A participação da sociedade civil nos espaços multilaterais tem se consolidado como um dos pilares centrais da governança global contemporânea — mas permanece atravessada por desigualdades profundas, especialmente quando se trata da efetiva influência de grupos historicamente marginalizados. Em entrevista exclusiva a Geledés – Instituto da Mulher Negra, Lotta Tähtinen, diretora do Escritório de Apoio Intergovernamental e Coordenação para o Desenvolvimento Sustentável (OISC) do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA), detalha os esforços da ONU para transformar essa participação em incidência concreta nos processos internacionais, em especial nos Relatórios Nacionais Voluntários (Voluntary National Reviews – VNRs).
Os Relatórios Nacionais Voluntários são instrumentos apresentados pelos países no âmbito do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF) das Nações Unidas para reportar o progresso na implementação da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Nesse sentido, constituem não apenas mecanismos de monitoramento, mas também espaços políticos de avaliação, aprendizado e disputa de narrativas sobre desenvolvimento, desigualdade e prioridades nacionais.
A entrevista com Tähtinen se insere no contexto de sua participação no Second Global Workshop for 2026 VNR Countries, realizado em Brasília entre os dias 8 e 10 de abril de 2026, que contou também com a presença de Renata Juliotti, secretária executiva do Stakeholder Group de Afrodescendentes e assessora de Desenvolvimento Sustentável de Geledés. Organizado pelo UN DESA, com apoio do governo brasileiro e financiamento do Ministério das Relações Exteriores da Itália, o encontro reuniu representantes de países que apresentarão seus Relatórios Nacionais Voluntários no Fórum Político de Alto Nível (HLPF), em julho. Voltado ao fortalecimento técnico desses relatórios, o seminário promoveu a troca de experiências, a aprendizagem entre pares e o aprimoramento de análises baseadas em evidências, com ênfase na formulação de políticas públicas mais eficazes e orientadas à redução das desigualdades.
Com mais de duas décadas de atuação no sistema ONU, Tähtinen construiu uma trajetória marcada pelo apoio a grandes conferências e processos intergovernamentais sobre desenvolvimento sustentável, incluindo sua contribuição no processo que levou à adoção da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). À frente do OISC desde 2024, ela supervisiona e orienta o apoio do UN DESA ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC), ao Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF) e ao Comitê de Organizações Não Governamentais (ONGs). Sua experiência inclui ainda a liderança de iniciativas de parcerias, comunicação e engajamento de atores diversos no âmbito da ONU.
Na entrevista, Tähtinen aponta que há um esforço crescente para garantir que os processos participativos avancem para além da consulta formal e se convertam em influência real sobre políticas públicas. Como destaca, “as diretrizes dos VNRs também incentivam os países a refletirem sobre como as contribuições dos diferentes grupos têm informado o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas”. Ao mesmo tempo, ela enfatiza a centralidade da produção de dados desagregados e da visibilização das desigualdades raciais e de gênero, ressaltando a importância de “promover estatísticas desagregadas por gênero e etnia, com destaque específico para a realidade das mulheres afrodescendentes”.
Esse debate ganha ainda mais relevância no contexto brasileiro recente. Em 2026, o país avança ao reconhecer o ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial) como compromisso nacional, conferindo uma maior centralidade ao enfrentamento das desigualdades — especialmente as raciais — no âmbito da Agenda 2030.
Trata-se de um movimento que reforça a compreensão de que enfrentar barreiras estruturais é condição indispensável para o alcance efetivo dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nesse processo, a incorporação de dados desagregados por raça nos VNRs permite identificar, com maior precisão, quem está sendo deixado para trás, onde e por quê, um tema recorrente nas colocações de Geledés nos fóruns internacionais. Dessa forma, mais do que um avanço técnico, essa abordagem representa uma inflexão política que aponta para a necessidade de institucionalização de instrumentos capazes de orientar políticas públicas mais equitativas e eficazes.
A diretora também evidencia uma mudança de paradigma no sistema ONU, que passa a reconhecer grupos historicamente marginalizados como protagonistas do desenvolvimento. Segundo ela, há um movimento para superar abordagens assistencialistas: “o sistema ONU vem deslocando a abordagem que tratava esses grupos como meros beneficiários de políticas para reconhecê-los como agentes centrais de transformação no planejamento do desenvolvimento”. Ainda assim, reconhece a persistência de entraves estruturais, como o racismo sistêmico, a exclusão econômica e a sub-representação política, que limitam avanços mais substantivos.
Ao projetar os desafios da agenda pós-2030, Tähtinen defende que será necessário avançar para uma governança orientada à responsabilização e à efetividade. Nesse sentido, afirma que os processos precisam evoluir “de uma lógica meramente descritiva para uma governança inclusiva orientada à responsabilização”, destacando também o papel estratégico de iniciativas como o Stakeholder Group de Afrodescendentes na reconfiguração da participação multilateral e no enfrentamento das desigualdades estruturais.
Geledés – Partindo da afirmação de Geledés de que “participação sem influência não é participação significativa” e de sua incidência em prol da justiça racial e de gênero, de que maneira o UN DESA tem apoiado os Estados-Membros na construção de processos de Relatórios Nacionais Voluntários (VNRs) que avancem para além da consulta formal, garantindo a inclusão efetiva e a influência política de grupos historicamente marginalizados — em especial mulheres afrodescendentes — por meio de abordagens multissetoriais, produção de dados desagregados e incorporação de uma perspectiva interseccional que articule raça, gênero, classe e território, sobretudo em contextos marcados por resistências políticas e persistentes desigualdades estruturais?
O DESA tem apoiado os Estados-Membros na concepção de processos de VNRs que promovam plataformas multissetoriais, consultas participativas e a incorporação das contribuições das partes interessadas nos relatórios nacionais. As diretrizes dos VNRs também incentivam os países a refletirem sobre como as contribuições desses atores têm informado o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas.
O UN DESA promove a inclusão de grupos marginalizados no processo de elaboração dos VNRs por meio do fortalecimento de capacidades dos governos para a adoção de abordagens que envolvam toda a sociedade na implementação dos ODS; da promoção de estatísticas desagregadas por gênero e etnia, com destaque específico para a realidade das mulheres afrodescendentes; do desenvolvimento de ferramentas para que institutos nacionais de estatística e autoridades governamentais possam monitorar e enfrentar desigualdades; do estímulo à criação de processos de VNR inclusivos, que envolvam grupos marginalizados tanto nas etapas de elaboração quanto nas de revisão; e do apoio a revisões voluntárias locais que engajem comunidades locais e povos indígenas.
O DESA colabora ativamente com os Major Groups e outros Stakeholder Groups por meio de seu Mecanismo de Coordenação e amplia a visibilidade das vozes de grupos marginalizados representados por coletivos como povos indígenas, afrodescendentes, comunidades discriminadas por trabalho e ascendência, entre outros, no âmbito dos processos multilaterais, inclusive no Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável (HLPF).
Por meio da Segunda Década Internacional de Afrodescendentes (2025–2034) e dos compromissos da agenda “Não Deixar Ninguém para Trás” (Leave No One Behind – LNOB), o sistema ONU vem deslocando a abordagem que tratava esses grupos como meros beneficiários de políticas para reconhecê-los como agentes centrais de transformação no planejamento do desenvolvimento.
A ausência de dados desagregados por raça/etnia, a exclusão econômica, o racismo estrutural e a sub-representação de mulheres afrodescendentes em espaços políticos e de liderança constituem barreiras institucionais ao avanço. O Relatório Social Mundial de 2025 do UN DESA destaca que a superação desses obstáculos requer políticas sensíveis aos contextos específicos, o fortalecimento das capacidades estatísticas nacionais e a institucionalização de instâncias participativas e deliberativas inclusivas.
Geledés – Considerando que os VNRs vêm identificando de forma crescente desigualdades estruturais, quais estratégias concretas podem assegurar que os dados sobre disparidades raciais e de gênero se convertam em políticas públicas acionáveis e devidamente financiadas, e de que maneira os marcos de reporte podem melhor articular os diagnósticos de desigualdade com arquiteturas de financiamento inclusivas e equitativas?
O sistema ONU, incluindo o UN DESA, apoia os Estados-Membros na promoção de abordagens integradas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, conforme previsto na Agenda 2030. As Diretrizes Comuns Voluntárias de Relato para os VNRs, atualizadas pelo secretário-geral da ONU em novembro de 2024, representam uma mudança significativa ao deslocar o foco de relatórios descritivos para avaliações analíticas, orientadas à ação e com potencial transformador. Essas diretrizes conclamam explicitamente os Estados-Membros a superar a lacuna entre “diagnósticos de desigualdade” e “financiamento inclusivo”, por meio da integração dos resultados dos VNRs aos ciclos nacionais de planejamento e orçamento.
Por exemplo, diversos VNRs têm destacado a adoção de Marcos Nacionais Integrados de Financiamento (Integrated National Financing Frameworks – INFFs), que buscam alinhar os recursos financeiros às prioridades do desenvolvimento sustentável. Esses instrumentos permitem que os países identifiquem, de forma mais precisa, os recursos necessários para implementar estratégias orientadas à equidade identificadas nos VNRs.
Geledés -À medida que nos aproximamos da agenda pós-2030, de que forma as lições aprendidas com os processos de VNR — juntamente com o papel crescente de Stakeholder Groups, como o de Afrodescendentes — podem contribuir para reconfigurar a participação no multilateralismo, fortalecer o alinhamento com as prioridades do HLPF e assegurar que os compromissos globais se traduzam efetivamente em transformações locais no campo da justiça racial e de gênero?
Os VNRs desempenham um papel importante na identificação de desigualdades estruturais e na evidência de lacunas de dados, inclusive no que se refere ao gênero e a outras dimensões da desigualdade. Com mais de dez anos de relatórios de VNR, nossas análises indicam que, para que os compromissos globais se traduzam em transformações locais na justiça racial e de gênero, o processo precisa avançar de uma lógica meramente descritiva para uma governança inclusiva orientada à responsabilização, sustentada por marcos legais e coordenação de políticas públicas.
O surgimento de estruturas formalizadas, como o Stakeholder Group de Afrodescendentes, reconhecido pelo DESA e fortalecido por sua inclusão ao longo do programa oficial de atividades do HLPF — bem como em seus diversos eventos especiais, paralelos e laboratórios de VNR —, oferece um caminho para assegurar que esses compromissos enfrentem o racismo estrutural e as desigualdades sistêmicas.
Olhando para o futuro, essas experiências podem contribuir para os debates sobre como aprimorar a participação multilateral, monitorar a implementação e fortalecer abordagens integradas para o desenvolvimento sustentável. O papel do DESA seguirá sendo o de apoiar os Estados-Membros por meio de orientações baseadas em evidências, da promoção de espaços de diálogo e do incentivo a práticas inclusivas, em consonância com seu mandato e com as diretrizes intergovernamentais.