EUA que jogar na modalidade masculina requer mais habilidade e, por isso, os jogadores 'merecem valores mais altos'

Nesta terça-feira (22/2), os fãs do futebol feminino celebraram a vitória da seleção feminina dos EUA. Em um acordo feito com a entidade que rege o futebol no país, a US Soccer, dezenas de jogadoras e ex-atletas que passaram pela seleção feminina serão reparadas em R$ 125 milhões pela diferença recebida entre elas e o time masculino nos últimos anos, entre salários e bônus. Além disso, elas receberam a promessa de que os bônus e valores recebidos pela Fifa nas competições, principalmente as Copas do Mundo, serão equiparados.

A vitória ocorre após uma intensa briga trabalhista, midiatizada e acalorada. Há seis anos, estrelas da seleção feminina de futebol apresentaram uma queixa formal à Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego denunciando discriminação salarial no esporte. As mulheres, membros-chave de uma equipe que na época era a atual campeã olímpica e da Copa do Mundo, alegaram que ganhavam apenas 40% do que os jogadores da seleção masculina recebiam.

Além disso, as mulheres falaram que faturavam menos em aparições em eventos esportivos e até mesmo em tíckets alimentícios enquanto estavam concentradas antes de jogos.

No fim da denúncia, estavam os nomes de cinco atletas que honraram por anos a nação estadunidense no mundo: Morgan, Rapinoe, Lloyd, Hope Solo e Becky Sauerbrunn. Apesar de todo brilhantismo nos campos de futebol, as mulheres não eram valorizadas pela própria entidade esportiva.

Na época, os fãs tomaram partido na luta, o que obrigou a US Soccer a fazer um primeiro pronunciamento, que foi desastroso e de cunho machista. Ela argumentou, em nota, que “os homens trouxeram mais dinheiro e atraíram maior audiência televisiva e, portanto, mereciam salários mais altos”. A justificativa foi abandonada em pouco tempo após grande revolta do público e fúria das jogadoras.

Ao mesmo tempo, tanto as atletas quanto a US Soccer se moviam para defender as posições nas redes sociais e na Justiça. A federação ganhou uma causa que impediu as jogadoras de boicotar as Olimpíadas de 2016 a fim de ganhar o processo.


Em março de 2020, após a equipe feminina vencer a segunda Copa do Mundo feminina consecutiva, os advogados da US Soccer fizeram uma nova defesa em um processo judicial de que “jogar pela equipe masculina exigia mais habilidade e responsabilidade do que o equivalente feminino”. Uma declaração desastrosa, misógina e que foi, mais uma vez, recebida com fúria pelos fãs da seleção.

“Ver essa misoginia e sexismo como o argumento usado contra nós é realmente decepcionante”, disse a estrela Rapinoe, acrescentando: “Sei que estamos em uma luta contenciosa, mas isso passou dos limites”.

Com a fala, a US Soccer pediu desculpas publicamente e substituiu a equipe jurídica; um dia depois, o presidente da federação, à época, renunciou. As atletas pediram uma indenização de US$ 67 milhões, mas a entidade estava disposta a pagar apenas US$ 9 milhões.

O cenário não estava nada favorável para a seleção e se agravou em abril de 2020, quando foram derrotadas na Justiça. O juiz do Tribunal Distrital dos Estados Unidos R. Gary Klausner, rejeitou o argumento das atletas de que elas eram mal pagas. De acordo com o magistrado, a US Soccer demonstrou que a equipe feminina ganhou mais “tanto em base cumulativa quanto média por jogo” do que a equipe masculina durante os anos cobertos pelo processo.

O juiz não considerou os anos anteriores e, por ironia, levou em conta os anos em que o talento feminino levou as atletas ao topo do mundo, contra uma sequência de derrotas da seleção masculina. Os jogadores não se classificaram para a única Copa do Mundo disputada durante o processo judicial, o que fez com que perdessem os milhões de dólares que seriam destinados pela Fifa ao time.

Apesar do clima tenso e da derrota, a presidente da US Soccer Cind Parlow Cone declarou, ainda em 2020, que um acordo trabalhista ainda poderia ser feito. Ela afirmou que acreditava que os lados poderiam construir “um relacionamento diferente”. Dois anos depois, o esperado e desejado acordo ocorreu.

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