Na primeira conferência sobre abandono de combustíveis fósseis, Geledés destaca participação social no centro do debate climático 

04/05/26
Por Kátia Mello [email protected]
Em Santa Marta, na Colômbia, em meio à discussão sobre transição energética, os afrodescendentes são sujeitos centrais nos diálogos e conversas

A conferência dedicada ao abandono dos combustíveis fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia, e encerrada na quarta-feira, 29, consolidou-se como um marco político na agenda climática global — tanto pelo conteúdo de seu documento final quanto pelo processo de participação aberto e dinâmico com organizações da sociedade civil, movimentos sociais e academia, com destaque especial para o trabalho dinâmico do grupo de trabalho de afrodescendentes. Em sua primeira edição, a Conferência sobre a Transição para longe dos Combustíveis Fósseis, organizada pela Colômbia em parceria com os Países Baixos, reuniu 57 países. Ao final da conferência foi anunciada uma segunda edição em Tuvalu, no próximo ano — copresidida pela Irlanda — e para tal serão instituídas frentes de trabalho, o que evidencia uma continuidade no debate.

Desde o início do encontro, ficou notório que a transição energética não se reduz a um desafio tecnológico. Em um contexto internacional marcado por instabilidade, a guerra envolvendo o Irã expôs de forma contundente a vulnerabilidade do sistema energético global, evidenciando o grau de dependência estrutural dos combustíveis fósseis e seus impactos sobre a segurança energética no mundo. A ausência de alguns dos principais emissores globais — como China, Estados Unidos e Rússia, que não foram convidados — expôs os limites geopolíticos da conferência, ao mesmo tempo em que as divergências entre países evidenciaram a complexidade envolvido na reconfiguração de um sistema energético profundamente enraizado em estruturas econômicas, fiscais e históricas. Nesse contexto, a centralidade atribuída à participação social não foi apenas simbólica: ela tensionou os termos do debate e ampliou o horizonte político da conferência.

“A Conferência de Santa Marta foi um marco histórico, porque colocou a participação social no centro do debate climático, especialmente em relação ao protagonismo de populações afrodescendentes, que historicamente invisibilizadas nesses espaços. Mais do que presença, vimos incidência política, produção de conhecimento e articulação coletiva, reposicionando a agenda climática a partir da justiça racial, das desigualdades históricas e da urgência de ouvir quem sempre esteve na linha de frente da crise. Nesse contexto, Geledés participou dos espaços de construção e colaborou com princípios para o enfrentamento antirracista dos combustíveis fósseis, reforçando que não há transição energética justa sem justiça racial”, afirma Mariana Belmont, assessora de clima e racismo ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, que esteve presente no encontro.

A nota técnica de Geledés para a conferência, publicada no site da organização, desloca a crise climática para além de seus aspectos ambientais imediatos, inscrevendo-a em um processo histórico de produção de desigualdades que articula raça, território e poder. Nessa perspectiva, o modelo energético global proposto é indissociável das dinâmicas de expropriação que marcaram a formação do mundo moderno, nas quais populações afrodescendentes, indígenas e periféricas foram sistematicamente posicionadas como corpos e territórios sacrificáveis. É nesse contexto que ganha centralidade a noção de “zonas de sacrifício”: espaços onde a concentração de empreendimentos extrativos e de infraestrutura energética produz degradação ambiental, adoecimento e morte precoce de forma recorrente.

Ao trazer essa dimensão para o centro do debate, Geledés confronta abordagens que tratam a transição energética como um processo neutro ou exclusivamente técnico. A crítica se aprofunda ao apontar que, mesmo sob novas bases tecnológicas, a transição pode reproduzir as hierarquias do modelo fóssil, sobretudo quando grandes projetos de energia renovável implicam deslocamentos forçados, restrições a modos de vida e apropriação desigual de benefícios em territórios de comunidades negras e tradicionais.

A transição energética, desta forma, é apresentada como uma agenda de transformação estrutural, que ultrapassa a dimensão técnica e passa a incorporar o enfrentamento do racismo estrutural, da colonialidade e das desigualdades ambientais. Nesse enquadramento, o abandono dos combustíveis fósseis deixa de se limitar a uma meta climática e passa a se configurar como um imperativo de reparação histórica, que demanda redistribuição efetiva de poder e a centralidade política das populações historicamente impactadas.

As propostas derivadas dessa abordagem articulam direitos territoriais e governança energética, com ênfase na titulação de territórios afrodescendentes, no fortalecimento de formas coletivas de propriedade e na criação de instâncias comunitárias com poder decisório. Também incluem instrumentos como consulta prévia, consentimento livre e redistribuição de benefícios, além do incentivo a sistemas descentralizados de energia, como forma de enfrentar a pobreza energética sem reproduzir dinâmicas de expropriação.

A dimensão racial também orienta os debates sobre saúde, produção de conhecimento e responsabilização, com destaque para a produção de dados racializados e a transparência sobre impactos ambientais. Nesse contexto, ganha força a defesa de que empresas e Estados assumam os custos da reparação. As tensões desse debate foram evidenciadas na fala do presidente colombiano, Gustavo Petro, que criticou a persistência do modelo fóssil e apontou a resistência das estruturas de poder à transformação do sistema energético.

Também emergiram críticas ao funcionamento do sistema multilateral. O comissário climático da União Europeia, Wopke Hoekstra, reconheceu os limites das negociações internacionais: “Na minha visão, o fato de estarmos aqui também reflete o que a COP se tornou: na prática, acabamos sempre com o menor denominador comum — uma das limitações do multilateralismo, onde todos têm poder de veto”. Ao defender a revisão desses processos, Hoekstra explicitou um diagnóstico compartilhado nos bastidores: a dificuldade de se avançar em agendas ambiciosas em um sistema marcado por impasses recorrentes.

Nesse mesmo ambiente de insatisfação com os resultados recentes das conferências climáticas, mas também de disputa política sobre seus rumos, os países buscaram reafirmar o multilateralismo como eixo indispensável da governança climática. Apesar das críticas recorrentes à lentidão e aos impasses das COPs — percepção amplamente compartilhada entre os participantes em Santa Marta —, delegações europeias enfatizaram a necessidade de preservar e fortalecer esses espaços diante de pressões e ataques de grupos extremistas, associados à agenda política do governo de Donald Trump. Em posicionamento conjunto, 14 países europeus — incluindo as maiores economias da União Europeia, como Alemanha, França, Itália e Espanha — afirmaram que o multilateralismo permanece insubstituível para enfrentar uma crise que, por sua própria natureza, ultrapassa fronteiras nacionais e exige respostas coordenadas em escala global.

Nesse contexto de busca por maior concretude nas agendas climáticas, o avanço dos chamados “roadmaps” obteve força. O presidente da COP30, o diplomata brasileiro André Corrêa do Lago, anunciou que já foram submetidas 444 contribuições formais ao processo global, das quais 267 tratam especificamente da transição para longe dos combustíveis fósseis, enquanto as demais se concentram na eliminação do desmatamento em escala global — evidenciando os dois eixos estruturantes da ação climática contemporânea. 

O documento final da conferência aponta convergências relevantes, como o reconhecimento de que a transição energética já está em curso e tende a se intensificar, impulsionada pelo crescimento acelerado dos investimentos em energias renováveis — que aumentaram quase 50% entre 2023 e 2025.E reforça a importância da visão e participação da população afrodescendente, indígenas, mulheres, crianças, comunidades tradicionais e outros grupos sempre invisibilizado dos documentos. Países que representam cerca de um terço do PIB mundial sinalizam disposição para avançar nesse processo, embora ainda enfrentem obstáculos estruturais, como dependência fiscal de receitas fósseis, endividamento e limitações da arquitetura financeira internacional.

A transição é apresentada como uma transformação econômica de grande escala, que exige reformas fiscais, diversificação produtiva e reestruturação da dívida. O documento também enfatiza a ampliação do acesso à energia em comunidades marginalizadas, por meio de sistemas descentralizados, soluções off-grid e financiamento direcionado — ainda que essas diretrizes não incorporem plenamente a dimensão de reparação racial presente no debate. Ele é um aceno importante, assim como a conferência, que não é um espaço de negociação, mas se apresentou como um lugar fundamental de pressão política e formulações coletivas históricas.

Entre os pontos centrais, destacam-se o declínio planejado da exploração de combustíveis fósseis, a revisão de subsídios ao setor e o fortalecimento da cooperação internacional. Com nova edição prevista para 2027 em Tuvalu, a conferência se projeta como um espaço contínuo de articulação, ainda cercado de incertezas quanto à sua integração ao sistema multilateral. Nesse cenário, a transição se consolida como um campo de disputa, no qual o recorte racial emerge como elemento decisivo para evitar a reprodução das desigualdades históricas do modelo energético global.

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