Mia Couto: é preciso resolver o passado de Moçambique para curar o presente

 

 

ESTEVAN MUNIZ/RBA

Escritor vê seu país, Moçambique, enfrentar novo conflito, 20 anos após o fim de guerra civil, e admite que problema o tem afetado na literatura: ‘Temos que estar em sossego por dentro para poder escrever’

por Estevan Muniz, especial para a RBA

 

Maputo – Há dois anos, a reportagem entrava na mesma casa de onde o escritor Mia Couto, de Moçambique, dirige sua empresa de consultoria ambiental, seu “outro trabalho”. Há dois anos, observava, nas paredes, obras do seu amigo Malangatana, o artista plástico de Moçambique de maior prestígio no mundo, morto em 2011. Enquanto deparava com suas pinturas sobre o colonialismo português neste país, podia imaginar quanto sangue havia sido derramado durante os 26 anos de conflitos quase ininterruptos – dez anos de guerra pela independência e 16 da subsequente guerra civil, que deixou uma conta de um milhão de mortos.

No início de 2012, a Revista do Brasil publicou aquela entrevista com Mia Couto, sobre as duas décadas de paz que estancaram esse sangue. Em 1992, os protagonistas da guerra civil, o governo de antiga inspiração marxista da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e o grupo opositor Resistência Nacional de Moçambique (Renamo) assinaram em Roma o Acordo Geral de Paz. Interromperam um cotidiano de desestabilização e instauraram uma democracia pluripartidária, permitindo um forte crescimento econômico. Para Mia Couto, aqueles 20 anos de paz que Moçambique comemorava eram um milagre. Mas esse milagre parece ter acabado.

A reportagem volta ao seu escritório em Maputo, capital de Moçambique, para conversar sobre a retomada do conflito entre a Frelimo e a Renamo e como isso afetou sua literatura. Desde o final de 2012, uma crise política levou os dois grupos a voltar a se confrontar militarmente. Em outubro do ano passado, o grupo opositor chegou a encerrar o acordo de paz, voltando atrás dias depois, mas nem por isso reduzindo o número de ataques a bases do governo e a estradas – ao contrário, aumentando. A Renamo acusa a Frelimo, um partido que está há 39 anos no poder, de ter partidarizado o Estado, reclama mais participação nas instituições e pede mais transparência nas eleições. A Frelimo, por sua vez, critica a Renamo por ter continuado a ser uma força armada paralela ao Estado mesmo depois da paz.

Enquanto isso, e apesar de as negociações por um cessar-fogo caminharem positivamente, a região central do país é arena de combates constantes. Estima-se que o novo conflito já matou aproximadamente mil pessoas e resultou em cerca de um milhão de deslocados. O governo moçambicano tenta esconder que a crise é séria, para não sujar a imagem de estabilidade e afastar os investimentos estrangeiros, como de empresas brasileiras. Não há uma guerra generalizada e declarada, mas Mia Couto crê que é não é outro o nome do que tem ocorrido. “O romance que eu estava a preparar há dois anos ficou um bocado conturbado com esta situação. Esses momentos obviamente afetam”, admite.

Mia Couto foi membro ativo da Frelimo. Mas largou o partido no final da década de 1980 e hoje é biólogo e um dos escritores de língua portuguesa mais traduzidos do mundo. Seja como poeta, romancista ou contista, dificilmente escapa à dura realidade social e política de Moçambique. E agora não é exceção. Ameaçado de sequestro e afetado pelo difícil momento político, abandonou o que seria seu novo romance. Confira a entrevista, agora publicada com exclusividade pela RBA:

Moçambique está em guerra?

Acho que sim. Nós não temos de ter medo de dar nome às coisas. Para mim, guerra não é uma coisa que tenha um grau: uma guerra que é pouca, uma guerra que é muita… Tem guerra a partir do momento em que as armas se tornam o veículo principal de obtenção daquilo que são os ganhos políticos de uma força qualquer. Infelizmente, manteve-se uma situação pouco clara depois da declaração de paz, em que um dos partidos políticos, que foi uma força armada, não foi desarmado. A Renamo já antes fez várias ameaças de voltar à guerra. Não é esta a primeira vez. É um caso recorrente. Agora voltou realmente à guerra. E eu acho que podemos dizer que há uma guerra de baixa intensidade, mas está aí.

O senhor diz que a Guerra Civil Moçambicana não foi exatamente uma guerra civil,  mas uma guerra fomentada por países estrangeiros. Qual é o verdadeiro motivo desse novo conflito?

Este conflito é resultado do fato de termos resolvido pela metade a situação. Isso é só um capítulo de alguma coisa que não foi bem fechada. Para fechar bem uma guerra, é preciso que haja uma reconciliação. Para explicarmos esse passado tão recente, recorremos a explicações que apenas falam por metade do que foi, explicações políticas ideológicas.

Mas não tentamos entender profundamente as razões daquela violência. Não foi feito esse debate. Houve uma percepção das pessoas de que era melhor não mexer muito nesse assunto, que era uma paz frágil e que era melhor não abrir aquela caixa de fantasmas. Ao contrário do que fizeram sociedades como, aqui ao lado, a África do Sul, que fez uma comissão formalmente instituída para apuramento de responsabilidade, a comissão da verdade, aqui, escolheu-se o silêncio. Isso é uma solução falsa. Ninguém esquece. Portanto, há aqui coisas não resolvidas, que nunca se tornaram um passado claramente marcado.

O senhor não esqueceu…

É impossível esquecer. Por isto que esta guerra mesmo que seja agora em pequena escala, esses incidentes militares, transporta-nos ineditamente pra esse clima de horror que a gente quis apagar dentro de nós. Mas isto nunca se apaga. Uma guerra nunca se esquece.

O último livro que o senhor lançou no Brasil, no final de 2012, A Confissão da Leoa, trata da opressão sofrida pela mulheres em Moçambique. Como em outras obras suas, há um confronto permanente entre a tradição e a modernidade. O senhor diz que a guerra civil foi causada, por causa desse confronto. Vemos isso acontecer de novo?

 

Esse é um outro tipo de conflito. Quer dizer, tudo isso se mistura também. Essa guerra é também um bocadinho de crispação entre um certo tipo de modernidade e um certo tipo de tradição. Mas o brasileiro está a viver isso, a Suécia vive isso, a China vive isso… Todos vivem. O problema é saber como esse conflito é determinado por razões do tempo exterior, do mundo exterior, que no fundo é um mercado global.

Se essa paz que se alcançou é falsa, que tipo de paz pode ser concebida aqui em Moçambique?

É preciso de uma paz que seja ela própria sustentável, que não seja só uma reconciliação de forças políticas, formalmente estabelecida entre dois partidos, mas entre os cidadãos desse país e entre o cidadão e sua própria cidadania, que ainda está em construção. Isso é tudo novo em Moçambique. Muita gente vive no mundo rural e não teve nenhum contato sequer com o Estado. É preciso que Moçambique abrace um modelo de desenvolvimento que seja realmente integrado, participativo, justo e equitativo.

É preciso que haja possibilidade de uma democracia que não seja só formal. Uma democracia viva, que seja vivenciada pelas pessoas, que não vão lá só dar o voto. A crise que Moçambique vive é uma profunda crise para chegar a um modelo de fazer política que já sabemos que morreu, não é? E nós fazemos de conta que está ainda vivo.

A qual modelo de fazer política se refere?

Esse modelo da democracia representativa, com os partidos políticos, os sindicatos e essas coisas. Hoje, nós sabemos que o cidadão tem outra maneira de intervir, não precisa de um partido pra se organizar e sair à rua. Vemos o que aconteceu no seu próprio país em junho do ano passado.

No Brasil, há uma grande ignorância sobre o que se passa na África de um modo geral. Como o senhor pensa que deve ser a relação entre Brasil e países irmãos lusófonos, como Moçambique e Angola?

Nós achamos que somos parecidos, mas não queremos levar essa familiaridade até o fim. Ficamos naquilo que é muito formal. E festejamos uma coisa que é muito folclórica. Temos essa ideia de que nossa proximidade se dá, porque falamos a mesma língua e temos uma história comum como colôniais.Mas isso é meio mentira. Falamos a mesma língua, sim, com algumas diferenças.

Mas a nossa história é bastante diferente. Fomos colônia de outra maneira. E nos tornamos independentes de outra maneira. É preciso reconhecermo-nos como primos, como parentes, cada um com sua própria história. Agora existe aquela coisa de abraçarmo-nos como irmãos, etc, e de repente, ausentamo-nos completamente, com o pretexto que temos um mundo diverso, com uma posição  geográfica diferente. Não vamos nos tratar como irmãos que se ajudam, mas como irmãos que fazem negócios, com economias que partilham interesses.

A Vale está aqui hoje explorando carvão, e isso não se deve ao fato de Moçambique ser amável e de o Brasil ser simpático. Não nos ajudamos mutuamente. É mais verdadeiro dizer que são interesses econômicos, de ganhos de lucros. Eu não tenho muita simpatia em relação a isso, mas eu prefiro o que é posto em cima da mesa com toda a verdade a um discurso de solidariedade, de uma amizade muito especial, que é falso.

Como esse momento político afeta sua literatura? Pode-se esperar algum livro novo?

Sim. Tem aí duas coisas que estão por vir: um texto de poesia e um livro de ensaios. O romance que eu estava a preparar há dois anos ficou um bocado conturbado com essa situação. Esses momentos obviamente afetam. A escrita pede uma certa tranquilidade interior. Nós temos que estar em sossego por dentro para poder escrever.  O romance ficou desarrumado, porque exige uma constância, uma disciplina, uma proximidade permanente com os personagens.

O senhor parou de escrever por conta do conflito?

Por conta de várias coisas. Porque também minha vida é um pouco dispersa. Eu sou biólogo, que é um outro trabalho, porque a escrita também é um trabalho. E conforme os picos de intensidade, tenho que fazer uma espécie de retirada provisória. Mas depois volto àquele texto, eu volto lá.

No ano passado, no auge da crise política, houve uma onda de sequestros em Maputo. De alguma maneira, muita gente relacionava isso com a crise política. E o senhor foi ameaçado.

Minha família foi ameaçada. Felizmente, nunca chegou a acontecer. Mas nós tivemos que tomar medidas pra nos proteger. Essa onda de raptos tem uma relação com o conflito, mas acho que nós não entendemos bem. Para o Brasil, não seria uma coisa nova, mas, para nós, era um coisa que não existia. Não tínhamos a tradição desse tipo de crime. E de repente surgem raptos com intensidade maior e coincidem com o momento de instabilidade política.  Aconteceram de foram massiva nas cidades, e isso causou uma enorme desestabilização. Mas até agora, nós não estamos a perceber bem o que aconteceu.

O que o senhor mais teme?

Essa memória mal resolvida da guerra. O que mais temo é que regressemos a uma situação como aquela em que vivemos até 1992. É impossível explicar bem, eu transmito isso a um brasileiro, e vocês têm paz desde há décadas, desde sempre…

Mais ou menos. O Brasil tem uma taxa de 20,4 homicídios por 100 mil habitantes, que é maior do que muitos países em guerra.

É verdade. O número de pessoas que morrem por dia no Brasil vítimas da violência é quase uma outra guerra, uma guerra não declarada. É uma guerra oculta. De qualquer maneira, em Moçambique, essa é uma outra guerra, que tem uma dimensão, uma intensidade, partilhada como uma ameaça brutal, que eu não quero voltar a viver nunca mais.

O senhor acha que pode haver de novo uma guerra generalizada?

Não tanto como aquela que houve, mas pode haver uma situação de ingovernabilidade, em que se deixa de haver caminho.

 

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Fonte: Rede Brasil Atual

 

 

 

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