sexta-feira, janeiro 27, 2023
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Não há lugar para a transfobia no feminismo

Texto de Lauren Rankin. Tradução de Liliane Gusmão, Hailey Kaas e Iara Paiva.

Originalmente publicado com o título: Transphobia Has No Place in Feminism, no site Policymic.com

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por Liliane Gusmão

A intolerância frequentemente nasce do nosso medo e confusão sobre aqueles cujas identidades não entendemos. Nós temos medo que a diferença deles reflita na nossa semelhança, e na pressa de nos refugiar no conforto da conformidade, nós demonizamos a diferença. Progressistas quase sempre lamentam a intolerância ocultas nas práticas e posições políticas dos partidários da direita, mas a triste verdade é que a intolerância existe até mesmo em espaços feministas. E em nenhum outro caso isso é mais evidente do que na transfobia, tanto na latente quanto na explícita, que estão inseridos nas várias facetas do movimento feminista.

  1. hashtag #RadFem2013 do twitter está repleta de manifestações de um grupo agressivo de feministas que sequestraram as vertentes radicais do feminismo — que estavam enraizadas no desafio às estruturas patriarcais de opressão — como um meio de menosprezar, condenar, e repreender membros da comunidade trans. Elas alegam que por terem sido designados com o gênero masculino ao nascer, as mulheres trans não seriam mulheres. Excluem ativamente mulheres trans de espaços feministas. Demonizam mulheres trans como impostoras, caluniosa e violentamente classificam-nas como apoiadoras de estupros corretivos. Assediam mulheres trans e frequentemente publicam seus nomes civis completos em espaços públicos online. E mesmo que sejam as mais visíveis perpetradoras de transfobia dentro do feminismo, elas não são as únicas.
  2. ‘mainstream’ simplesmente evitam escrever ou falar sobre mulheres trans. Sophia Banks, ativista e mulher trans, enfatiza que mesmo se identificando como feminista sua experiência dentro da comunidade feminista é ambígua. “Feministas interseccionais foram ótimas, mas muitas feministas radicais tem sido bastante crueis comigo”, diz ela, destacando que muitas feministas trabalham limitadas pela linguagem e talvez por ignorância assumem que mulheres cisgêneras (a pessoa cisgênera é aquela que se identifica com o genero designado ao nascer) são seu público alvo.

Qualquer suposição de que as mulheres cisgêneras são as únicas mulheres de verdade é uma forma de intolerância gritante. E honestamente, é também uma violação do feminismo mais básico. Afinal de contas, Simone de Beauvoir disse há mais de meio século atrás que: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.

Foto de Cary Bass. Fonte: Wikimedia Commons.

O feminismo é baseado na ideia do gênero como construção social, de que mulheres não são definidas pela biologia, e que a categoria ‘mulher’ é informada e construída por normas sociais de gênero. Se mulheres são mais do que o que tem entre as pernas, por que algumas feministas continuam a perpetuar a noção patriarcal de que gênero é destino?

O feminismo não pode ser um movimento que cria limites sobre qual mulher é aceitável ou não. O feminismo não pode ser um meio promotor de intolerância e exclusão. O feminismo é um movimento de mudança social, que desafia o binarismo de gênero e luta para acabar com a opressão do patriarcado contra mulheres. O feminismo é supostamente para criticar e combater a intolerância, não para perpetuá-la. E isto é o que as “Rad Fems” e todas as outras feministas transfóbicas estão fazendo: perpetuando intolerância contra mulheres trans enquanto escondem-se sob a retórica feminista.

Sempre que feministas cisgêneras falham em incluir mulheres trans, isso é transfobia. Aquelas, dentro do feminismo (ou em qualquer outro espaço, na verdade), que perpetuam a demonização de pessoas trans é fonte de intolerância transfobica. Talvez seja medo de perder o privilégio, de confrontar a realidade de que não somos mulheres por que nascemos assim, mas por que escolhemos ser. Mas essas “Rad Fems” que se aconchegam no conforto cego da sua própria intolerância, que atacam e estigmatizam mulheres trans e que sustentam que o feminismo é apenas para mulheres cisgêneras, elas não entendem que sua intolerância não será tolerada em espaços feministas.

Feministas cisgênero devem incluir e apoiar mulheres trans. Ao invés de focalizar miopimente no corpo das mulheres trans, que reitera o mesmo determinismo biológico que queremos evitar, Ricky Hill ativista queer e PhD, sustenta que feministas cisgênero deveriam “se concentrar mais em destacar e engajar as experiências e conquistas de mulheres trans no domínio do feminismo”. Feministas cisgênero não devem apenas dar espaço para mulheres trans no feminismo, mas sim permitir que suas vozes, perspectivas e histórias sejam divulgadas e promovidas. E como Sophia Banks enfatiza é muito importante que feministas cisgênero refutem a transfobia sempre que ela apareça, sempre que percebam a intolerância e o ódio apontados a qualquer membro da comunidade trans.

Mulheres trans são mulheres. Como podemos ter certeza disso? Por que elas assim se designam e identificam. Por que identidade de gênero não é ditada pelo seu genital, nem pelo gênero designado ao nascer. Por que eu e outras feministas cisgêneras , acreditamos nas mulheres trans quando elas dizem que são mulheres. porque mulheres são mulheres e isto é tudo que temos que saber.

 

 

Fonte: Blogueiras Feministas

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