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Mulheres negras realizam Encontro Estadual contra o Racismo
Créditos da foto: Reprodução/Facebook

Mulheres negras realizam Encontro Estadual contra o Racismo

Reunião preparatória é no sábado. Evento definirá a participação capixaba no Encontro Nacional

Por Fernanda Couzemenco, Jussara Baptista, do Século Diário 

Reprodução/Facebook

O Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras do Espírito Santo realiza uma reunião neste sábado (15), no Museu Capixaba do Negro (Mucane), Centro de Vitória, a partir das 9h. O objetivo é construir o Encontro Estadual, no final de setembro, e elaborar estratégias que viabilizem a participação das Mulheres Negras do Espírito Santo no Encontro Nacional que acontece em dezembro, em Goiânia/GO.

Encontro Estadual de Mulheres Negras, Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver acontecerá no próximo dia 29 de setembro, dentro da programação da V Conferência Mundial Sobre Combate às Desigualdades Econômica Racial e Étnicas, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), de 8h às 17h.

Durante o evento, serão escolhidas as delegadas que representarão o Espírito Santo no Encontro Nacional, que neste ano será realizado em Goiânia, nos dias 6, 7, 8 e 9 de dezembro.

As mulheres negras são, entre os grupos mais vulneráveis socialmente, os principais alvos da violência e da discriminação. Segundo estatísticas nacionais, entre as vítimas femininas da violência doméstica, por exemplo, 70% são negras. São elas também que recebem os menores salários, ocupam apenas 3% dos cargos de gestão e estão basicamente excluídas do sistema financeiro. Estão na base da pirâmide, desvalorizadas, apesar de moverem o País com sua força de trabalho.

De acordo com Leonor Araújo, professora da Ufes e integrante da coordenação estadual da Conferência, o evento pretende discutir temas gerais que pautam o dia a dia da mulher negra, como educação, saúde, mercado de trabalho, violência, feminismo negro, racismo, entre outros. “Também temos o objetivo de dar voz e qualificar essas mulheres. Muitas vivem nas periferias, nas favelas, em situação de violência ou encarceradas”.

Para Leonor, nesta conjuntura atual, a situação da mulher negra tem se precarizado ainda mais. “O genocídio, por exemplo, está pior. Enquanto as taxas de homicídios têm caído para homens e mulheres brancos, têm aumentado para os negros. O racismo também está mais evidente. Os racistas e fascistas não tem mais pudor, estão mostrando a cara”.

Retirada de direitos  

Desde a Marcha das Mulheres Negras, em 2015, prossegue a luta contra o racismo, a retirada de direitos e as diversas formas de opressão, intensificadas após o golpe de 2016. A administradora Marilene Pereira, coordenadora do Coletivo Afoxé, no centro de Vitória, conta que o Encontro Nacional é um desdobramento da marcha das mulheres que aconteceu em 2015 e que a decisão de fazê-lo em Goiânia aconteceu no Fórum Social Mundial 2018, em Salvador. Além de marcar os 30 anos da Marcha de 1998.

“Cada estado ou capital está articulando suas mulheres pra irem pra Goiânia. E antes de ir, é preciso fazer um encontro estadual pra ouvir as mulheres do Estado, saber quais as demandas dessas mulheres, o que tivemos de favorável após 2015 e o que não tivemos favorável”, explica.

Militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e membra da coordenação estadual e nacional do Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras no ES, Marilene conta que, depois do golpe, houve perda de espaços oficiais de representação, em nível federal e estaduais, com o desmantelamento de Secretarias de Governo voltadas para a promoção da igualdade racial.

No Espírito Santo, a antiga Secretaria Estadual se transformou em um Conselho Estadual de Promoção de Igualdade Racial, ligada à Secretaria de Direitos Humanos. “O diálogo ficou mais difícil”, observa.

Outro grande problema, aprofundado nos últimos dois anos, é o alto índice de homicídios dos jovens negros, o que é um transtorno muito grande pras mulheres negras, sejam as mães ou companheiras.

Também prevalece a elevada violência obstétrica, muito maior entre as mulheres negras. Estima-se que dois terços das vítimas de violência obstétrica sejam mulheres negras. “Há um mito de que as mulheres negras aguentam mais dor”, critica.

Autofinanciamento

Para a ativista, o principal ganho alcançado nesse período foi o aumento da militância, principalmente entre as jovens. Fruto do grande sucesso que foi a Marcha de 2015. Apenas do Espírito Santo, saíram 150 mulheres. “Tínhamos um governo de esquerda, financiamento, foi um sucesso!”, diz.

Esse ano, o financiamento para os encontros estaduais e nacional será todo feito pelas próprias mulheres, por meio da venda de camisetas, bottons, canecas, rifas, vaquinhas. “Nós mulheres negras por nós mulheres negras mesmo”, poetiza. “A gente bate no peito e faz. Porque a gente precisa, os jovens estão morrendo, as mulheres estão em subemprego e sofrendo muitas violências”, argumenta.

O número de participantes, no entanto, precisou ser reduzido. O Estado, por exemplo, conta com 25 vagas. O encontro nacional será em local fechado, com um público estimado de 1.000 participantes.

“É interessante porque a gente podia não fazer. Não tem recurso, não vamos fazer. Mas essa pauta é tão cara, tão preciosa pra nós, que nós vamos fazer. É necessário manter vivo esse diálogo entre os estados. Nesses encontros que a gente consegue se fortalecer, aprender”, afirma.

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