Ministra pedirá a bancos e centrais que coibam discriminação

S. Paulo – Na primeira entrevista exclusiva concedida à Afropress a nova ministra da SEPPIR, socióloga Luiza Bairros, disse que aproveitará o fato de 2011 ser o Ano declarado pela ONU como dos Afrodescedentes para propor aos bancos, empresas de segurança, supermercados, shoppings e centrais sindicais, que façam um esforço para combater o racismo institucional e coibam situações de discriminação cada vez mais freqüentes, nas relações de consumo.

O caso mais recente ocorreu com uma criança negra – T., de apenas 10 anos – levado para um quartinho por seguranças do Hipermercado Extra, da Marginal Tietê, Zona Leste de S. Paulo, onde foi submetido à humilhações e ameaças, segundo denuncia da família.

“Nós somos inadequados para os bancos, nós somos inadequados para os supermercados, somos inadequados para qualquer tipo de lugar no, qual historicamente, a presença branca foi predominante”, afirmou, acrescentando que o apelo será para que esses setores “se coloquem no lugar onde devem se colocar, que é o de exatamente coibir esse tipo de atuação dos seus funcionários, dos empregados, que se coloca dentro daquilo que agente convencionou chamar de racismo institucional”.

Mudança na comunicação

A nova ministra não anunciou medidas de impacto, mas deu pistas sobre como será o seu estilo de gestão à frente da Secretaria que tem status de ministério e é ligada à Presidência da República.

Em pelo menos em uma área – a de Comunicação – Bairros anunciou mudanças. Ela disse que não quer “um setor de comunicação voltado para dentro do ministério”.

A responsável pela Comunicação, Sandra Almada, já foi exonerada, assim como outros dirigentes, que abriram espaço para a equipe designada pela ministra. Ela não adiantou o nome do novo titular, embora entre os mais citados, esteja o do jornalista, Edson Cardoso, do Jornal Irohin, no momento desativado.

A ministra concedeu a entrevista, na véspera da viagem à Dakar, no Senegal, onde participou do Fórum Social Mundial, integrando a delegação do Governo Brasileiro. Por cerca de 40 minutos, ela conversou por telefone, com o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

À pedido do jornalista, ela respondeu perguntas de lideranças como Reginaldo Bispo, dirigente do MNU, Eduardo Silva, presidente da Comissão da Igualdade da OAB/SP, Ivan Seixas, presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Conceição Vercesi, da Assessoria de Ações Afirmativas de Botucatu e Magno Lavigne, da Secretaria Nacional da Diversidade Humana da União Geral dos Trabalhadores – a UGT – a terceira maior central sindical do Brasil – e João Jorge Rodrigues, diretor do Grupo Olodum, da Bahia.

Também deu respostas a perguntas enviadas pela jornalista Clarisse Monteagudo, do Jornal Extra, do Rio de Janeiro.

Leia, na íntegra, a 1ª parte da conversa. A 2ª será postada nesta segunda-feira, 14/02.

Afropress – Parabéns pela posse e sucesso na sua gestão. Eu, na verdade, já havia pedido a entrevista para a senhora, e agora diante da oportunidade, pedi para algumas lideranças de vários setores e Estados, encaminharem perguntas que gostariam que a senhora respondesse.

Tenho aqui a pergunta da jornalista Clarissa Monteagudo, do Jornal Extra do Rio, que é exatamente a seguinte:

A eleição de uma mulher para presidente da República e a escolha da primeira ministra negra [a senhora, na verdade é a segunda, a ministra Matilde foi a primeira] representam um avanço simbólico da posição da mulher na sociedade brasileira. A senhora acredita na necessidade de realização de ações para aumentar a autoestima das mulheres negras, vítimas históricas de ações violentas, como o preconceito, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a violência doméstica? Se sim, quais seriam essas ações?

Ministra Luiza Bairros – Agente falando por telefone fica um pouco difícil porque as perguntas estão longas. Na verdade, eu acho que essa pergunta, mais especificamente, envolve mais de um aspecto.

Em primeiro lugar, essa questão mesma da gente ter esse ano no Governo um número maior de mulheres do que já tivemos em outras ocasiões, embora relativamente com um número menor de mulheres negras. Isso é um aspecto que, de uma certa forma, um Ministério com mais mulheres, eu acho que ele causa na sociedade um impacto grande; acho que em relação as mulheres isso repercute de um modo muito positivo.

Agente tem percebido as repercussões disso, por exemplo, agora mais recentemente pela indicação de uma mulher para a mesa diretora da Câmara e outra mulher para a mesa diretora no Senado, quando nunca tínhamos visto nada neste sentido.

A atitude simbólica dos presidentes, tanto da Câmara quanto do Senado, de se afastarem para que as mulheres assumissem a presidência da sessão… Então, eu acho que todos esses são indicadores de como ter uma mulher na Presidência da República vai repercutindo neste olhar que se tem sobre as mulheres e sobre as suas possibilidades de participação. Este é um primeiro aspecto que eu vejo na pergunta.

O segundo tem a ver com essa questão da auto-estima das mulheres negras. Eu tenho, na verdade, me questionado um pouco sobre a forma como a gente usa essa questão de auto-estima, porque eu vejo que, de uma maneira geral, que a auto-estima das pessoas negras, ela não precisa ser tão assim, tratada e trabalhada, da maneira como nós vimos falando mais recentemente.

Acho que o que precisa mudar é o conceito da sociedade sobre as mulheres negras. Aí é todo um trabalho muito mais em profundidade que tem que ser feito, para além de tudo que, ao longo do tempo, os Movimentos Negros, especialmente o Movimento de Mulheres Negras tem feito.

Mudar essas imagens, que são as imagens de controle da mulher negra, que é um tema sobre o qual Lélia Gonzalez já falava lá, no inicinho dos anos 80, de como nós somos apreendidas dentro de determinadas visões onde essa dimensão do corpo aparece como sendo a mais importante, seja o corpo para o sexo, seja o corpo para o trabalho pesado, mas sempre a mulher negra aprisionada num tipo de lugar, onde não há espaço para que nós sejamos vistas numa outra dimensão, na dimensão da contribuição intelectual que muitas de nós damos, nas mais variadas posições.

Não apenas naquelas reconhecidas como lugares do intelectual vindos da Academia. Nesse sentido eu acho que são intelectuais as Mães de Santo, que formulam formas de pensar, que formulam caminhos para que nós possamos seguir. Então, toda essa discussão aí, que é longa e que agente não vai poder se deter aqui agora.

Afropress – O Reginaldo Bispo, que é seu companheiro de MNU, organização a que a senhora pertenceu, [a ministra foi dirigente nacional do MNU até 1.984]. A pergunta dele é a seguinte:

Ministra Luiza Bairros, a senhora acredita ser possivel fazer politica social em benefício dos negros, com o atual orçamento da SEPPIR, que destina R$ 0,50 (cinquenta centavos) para cada negro brasileiro? Como sair desse gueto em que meteram a SEPPIR, sem dinheiro para resolver esse imbroglio e realizar políticas de Estado para 90 milhões de negros?

Luiza Bairros – Bom, em primeiro lugar, o seguinte. O orçamento da SEPPIR, assim como de qualquer outro órgão de promoção da igualdade racial, não é um orçamento para a realização das políticas voltadas para a população negra. Ele é um orçamento para a articulação de políticas, para a gestão de políticas que são realizadas, na prática, por outros Ministérios, no nosso caso. Então, essa é a primeiríssima distinção.

A outra coisa é essa idéia do gueto. Eu acho que agente fica num tipo de situação que é bastante… são as contradições, eu digo que são contradições que o racismo coloca prá nós. Porque essa idéia do gueto ela não aparece apenas em relação a um ministério como esse nosso, mas, eu já muitas discussões nesse sentido, por exemplo, dentro das Universidades, se os núcleos de Estudos, Estudos africanos e afro-brasileiros, os chamados NEABs nas Universidades, se não seriam eles também lá, guetos, entendeu?

E esse tipo de contradição, o racismo brasileiro vai nos colocar o tempo todo. Porque o que nos é deixado como escolha é uma escolha que eu considero impossível. Seria você não estar em lugar nenhum, porque essa questão da transversalidade, ou de uma presença espalhada, isso não se realiza, com a forma como o racismo brasileiro opera, ou você juntar forças num determinado espaço e a partir daquele determinado espaço, buscar influenciar os demais.

Então, não é uma coisa de gueto ou não gueto, eu acho que é uma escolha política, digamos, que os negros brasileiros, não só do ponto de vista da estrutura do Estado, mas como em vários outros lugares.

E foi isso, digamos assim, foi até aí que a luta política nos permitiu ir. Vamos ver agora o que está em jogo em todos esses espaços, seja dentro ou fora do Estado, é exatamente a capacidade que agente tem de dentro deles, reunir a força política necessária para influenciar todo o resto.

 

Fonte: Afropress

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