Não há caminho de volta para o Supremo depois de Joaquim Barbosa

Por: Christina Lemos 

A passagem do ministro Joaquim Barbosa pelo STF (Supremo Tribunal Federal), agora com fim anunciado para junho, deixou marcas históricas na mais alta corte de Justiça do País, seja qual for a dose de simpatia ou de antipatia com que se olhe para o magistrado.

Foi, sem dúvida, um recordista em desavenças, em ousadia e quebra de paradigmas comportamentais. Por isso mesmo, talvez, tenha trazido o Supremo para o plano dos mortais, popularizado o Judiciário e alcançando, ele próprio, notoriedade de máscara de carnaval.

Entre os 11 integrantes da Corte, nas diversas composições dos últimos anos, pelo menos sete entraram em rota de colisão com Barbosa. Os embates verbais mais violentos foram com Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes, e, por último, com Ricardo Lewandowski.

A aspereza e o destempero inéditos de suas manifestações durante sessões de julgamento o levaram ao estrelato no noticiário. Angariou ira e admiração quase na mesma medida, mas impôs-se como magistrado e autoridade pública.

Nomeado para o Supremo por Lula precisamente pelo fato de ser negro, jamais lhe agradou a ideia de que sua capacidade de julgamento tivesse viés racial ou fosse assim percebida.  Por isso mesmo, reagiu à pergunta de um repórter negro, na véspera de sua posse como presidente do Supremo, em novembro de 2012.

A pergunta era sobre a importância simbólica de um negro à frente da Suprema Corte. “O que é isso, meu brother?! Logo você?” — reagiu, num episódio que mais tarde ganhou interpretação diversa no noticiário.

Barbosa, que se confessou eleitor de Lula e do PT, tornou-se algoz de líderes históricos do partido e deu importante colaboração para mandá-los para a prisão. Conduziu e viabilizou o julgamento do mensalão, único sob qualquer ângulo que se observe — tarefa considerada até então impraticável, tal era o número de réus e tais eram as implicações políticas.

Atravessou ano e meio de julgamento, de pé, sentado, sob intensas dores lombares, aplausos e vaias, ataques e demonstrações de apoio que o levaram a figurar nas pesquisas de opinião para Presidência da República, sem jamais ter sido candidato a nada.

Barbosa tem apenas 59 anos. Retira-se do Supremo antes de testemunhar novas e amargas derrotas e até mesmo um provável pedido de revisão do julgamento do mensalão. É jovem demais, porém, para se retirar da vida pública — o que, no entanto, não seria nenhuma surpresa.

Sua indignação, exposta muitas vezes de forma equivocada e agressiva, encontrou eco em boa parte da população, justamente entre aqueles mais simples, que mal entendem o sentido da palavra cidadania.

Deixou marcas tão importantes no Supremo que forçam uma mudança de atitude deste Tribunal, hoje mais vulnerável e mais humano. Pode-se amá-lo ou odiá-lo pelas mais diversas razões.

Mas isso nada tem a ver com o impacto de sua passagem pelo STF — esse desconhecido, agora descoberto pelo homem da rua como imensa e frágil casa de vidro, a completar a Praça dos Três Poderes. Não há caminho de volta para o Supremo, depois de Barbosa.

Fonte: R7

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