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No aniversário de 10 anos da Muito, personalidades baianas contam o que desejam para a próxima década

A ideia de que existe a Bahia e o Brasil como terras independentes uma da outra é  só uma ideia, e até engraçada. Vivemos aqui, como em todo o mundo, um momento crítico da história. No aniversário de 10 anos da Muito, convidamos dez personalidades  para indicarem caminhos para o próximo decênio em relação a temas centrais da nossa sociedade, como o racismo, a educação, o Carnaval, a cultura, a gastronomia, feminismos, identidades de gênero,  drogas, urbanismo e – como nenhum desses temas deixa de ser – a política. Todas as questões, afinal, passam por esta dimensão: como vamos viver juntos.

Por Bruna Castelo Branco e Tatiana Mendonça Do A Tarde

Foto: Reprodução/A Tarde

>> RACISMO – Vilma Reis

Nós temos dito com toda a força que nos é permitida que o problema do racismo no Brasil é estrutural e estruturante. O principal desafio é, certamente, a situação do genocídio da população negra. Não há outra palavra a ser usada. O Brasil tem 60 mil homicídios por ano. Destes, 77% são de pessoas negras. E esse índice não é visto como uma calamidade.

Temos ainda um outro problema gravíssimo que é o superencarceramento da população negra, das mulheres negras. A feminilização da prisão atingiu a cumeeira do projeto de desestruturação do povo negro, porque atinge não só a mulher, mas a família, que vai para o ralo, fica abandonada. É como se dissessem: ‘Não tem políticas para os negros, cadeia neles’. Prisão virou um negócio. E para que este negócio dê lucro, é preciso que as cadeias estejam cheias.

A guerra às drogas é uma outra tragédia. É um discurso aparentemente fácil dizer que o negócio da droga é movimentado pelos pobres, pela periferia, quando nós sabemos que, na verdade, essa população não está no comando deste comércio e não tem como se proteger dele.

Por meio de uma luta intensa, nós tivemos no Brasil um avanço nas políticas públicas afirmativas, especialmente a partir das cotas. Conseguimos reverter o quadro dramático que mostrava que 98% dos universitários nos cursos de medicina, direito e engenharia eram brancos. Há cerca de 15 anos, nós conseguimos aumentar o acesso dos negros à graduação e agora precisamos resolver o gargalo da pós-graduação.

Outra frente de luta são as cotas raciais nos concursos públicos, com a presença de bancas de verificação, para diminuir as fraudes, que chegam a 40% sem essas bancas. Só assim nós vamos enegrecer o serviço público e conseguir reverter muitas injustiças. É como se o Brasil ainda estivesse como os Estados Unidos na década de 1960 ou como a África do Sul pós-apartheid. São décadas de atraso.

Superar o racismo no mundo do trabalho é uma pauta democrática decisiva. Mas, para isso, precisamos garantir nossa futura coexistência, estabelecer mecanismos para fazer recuarem as mortes de negros. Para isso, a polícia terá que reduzir a letalidade de suas ações, parar de atirar para matar. A polícia não pode ter essa licenciosidade que tem hoje. Precisa ser desmilitarizada. Não há outra saída. E as drogas precisam ser descriminalizadas. A guerra às drogas é uma obscenidade. É uma guerra contra negros e pobres. Tenho muita esperança na luta, nos jovens que estão no front.  Não vamos recuar diante do aniquilamento do povo negro.

Vilma Reis é socióloga e ouvidora da Defensoria Pública do Estado da Bahia. Foi entrevistada na edição #75 da Muito, publicada em 6/9/2009

> EDUCAÇÃO PÚBLICA – Cybele Amado

Atualmente, o grande desafio da educação pública brasileira é a alfabetização plena dos nossos estudantes. Hoje, no Brasil, estamos com um número de quase 40% de meninas e meninos que não estão concluindo o 5º ano do ensino fundamental 1 [antiga 4ª série] plenamente alfabetizados. Toda a sociedade, de forma geral, concorda que a alfabetização plena é a chave para um novo projeto de país. Para mim, é esse investimento que o Brasil precisa para alcançar um maior nível de desenvolvimento.

Para alcançar esse objetivo ao longo da próxima década, existem medidas extremamente necessárias. A primeira delas passa pela formação inicial dos professores que, atualmente, estão concluindo o curso de pedagogia. É necessário que haja uma mudança curricular significativa para que os professores tenham mais condições de ensinar, para que saibam, de fato, o que ensinam e como ensinam. O professor precisa estar, desde o início, lidando nos seus conteúdos de formação com aquilo o que é o seu objeto de trabalho: a aprendizagem das crianças.

A segunda medida é investir na formação continuada dos educadores. Isso quer dizer que, na escola, além do trabalho com as crianças, os professores também precisam, com o apoio da equipe pedagógica, continuar a sua formação. Nesse contexto coletivo, a escola analisa o que a criança já sabe, o que ainda é preciso fazer para que ela continue aprendendo e quais planos de ação podem ser feitos para ajudar no aprendizado, de uma forma que de fato favoreça que a criança se torne alguém plenamente alfabetizado.

Cybele Amado é pedagoga e uma das fundadoras e diretora-presidente do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep). Foi entrevistada na edição #356 da Muito, publicada em 5/4/2015

> CARNAVAL – J. Cunha

Eu acompanho o Carnaval desde criança e percebo as mudanças provocadas pela industrialização dessa festa popular. Na minha visão, a parte mais criativa do Carnaval é a manifestação das culturas africanas. Quando, com o passar do tempo, essa criatividade foi se tornando mais evidente, os empresários se apropriaram dela. Ninguém faz arte só comendo caviar.

A arte é uma consequência do sentimento, da percepção de que há necessidades, e o Carnaval está inserido nessas necessidades. Eu sou do tempo em que, na época do Carnaval, fazíamos decorações nas ruas. Sem esses tipos de manifestações artísticas, vira uma festinha como qualquer outra, que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, sem identidade. Hoje, vejo uma tendência de quebra dessa apropriação da classe média. Quando vemos imagens do Carnaval de Salvador, vemos pessoas na rua, brincando, não os camarotes.

Hoje, aos poucos, parte da população está voltando a olhar essa festa como um espaço popular e democrático. Carnaval é educação e cultura, é rua, é pé no chão. Mas a queda das cordas é ainda uma questão política e econômica. No final, é o dinheiro que manda em tudo.

Nos próximos dez anos, ainda vejo essa situação como uma colcha de retalhos, o poder público remendando aqui e ali para encontrar soluções. Enquanto o Carnaval continuar como uma festa que precisa dar lucros fartos, não vai voltar às suas origens populares. Acho que, com o interesse dos empresários acima de tudo, o Carnaval permanecerá segregacionista.

J. Cunha é artista visual, designer gráfico, cenógrafo e figurinista. Durante 25 anos, assinou a concepção visual e estética do bloco Ilê Aiyê.  Foi entrevistado na edição #334 da Muito, publicada em 9/11/2014

> CULTURA – Goli Guerreiro 

Salvador da Bahia, março 2018

Porto da Barra, sexta-feira de tarde.

Cadeiras, guarda-sóis, smartphones, caixas de som portáteis. Centenas de jovens e adultos se divertem na praia. Eles são quase todos negros e exibem cabelos black e estilos brau. Essa presença se estende pelo calçadão que leva ao Farol da Barra.

Shopping da Bahia, sábado de noite.

Numa livraria, dezenas de intelectuais – muitas delas protagonistas dos Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras – recitam e discutem referências afrocentradas no sarau Leituras Pretas, que homenageia Conceição Evaristo, escritora internacionalmente laureada.

Cine Teatro Solar Boa Vista, madrugada de domingo.

Ausência absoluta de homogeneidade caracteriza a multidão jovem LGBTTQIA que performa na festa Batekoo, um dos movimentos estéticos de empoderamento negro que, ao lado do Circuito Rolezinho e Afrobapho, articulam atitudes e narrativas afrofuturistas.

O que essas cenas cotidianas expressam sobre a cultura soteropolitana? A mudança de posicionamento de pessoas negras em espaços e dimensões antes ocupados pela minoria branca. Um fluxo comportamental irrefreável que esperamos ver ascender, na próxima década, na maior cidade da diáspora afro-atlântica. Wakanda forever!

Goli Guerreiro é escritora e antropóloga. Foi entrevistada na edição  #136 da Muito, publicada em 7/11/2010

> GASTRONOMIA – Fabrício Lemos

Oprincipal problema da gastronomia, não só na Bahia como no mundo, é a escassez do produto. Não se pode mais pensar a gastronomia sem pensar em sustentabilidade. Temos aqui na Bahia o exemplo do umbu, que não é plantado. E com a escassez de chuvas que estamos vivenciando na caatinga, está cada vez mais difícil encontrá-lo. Sem plantio, há a possibilidade de que o umbuzeiro desapareça. Com o licurizeiro é a mesma coisa. A população que depende da comercialização desses produtos fica prejudicada.

O grande desafio é fazer com que esses produtos cheguem à casa do consumidor final, trazê-los para o dia a dia da população, dando uso a esses produtos. No meu restaurante, dou um novo uso a esses alimentos, para que as pessoas possam consumi-los de maneira diferente das que já estão acostumadas. É preciso ampliar isso. O licuri, por exemplo, poderia estar nas barrinhas de cereal, em vez da castanha; e em vez do óleo de coco, poderíamos utilizar o óleo de licuri.

A gastronomia é fruto da forma como cada um age no seu dia a dia, da forma como economiza água, como respeita o ecossistema como um todo. Hoje, as pessoas estão mais preocupadas com a alimentação, em saber de onde vêm os produtos que consomem, se são orgânicos ou não, se fazem bem para a saúde. É preciso fazer com que esses alimentos orgânicos, cultivados sem o veneno dos agrotóxicos, sejam mais acessíveis, mais baratos.

Para isso, nós vamos precisar cada vez mais incentivar e diversificar a produção, para que a gente não dependa apenas de um ou dois fornecedores. A mesma coisa vale para os produtos nativos em extinção. Já existem projetos espalhados pela Bahia de fomento a essas culturas, mas o grande X da questão hoje é a falta de chuva. Há projetos que captam água no período chuvoso, para que possa ser utilizada depois no plantio durante o período de seca. É uma das soluções. É preciso incentivar o plantio, a produção, e criar novos produtos para o consumidor final.

Fabrício Lemos é chef de cozinha. Foi entrevistado em reportagens de gastronomia da Muito, a mais recente delas na edição #443, veiculada em 8/1/2017

> FEMINISMOS – Lívia Vaz

 

Ao falar sobre desigualdade de gênero e violência contra a mulher, é imprescindível a conjugação das questões de gênero e raça, intersecionalidades que evidenciam as vulnerabilidades sobrepostas a que estão submetidas as mulheres negras na sociedade brasileira. Dados estatísticos demonstram que somos as maiores vítimas de violência doméstica, sexual e obstétrica; de mortalidade materna; de feminicídio.

Estamos na base da pirâmide social, recebendo salários inferiores, mesmo quando ocupamos os mesmos cargos que mulheres brancas e homens; somos sub-representadas em todos os espaços de poder. Nesse contexto, não tenho dúvidas de que as mulheres negras – com suas históricas lutas pela liberdade e igualdade, desde os tempos do sistema colonial escravocrata – representam a força motriz na verdadeira busca por justiça social e equidade em direitos.

É a partir de nós, base dessa pirâmide, que essa estrutura fundada no patriarcado e no racismo deverá ser abalada, subvertida, equalizada. Desse modo, quem sabe daqui a dez anos nossa presença nos espaços de poder – e o sistema de justiça é um deles – deixe de ser uma exceção, embora pedagógica, para se tornar natural.

Nós, rainhas da diáspora negra, que, a despeito de tudo e de todos, seguimos traduzindo o atlântico negro, dialogando insubmissamente, construindo coletivamente. Somos expressão da resistência herdada da nossa ancestralidade. Conjugamos e vivemos com voracidade o verbo resistir. Do latim resistere, é o mesmo que oferecer resistência, negar-se, recusar-se, não sucumbir. Atitude própria de quem, muito embora aviltada, subsiste com altivez, insubordina-se à opressão.

Nossos passos vêm de longe, confluência de energias ancestrais. Somos encarnadas as Anastácias que jamais poderão ser caladas. Mordaças não são capazes de emudecer nossos prantos, nossas vozes, nossos cantos, que ecoam ensurdecedores; fluidos como as águas que seguem insubmissas seus caminhos, contornando pedras e outros desafios; revoltosos como o vento, força invisível e arrebatadora que atiça o fogo, mantendo acesa a chama. Pelas Candaces de ontem, de hoje e de sempre, seguiremos guerreando; nem um passo atrás na construção da verdadeira igualdade e da justiça para todas.

Lívia Vaz é promotora de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia. Foi entrevistada na edição #422 da Muito, publicada em 31/7/2016

> IDENTIDADES DE GÊNERO – Millena Passos

Ser mulher no Brasil não é fácil. Quando você é uma mulher que não preenche os padrões impostos pela sociedade – magra, alta e branca –, você é alvo de discriminação. Hoje o Brasil é o país que mais tem assassinatos de LGBTT entre as nações que reconhecem essas violências no mundo. Batemos recordes mundiais, o que é uma vergonha.

Para mim, hoje a grande questão que envolve as diferentes identidades de gênero é o preconceito e o estigma, principalmente o machismo, a transfobia e a lesbofobia. Imagine ser uma mulher trans nascida na periferia, gorda, negra, fora dos padrões. Os estigmas são vários. Ainda vivemos em uma sociedade extremamente desigual em relação aos gêneros. Muitas pessoas, por exemplo, usam a religião para fomentar o sexismo, a lesbofobia, a homofobia, a transfobia, a LGBTfobia, o racismo.

Eu sou a única mulher trans que trabalha em uma Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) no Brasil, por exemplo. E, hoje, sou a única mulher trans ocupando um espaço no governo da Bahia. Na próxima década, eu gostaria de ver uma sociedade com direitos iguais, independentemente de cor, raça, religião ou gênero. Quero que as pessoas nos vejam como seres humanos.

Agora, consigo enxergar alguns avanços nessa área, como a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de reconhecer o nome civil das pessoas transexuais. Mas o meu sonho é que consigamos estar em todas as esferas da sociedade e sejamos inseridos no mercado de trabalho e nos espaços de poder, principalmente mulheres como eu, negras, trans e periféricas.

Millena Passos é assessora técnica na Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo da Bahia. Foi entrevistada na edição #402 da Muito, publicada em 13/03/2016

> DROGAS- Antonio Nery

O maior problema enfrentado atualmente pelo Brasil, na minha opinião, é a extrema violência relacionada com o tráfico de drogas pelo domínio territorial. O tráfico só tem uma lei: a morte. Não há nenhuma outra possibilidade de regulação territorial no que diz respeito ao tráfico. O país está inteiramente destituído de recursos para enfrentar as organizações criminosas que lutam pelo domínio territorial e, portanto, exercem uma extrema violência social.

Quanto à solução na próxima década, não sou tão otimista. Não creio que o problema das drogas seja resolvido na próxima década nem nas décadas seguintes. De qualquer sorte, o que eu gostaria de ver nos próximos dez anos seria o Brasil ter uma lei mais humana, menos preconceituosa, menos racista, voltada para os mais vulnerados. Ao lado disso, uma saúde que visse reforçado o papel do SUS através dos Programas de Saúde da Família e da criação e ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas.

Além disso, no campo da assistência social, seria indispensável todo um programa de organização territorial com abrigamentos, com trabalho, escolaridade, mas sobretudo com um olhar humano mais adequado para as pessoas em situação de rua, que cuide delas de um modo mais eficaz.

Antonio Nery é médico e fundador do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, da Ufba.  Foi entrevistado na edição #131 da Muito, publicada em 3/10/2010

> URBANISMO- Ana Fernandes

O urbanismo dialoga diretamente com a produção, a fruição, a criação, a sociabilidade e a política da cidade. Nessa complexidade de dimensões envolvidas, as questões e desafios são múltiplos.

Salvador é superlativa em tudo o que traz de beleza e de potência de seus moradores e cidadãos. Mas sua ordem hoje está ancorada em ataque cerrado (ou desprezo) àquilo que historicamente se constituiu como o cerne da própria cidade: os espaços públicos, os bens de uso comum.  Em nome de eficiência e pretenso desenvolvimento, cortam-se morros, cobrem-se rios, destroem-se dunas e manguezais, avança-se sobre o mar, invade-se a paisagem, subordina-se o patrimônio, privatizam-se espaços verdes e praças, entregam-se bens públicos para comporem equações discutíveis de discutíveis parcerias público-privadas, expulsam-se moradores.   Com a cidade negociada em bolsas de valores e de patrocínios, sua parte luminosa e turística concentra especulação e investimentos, antiurbanos em si  em grande parte. Restam, a seu lado, problemas cruéis que atingem o coletivo e as dimensões mais cotidianas e rotineiras da complexa engrenagem produtora de espaço urbano: rios altamente poluídos, saneamento deficitário, habitação precária, transporte público (quase) selvagem, paradas de ônibus constrangedoras, tráfego ameaçador, privilégio do transporte individual (em algumas sinaleiras o tempo de espera para a travessia do pedestre pode chegar a 15 minutos!), espaços públicos esvaziados, desprezados ou inexistentes, preconceito, intolerância e violência em expansão.

É urgente garantir o direito à cidade e construir justiça espacial. É urgente ampliar e democratizar o modo de fazer política pública, com controle social ampliado das decisões e das alocações de recursos, com controle social ampliado das políticas em ação e dos movimentos e acordos tácitos, abrindo-se possibilidades de tornar mais complexas, porosas e delicadas as opções técnicas e estéticas. Assim, aposta-se eticamente na inteligência coletiva, revigora-se o sentido da esfera pública e do espaço público e comum, ampliam-se as alternativas de desenvolvimento e diversidade, reacendem-se as perspectivas de sociabilidade, de criação e de solidariedade. Retomar e expandir a liberdade da cidade é o grande desafio.

Ana Fernandes é professora titular da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Foi entrevistada na edição #190 da Muito, publicada em 20/11/2011

> POLÍTICA – Wilson Gomes 

A atividade política existe porque as pessoas precisam encontrar modos coletivos de resolver os problemas que as afligem enquanto membros de uma comunidade política. Esses problemas podem ser das mais variadas naturezas, mas desde que se perceba que nos implicam enquanto cidadãos, enquanto partes de uma coletividade vinculada pela lei e pelo contrato social, esperamos que a política os considere, enfrente e resolva.  Se estivéssemos em uma cidade ou país sem graves problemas sociais, a política deveria estar se ocupando de questões como melhorar ainda mais a qualidade de vida das pessoas, como produzir cidades mais sustentáveis, mais inteligentes, mais amigáveis, como encontrar soluções para a produção de energia limpa ou, enfim, como reduzir o aquecimento global.

Mas como ainda temos problemas relacionados a todas as variáveis incluídas nos Índices de Desenvolvimento Humano, a política tem que dar conta de uma sobrecarga de demandas que já estão basicamente atendidas em outras partes do mundo. A pobreza, a violência urbana, a desigualdade social, a opressão estrutural e sistemática de minorias políticas, a incapacidade de a nossa cidade produzir riqueza e de criar um ambiente estimulante para os negócios privados, o déficit educacional, etc., são todas demandas arcaicas e atávicas em busca de uma solução política que nunca vem. Como quebrar o feitiço, a mágica que nos ata politicamente a problemas que os países que admiramos há muito superaram ou estão em vias de superar? Não sei. Meu sonho, como o de todo mundo, passa por melhores elites políticas, por um eleitorado que seja capaz de selecionar representantes de forma muito melhor do que vem fazendo e, naturalmente, por melhores políticas públicas – mais inclusivas, com maior participação da comunidade e mais inteligentes.

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