Entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, a cidade de Yeosu, na Coreia do Sul, sediou a 3ª. Semana do Clima (Climate Week – CW3) do calendário oficial da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Realizado em um momento estratégico de preparação para a COP31, prevista para ocorrer em novembro na Turquia, o encontro reuniu governos, especialistas, organismos multilaterais e representantes da sociedade civil em torno das grandes negociações que moldam a resposta global à crise climática.
É nesse cenário, marcado por disputas geopolíticas, assimetrias históricas e crescente pressão por resultados concretos, que Geledés – Instituto da Mulher Negra se insere de forma cada vez mais articulada no debate internacional. Ao participar presencialmente da Semana de Clima, a organização reafirma sua estratégia de incidência global, buscando não apenas acompanhar os diálogos conectados com as agendas de negociações, mas influenciar seus rumos a partir de uma perspectiva que conecta justiça climática, raça e gênero.
Foi sob essa perspectiva que Geledés acompanhou, em Yeosu, algumas das agendas mais sensíveis das atuais negociações. Na temática de Adaptação e Perdas e Danos, o instituto participou de eventos em que foi possível aprofundar as discussões sobre as oportunidades oferecidas pelo mecanismo internacional, especialmente no que diz respeito à produção de conhecimento técnico e ao fortalecimento de capacidades em territórios vulneráveis. Ainda que o Brasil não figure entre os principais destinatários desses recursos, a leitura construída aponta para a importância de utilizar esses instrumentos como base para pressionar políticas públicas nacionais e ampliar o debate sobre reparação climática e a construção de fundos nacionais específicos para endereçar a agenda de Perdas e Danos.
Essa dimensão se conecta diretamente com outro eixo fundamental da atuação da organização: a agenda de gênero. Nesse campo, o foco de Geledés esteve em sua participação no Workshop de Financiamento do Plano de Ação de Gênero (GAP), primeiro evento oficial voltado à implementação dessa agenda. Nesse contexto, a assessora de clima e racismo ambiental de Geledés, Thaynah Gutierrez, destacou a relevância dos aportes ao afirmar que “falar sobre o financiamento para a implementação do Plano de Ação de Gênero (GAP) é fundamental nesse contexto que estamos vivendo no qual todas as agendas de direitos humanos e, em especial, aquelas que envolvem gênero e raça, estão passando por desmontes e processos de desfinanciamento”.
A representante de Geledés ressaltou ainda que “o compromisso dos fundos e mecanismos financeiros em tornar gênero uma agenda prioritária, com perspectiva interseccional e com acesso facilitado para organizações de base, nos permite acreditar na materialização real dos avanços nessa agenda, pois só com financiamento adequado conseguimos fortalecer a agenda de políticas públicas nacionais”, acrescentando que “em Geledés, há um engajamento em tornar o GAP instrumento de política pública contínua, com o sentido de transversalizar a perspectiva de gênero para todas ações e políticas climáticas, sem deixar ninguém para trás”.
Em sua avaliação, a assessora de clima afirmou também que “passos foram dados pelo governo brasileiro na construção do Plano de Ações Integradas Mulheres e Clima, porém, há um desafio enorme em garantir sustentabilidade para essas ações no longo prazo e isso deve ser feito com protagonismo da sociedade civil, em especial, das mulheres negras, indígenas e periféricas”.
Ao lado dessas agendas, a transição justa se consolidou como um dos principais campos de disputa política durante o encontro. Nesse âmbito, o foco da participação de Geledés foi o 5º Diálogo do Programa de Transição Justa, centrado em discussões sobre agricultura e sistemas marinhos. Em nome do instituto, foi apresentada uma intervenção que trouxe o contexto da agricultura e da agroecologia urbana, evidenciando a importância do fomento a essas práticas como estratégia para enfrentar os impactos da crise climática nas periferias — de forma mais específica, entre populações afrodescendentes.
Ao dimensionar esse espaço, Thaynah Gutierrez observou que “o quinto diálogo do Programa de Trabalho de Transição Justa demonstrou o interesse dos países em avançar com a construção de um Mecanismo de Transição Justa que seja efetivo e concilie contribuições técnicas dos especialistas com as contribuições técnicas da sociedade civil e movimentos sociais engajados nessa agenda”. Disse ainda acreditar “em uma transição justa que promova o fim dos combustíveis fósseis e a reparação integral dos territórios violados e para isso, a sociedade civil global deve ter assentos dentro do Mecanismo para contribuir com seus avanços sendo também protagonista de soluções locais que protejam territórios e defensores”.
A assessora de clima pontou que “ao aprofundarmos a discussão a partir da temática dos sistemas alimentares e marinhos, foi possível compreender como a Transição Justa representa uma agenda intersetorial e transversal que demanda múltiplas vozes para direcionar respostas efetivas”. Por fim, concluiu que “é justamente nessa compreensão da intersetorialidade da agenda, que Geledés tem defendido a ampla participação da sociedade civil, especialmente das populações afrodescendentes, para posicionar a agenda com a ambição que ela precisa ter para enfrentar os desafios que estão colocados hoje”.
A inserção desses temas em um espaço internacional evidenciou tanto a potência quanto os limites das negociações em curso. Se, por um lado, cresce o reconhecimento da necessidade de integrar justiça social às políticas climáticas, por outro, persistem tensões geopolíticas que dificultam avanços mais estruturais, especialmente no que diz respeito à transição energética e à redução do uso de combustíveis fósseis.
Apesar desses desafios, o ambiente também abriu espaço para a construção de alianças e o fortalecimento de redes. Ao longo da Semana de Clima, Geledés consolidou sua posição por meio de articulações internacionais estratégicas, como a Climate Action Network (CAN) e o Women and Gender Constituency (WGC). O reconhecimento por parte dessas redes não apenas legitima sua atuação, mas também amplia sua capacidade de influenciar processos globais. Esses avanços dialogam diretamente com a leitura política construída a partir do encontro em Yeosu. Mais do que um espaço de deliberação, a Semana de Clima se revelou como um momento de transição no calendário internacional
Em um contexto em que o direito internacional começa a reconhecer, de forma mais explícita, a responsabilidade dos Estados diante da crise climática, a atuação da sociedade civil — e, em especial, de organizações negras — torna-se não apenas necessária, mas decisiva. Os debates, articulações e incidências construídos ao longo da Semana do Clima em Yeosu não se encerram neste espaço: eles se projetam como base estratégica para a próxima etapa das negociações internacionais, que ganharão densidade política na SB64, a ser realizada em Bonn, em junho. Será nesse espaço que muitos dos temas aqui tensionados — financiamento, adaptação, perdas e danos, gênero e transição justa — entrarão em fase mais concreta de disputa entre os Estados.
Nesse sentido, Geledés segue mobilizado para dar continuidade a essa agenda, aprofundando alianças, qualificando sua incidência e fortalecendo a presença de perspectivas negras e feministas nos processos que irão moldar os rumos da governança climática global rumo à COP31.