Nesta terça-feira (5), Geledés – Instituto da Mulher Negra promoveu uma discussão sobre o livro “Pátria Minha: uma telenovela questionada por seu racismo”. A obra, com lançamento previsto para este ano, relembra o episódio em que a organização interpôs uma notificação contra a TV Globo, após a exibição de uma cena racista em uma novela no ano de 1994.
A cena fazia parte da novela Pátria Minha e mostrava o protagonista, Raul Pelegrini (Tarcísio Meira), acusando o jardineiro, Kennedy (Alexandre Moreno), de roubo. A situação evidenciava uma posição de subserviência e não reação do personagem negro. Isso não se limitava a essa cena. Todo o enredo era marcado por personagens negros com ausência de agência própria, submissão e à espera de serem ‘salvos’ por personagens brancos.
Ao questionar esse episódio por meio do programa SOS Racismo, Geledés evidenciou a discriminação presente na trama. Nesse sentido, a obra “Pátria Minha: uma telenovela questionada por seu racismo” reúne o passo a passo desse processo e seus desdobramentos, bem como os antecedentes da representação da população negra nas telenovelas até os anos 1990.
“Fizemos a representação e a Globo reagiu com o máximo de violência possível”, relatou Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação, durante o encontro. Ela contou que Geledés recebeu ataques, ficou isolada e foi acusada de promover a censura contra a telenovela.
“Num contexto de redemocratização, pós Constituição de 1988, recebemos uma acusação de censura que remontava aos dolorosos tempos da ditadura. Isso foi uma tarja muito pesada em cima do protagonismo das organizações negras”, disse.
Presença negra nas novelas
O encontro de terça-feira reuniu pessoas das áreas de comunicação, artes, audiovisual, linguagem e ciências sociais para leitura de trechos e discussão da obra. A atividade foi conduzida por Layne Gabriele da Silva, mestranda em Linguagem, Transculturalidade, Memória e Tecnologia, e Vinícius Santana Cerqueira, doutorando em Filosofia.
No início da conversa, os mediadores relembraram o momento político que o Brasil vivia quando a novela foi exibida. “Em 1994, houve eleições, criação do Plano Real, aumento do consumo a partir da publicidade e a ascensão da TV como principal formadora de imaginário dentro das casas brasileiras”, contextualizou Layne Gabriele.
Durante a apresentação, foi mencionada a falta de representação de pessoas negras nas telas naquela época. “É importante destacar que não é porque nós não aparecíamos na TV que não estávamos disputando o campo artístico. Desde 1944, com a fundação do Teatro Experimental do Negro (TEN), vemos que tem uma disputa nesse campo simbólico feito pela negritude”, pontuou Vinícius.
Após a leitura de alguns trechos do livro, foi exibida a cena racista da novela Pátria Minha.
“O que me chamou atenção na cena foi que ele [Kennedy], no auge do desespero, pede pela mulher branca. Outra coisa é o uso do racismo científico, quando o personagem branco fala do tamanho do cérebro do personagem negro. O Brasil é o campeão mundial em reinventar o mito da democracia racial”, afirmou Tatiana Nascimento, fundadora da produtora de som Janga.
As discussões giraram em torno de que, apesar dos avanços da representação de pessoas negras na teledramaturgia e nos bastidores das produções, ainda há evidências marcantes do racismo nesses espaços.
“À medida que ocupamos determinados espaços, precisamos olhar por onde o racismo escoa. É muito importante vermos o avanço do que encontramos na mídia, mas precisamos entender por onde essa tecnologia do racismo está escoando”, argumentou Renata Prado, pesquisadora da cultura funk.
Diante disso, as convidadas ressaltaram a importância dos profissionais negros criarem suas próprias produções para contar histórias fora do ponto de vista hegemônico. “Tenho cada vez mais pensado no meu trabalho, em como sou responsável pela construção de imagem de pessoas pretas, sobretudo mulheres. Quero cada vez mais construir as pessoas sonhando, tendo alívio, tendo outras perspectivas”, relatou Fernanda Souza, diretora criativa.
Também foi destacada a relevância de atuar em coletivo e de forma estratégica para combater o racismo nas mídias e propagar narrativas negras em suas diversidades. De modo geral, a conversa trouxe à tona ensinamentos e contribuições da incidência política realizada por Geledés para as formas contemporâneas de atuação política.








