Na forja de Ogum: clima, raça e direitos humanos na nova carta da COP30

28/01/26
Por Mariana Belmont

E veio aí mais uma carta. A Décima Segunda Carta do Presidente da COP30 se apresenta como um texto de balanço e reposicionamento político após a realização da conferência em Belém, em novembro de 2025. Ao afirmar que o multilateralismo climático atravessa um “momento de forja”, o documento tenta deslocar o debate climático para além das negociações técnicas, reivindicando densidade política, simbólica e social. No entanto, quando lida a partir da agenda de direitos humanos e da centralidade das desigualdades raciais, a carta revela tanto avanços inéditos quanto limites importantes que precisam ser nomeados.

A escolha de evocar a tradição afro-brasileira e a sabedoria iorubá por meio da figura de Ogum é um gesto simbólico importante e que deveria ser prática comum da presidência desde o início. Ao afirmar que as transições não acontecem quando o ferro se quebra, mas quando é colocado na forja, o texto reconhece que momentos de crise exigem transformação ativa, trabalho coletivo e enfrentamento do conflito. Essa metáfora, ancorada em uma cosmovisão afrodescendente, rompe parcialmente com o repertório eurocêntrico que historicamente estrutura a linguagem do multilateralismo climático. Não se trata de um detalhe irrelevante: a presença de Ogum em um documento oficial da presidência de uma COP indica uma disputa simbólica sobre quem pode produzir sentidos e narrativas sobre o futuro do planeta. Pelo menos é o que se espera agora de aprofundamento depois das menções em documentos oficiais da Conferência realizada na Amazônia. 

O documento celebra, com razão, o fato de que a COP30 foi a primeira conferência climática a incluir menções explícitas a afrodescendentes em textos centrais, como os documentos de Transição Justa, Adaptação e Gênero. Esse é um marco histórico que não pode ser minimizado. Durante décadas, as negociações climáticas ignoraram sistematicamente o recorte racial, tratando a vulnerabilidade como um dado abstrato e universal, desconectado de processos históricos de colonialismo, escravidão e racismo estrutural. A inclusão do termo “afrodescendentes” é resultado direto da pressão política de movimentos negros, quilombolas e organizações da sociedade civil que há anos denunciam a dimensão racial da crise climática.

Ainda assim, a carta trata esse avanço mais como um ponto de chegada do que como um ponto de partida. O reconhecimento histórico de afrodescendentes nos textos oficiais não é acompanhado de uma reflexão crítica sobre como o próprio regime climático internacional reproduz desigualdades raciais e coloniais. Não há menção explícita ao racismo ambiental.

Ao enfatizar a participação social e o chamado Mutirão Global, a carta constrói uma narrativa de inclusão e abertura. A linguagem da colaboração e do engajamento não substitui a necessidade de mecanismos concretos de responsabilização, financiamento justo e reparação histórica.

Do ponto de vista dos direitos humanos, o texto reconhece a crise climática como um desafio que afeta vidas, territórios e modos de existência, mas evita nomear as violações estruturais que sustentam esse cenário. Não há uma articulação explícita entre justiça climática e justiça racial, nem um enfrentamento direto das relações entre capitalismo global, extrativismo e racialização da pobreza.

A evocação de Ogum, nesse sentido, torna-se ainda mais ambígua. Se, por um lado, o orixá simboliza transformação, luta e abertura de caminhos, por outro, a carta parece hesitar em atravessar os conflitos que essa transformação exige. Forjar implica calor, choque e rearranjo das estruturas existentes. Uma agenda climática verdadeiramente comprometida com os direitos humanos e com a justiça racial não pode se limitar a consensos frágeis nem a reconhecimentos simbólicos descolados de mudanças materiais.A Décima Segunda Carta do Presidente da COP30 sinaliza que algo se moveu no interior do multilateralismo climático. A presença da cosmovisão afrodescendente e a menção inédita a afrodescendentes nos documentos oficiais são conquistas políticas reais. Mas a distância entre reconhecimento e transformação permanece grande. Para além da forja simbólica, o desafio que se impõe é transformar essas brechas em políticas climáticas que enfrentem o racismo ambiental, redistribuam poder e coloquem os direitos humanos no centro das respostas à crise climática.


Mariana Belmont é jornalista, pesquisadora e mestranda em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB). Nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais. Escreve mensalmente para o portal Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). É assessora de clima e racismo ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.

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