- Premiado em Berlim, longa dirigido por Allan Deberton estreia no Brasil no segundo semestre
- Filme propõe reflexão sobre envelhecimento, sexualidade, amor e violência através de um olhar infantojuvenil
Gugu é um menino de 11 anos cheio de talentos. Bom de bola e bom de brilho. O brilho é metafórico e literal. Ele joga bem futebol, é audaz, inteligente, tem jogo de cintura. E tem jogo na cintura, dança e se maquia com a beleza de não ter vergonha de ser livre. Mas o mundo —a começar pela família— rapidamente vai lembrá-lo de que nada é para sempre (especialmente a felicidade, mas tampouco a tristeza), que entre ser e parecer pode existir um abismo e que nem todos conseguem atravessá-lo.
“Feito Pipa” passeia por ruelas, campinhos, botecos e pela melancolia ensolarada das margens da barragem de Araújo Lima, em Quixadá, Ceará. É um filme que discorre sobre expectativas e de como elas tentam aprisionar o fluxo daquilo que não pode ser controlado: a identidade, o amor, o tempo.
O longa, que entrará em cartaz no Brasil no segundo semestre, teve estreia mundial em fevereiro, no Festival de Berlim, na mostra competitiva Generation —voltada a produções com temas e protagonistas infantojuvenis. De lá saiu laureado com o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional na categoria Generation Kplus.
A história se alterna entre duas realidades: uma, cotidiana e reconfortante; a outra, ocasional e perturbadora. Na maior parte do tempo, Gugu (Yuri Gomes) convive com sua avó, Dilma (Teca Pereira, em uma atuação extraordinária), uma mulher atravessada pela dor, mas que luta para viver com plenitude e que enxerga no neto um reflexo das suas próprias esperanças quase perdidas.

E depois, por coincidências raras vezes felizes ou pela força das convenções sociais, o menino se encontra com o pai (Lázaro Ramos). Após formar outra família, ele espera/exige de Gugu um comportamento padrão que afaste olhares preconceituosos —e também a necessidade de assumir seu próprio desconforto e desconexão com o filho.
“Acho maravilhoso mostrar essa região do mundo, que é tão rica em todos os sentidos. É mais um filme que se passa no Nordeste e que não está repetindo padrões que já contamos várias vezes no nosso cinema“, diz Ramos à Folha.
O ator, que também é produtor associado do longa, conta que a relação entre avó e neto refletida na trama foi um dos aspectos que o motivaram a querer estar na produção.

Camadas e paisagens
“O filme toca em temas muito comuns a todas as famílias. É difícil lidar com os processos de envelhecimento, com as mudanças que o tempo provoca. Desde o princípio do projeto, achei que poderia ser interessante abordar esse tema a partir de uma perspectiva diferente: a de uma criança”, afirma Allan Deberton, diretor do longa.

Yuri Gomes navega com espontaneidade e sutileza pelos dilemas de Gugu, em um processo de preparação feito em camadas, como conta o diretor: “Ele tinha nove anos quando filmamos, e optamos por não lhe entregar o roteiro. Tivemos que encontrar caminhos mais lúdicos, apresentar a ele os sentimentos do personagem, inseri-lo nas situações sensoriais e assim fazê-lo entender a narrativa do filme”.
“Feito Pipa” também mergulha o espectador sem pressa na rotina do menino, com uma paisagem sonora em que Lady Zu, Altemar Dutra e Cindy Lauper se complementam na névoa de uma infância que começa a dar passo à adolescência.

Por fim, um Nordeste de afetos, mas também de violência, paira sobre o dia a dia do garoto e da comunidade em que vive, marcada por conflitos e traumas coletivos.
“Antigamente diriam que é uma história ‘regional demais’ para fazer parte de um festival grande ou ser notada pela indústria. Escutei isso diversas vezes sobre ‘Pacarrete’”, diz Deberton sobre seu longa de estreia, de 2019, vencedor de oito Kikitos em Gramado.
“Ainda bem que os tempos passaram e hoje comprovamos que as plateias desejam exatamente este universo distinto e único: o das verdades dos personagens comuns e suas histórias carregadas de significados.”
Denise Mota – Jornalista especializada em diversidade, escreve sobre quem vive às margens nada plácidas do Ipiranga, da América Latina e de outras paragens