Juventudes negras da América Latina levam agenda de justiça racial do Chile à ONU

28/04/26
Por Kátia Mello [email protected]
Do Fórum LAC, em Santiago, ao Fórum da Juventude do ECOSOC, em Nova York, jovens articulam incidência global para enfrentar o racismo ambiental, a desigualdade urbana e a exclusão estrutural na Agenda 2030

As juventudes da América Latina e do Caribe vêm consolidando, de forma cada vez mais incisiva, um papel político que não pode ser compreendido à margem das estruturas de desigualdade que atravessam a região. Mais do que uma categoria geracional homogênea, trata-se de um campo profundamente marcado por hierarquias raciais, territoriais e de classe, no qual jovens afrodescendentes, indígenas e periféricos enfrentam, de maneira desproporcional e contínua, os impactos da crise climática, da exclusão urbana, da precarização do acesso à água e da pobreza energética.

Nesse cenário, os processos de mobilização e incidência internacional das juventudes se articulam de forma contínua, conectando dinâmicas regionais e globais. As contribuições construídas nos territórios e sistematizadas em espaços regionais alimentam diretamente os debates multilaterais, em especial o Fórum da Juventude do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), configurando etapas complementares de uma mesma trajetória política. Trata-se de um encontro anual que reúne jovens de todo o mundo, governos e organismos internacionais para debater e influenciar a implementação da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, funcionando como uma ponte entre experiências locais e decisões globais e como um dos principais espaços institucionais de participação juvenil no sistema das Nações Unidas.

“Enquanto juventude, nosso maior ato político é lutar para sermos reconhecidos como sujeitos políticos autônomos capazes de participar dos processos de tomadas de decisões. Esses dois fóruns são essenciais para concretizarmos essa ação e ampliar as vozes dos jovens da América Latina. São nesses espaços que podemos mostrar os avanços, desafios e oportunidades na implementação da Agenda 2030, na nossa região, além de mostrar boas práticas a serem empregadas em outros territórios. É na construção de eventos como esse que damos a chance real de participação a jovens diversos se expressarem e reimaginar futuros possíveis e inclusivos”. 

A avaliação é de Ester Sena, assessora de clima e juventude em Geledés e ponto focal do Grupo NNAyJ, ao destacar que o reconhecimento das juventudes como sujeitos políticos passa necessariamente pelo reconhecimento das desigualdades que atravessam suas experiências, indicando que a luta por essa participação é também uma luta por redistribuição de poder em sociedades historicamente marcadas pelo colonialismo.

Foi nesse contexto que o Fórum de Juventude da América Latina e Caribe, realizado em Santiago, no Chile, entre os dias 12 e 13 de abril, se afirmou como um espaço estratégico de disputa narrativa e política. No encontro, o Geledés – Instituto da Mulher Negra atuou de forma incisiva para centralizar o debate sobre racismo ambiental, justiça racial e interseccionalidade na implementação da Agenda 2030. Ao deslocar o foco da suposta neutralidade técnica dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para suas implicações concretas nos territórios racializados, o fórum evidenciou que não há sustentabilidade possível sem o enfrentamento das estruturas históricas que produzem desigualdade e exclusão na região.

O Fórum de Juventude LAC integra esse percurso mais amplo de construção coletiva e incidência, sendo derivado das atividades organizadas pelo Caucus Regional de Infância e Juventude da América Latina e do Caribe — o Grupo de Niños, Niñas, Adolescentes y Jóvenes (NNAyJ), no âmbito do Mecanismo de Crianças e Juventudes (MGCY-LAC) — em colaboração com organizações afiliadas e parceiros estratégicos, como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

A percepção de Ester Sena foi aprofundada por Thaynah Gutierrez, assessora internacional de clima e racismo ambiental em Geledés, cuja atuação como especialista no ODS 11, de cidades e comunidades sustentáveis, evidenciou como o racismo ambiental se materializa na produção das cidades latino-americanas, onde populações negras e periféricas são sistematicamente empurradas para territórios com menor acesso a infraestrutura, serviços e condições dignas de vida. 

“Viabilizar espaços em que crianças e jovens se tornam protagonistas da avaliação e aprimoramento da Agenda 2030 é o que tornará os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável implementados de maneira justa em nossa região. O Fórum de Juventudes nos mostrou que há um conjunto diverso de juventudes engajadas em processos participativos de escuta e construção técnica para qualificar os ODS de forma a torná-los condizentes com as soluções e demandas que os territórios já estão produzindo e endereçando. É importante que espaços como esse sejam ampliados, para demonstrar que a interseccionalidade de gênero, idade, raça e demais categorias, fortalecem o ecossistema democrático. O Fórum provou que juventudes diversas não querem apenas estar à mesa, mas sim redesenhar os espaços de participação. É a aplicação prática da interseccionalidade que garante que as políticas públicas deixem de ser formuladas sobre nós para serem construídas por nós e para os nossos”, avaliou Thaynah. 

Ao enfatizar a interseccionalidade como eixo estruturante, a análise da assessora internacional de clima e racismo ambiental em Geledés aponta para uma crítica central: políticas públicas que não incorporam o recorte racial tendem a reproduzir desigualdades, mesmo quando orientadas por metas globais como os ODS; nesse sentido, a disputa não é apenas por inclusão, mas por uma verdadeira transformação das bases que organizam a produção das políticas. 

Reflexão semelhante veio da fala de Antônio Palma, ponto focal do Grupo NNAyJ e membro da Rede Latino-americana de Organizações Não-Governamentais de Pessoas com Deficiência e suas Famílias – RIADIS, ao destacar a importância da participação contínua das juventudes nos processos de revisão da Agenda 2030. “A cada ano, meninas, meninos, adolescentes e jovens da América Latina e do Caribe participam de diálogos para revisar os ODS. O NNAYJ convoca as juventudes da região a opinar sobre avanços, desafios e soluções rumo à Agenda 2030. Suas vozes são essenciais para construir uma sociedade justa, equitativa e resiliente, onde ninguém, por nenhum motivo, fique para trás”, disse Palma. 

Essa construção coletiva no Fórum LAC resultou em um documento final que não apenas sistematiza demandas, mas explicita a centralidade da temática do racismo ambiental como uma categoria analítica e política, evidenciando como a distribuição desigual de riscos e recursos — seja no acesso à água, à energia ou à cidade — está profundamente vinculada a processos históricos de racialização. 

A transposição dessas análises para o Fórum da Juventude do ECOSOC, realizado em Nova York entre os dias 14 e 16 de abril, evidencia a capacidade das juventudes latino-americanas de transformar experiências locais em incidência global.  

O debate sobre água e saneamento, por exemplo, expôs como comunidades negras, indígenas e rurais são as mais afetadas pela insegurança hídrica; a discussão sobre energia evidenciou que a pobreza energética tem cor e território; a análise sobre inovação e infraestrutura destacou que a exclusão digital reproduz desigualdades raciais e limita oportunidades para jovens fora dos grandes centros; no campo das cidades, reforçou-se que a segregação urbana é expressão direta do racismo estrutural; e, por fim, no ODS 17, destacou-se que parcerias eficazes só serão possíveis se reconhecerem e enfrentarem essas desigualdades, incluindo jovens racializados como protagonistas nos processos decisórios

As contribuições levadas ao ECOSOC puderam demonstrar que se a Agenda 2030 não for atravessada por uma perspectiva racial, ela corre o risco de reproduzir as mesmas estruturas de exclusão que pretende superar; nesse sentido, a atuação do Geledés reforçou mais uma vez a necessidade de serem construídas pontes entre territórios e instâncias multilaterais, para que as vozes historicamente marginalizadas não apenas sejam ouvidas, mas exercem influência concreta nos rumos das políticas globais. Mais do que isso, Geledés evidenciou que o papel das juventudes negras e periféricas não é o de apenas denunciar racismos e desigualdades, mas de apontar caminhos baseados em suas próprias experiências e formas de organização.

A leitura conjunta dos dois fóruns permite identificar uma convergência fundamental: a compreensão de que não há desenvolvimento sustentável sem justiça racial; políticas interseccionais e fortalecimento de alianças, as juventudes latino-americanas estão, na prática, redefinindo os termos da Agenda 2030. Para além de ocupar esses espaços, essa juventude reedifica o próprio conceito de desenvolvimento, ao deixar evidente que sustentabilidade será apenas alcançada se for construída a partir das experiências e demandas dos territórios racializados. 

Nesse sentido, Geledés vem se consolidando como um ator estratégico na articulação entre as arenas regional e global, contribuindo, inclusive, para que a governança internacional incorpore, de forma estruturante, a agenda de justiça racial. 

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