terça-feira, agosto 9, 2022
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Número de brasileiros com fome dispara e atinge 33,1 milhões, diz pesquisa

O número de pessoas em insegurança alimentar grave no Brasil —ou seja, passando fome— quase duplicou em menos de dois anos. Segundo a pesquisa Vigisan (Inquérito Nacional Sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia Covid-19 no Brasil), divulgada hoje (8), 33,1 milhões de brasileiros se encontram nessa situação (15,5% da população).

O levantamento foi realizado pela Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), que envolve seis entidades parceiras. Em 2020, quando foi realizada a primeira pesquisa deste tipo, eram 19 milhões de pessoas com fome no Brasil (9,1% da população).

Existem pesquisas feitas com a mesma metodologia a partir de 2004, mas pelo IBGE —que desde 2018 não realizou mais o levantamento— o que impossibilita a comparação.

O novo inquérito foi conduzido pelo instituto Vox Populi entre novembro de 2021 e abril de 2022, com visita a 12.745 domicílios de 577 municípios nos 26 estados e no Distrito Federal.

Situação piora

Segundo a pesquisa, mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com insegurança alimentar em algum grau, o que significa 125,2 milhões de brasileiros. São famílias que estão preocupadas com a possibilidade de não ter alimento no futuro ou já passam fome.

O Ministério da Cidadania foi procurado pela reportagem para comentar os números, mas ainda não respondeu.

O problema da fome aparece mais no campo, onde 60% dos domicílios relataram algum tipo de dificuldade —18,6% com insegurança alimentar grave.

  • 65% dos domicílios comandados por pessoas pretas e pardas convivem com restrição de alimentos em qualquer nível.
  • 63% dos lares com responsáveis mulheres apresentaram algum patamar de insegurança alimentar.

Um dos itens novos nesta edição da pesquisa foi a análise da relação entre insegurança hídrica e alimentar. Das casas com dificuldades no abastecimento de água, 42% responderam que passam por situação de fome.

Proporcionalmente, a preocupação com o acesso a alimentos atinge maiores parcelas da população no Norte (71,6%) e no Nordeste (68%).

Em números absolutos, o Nordeste registra mais pessoas com fome: são 12 milhões em situação de insegurança alimentar grave.

“Betinho estaria horrorizado, se estivesse vivo, ao ver que voltamos a uma estaca menor que zero, nós pioramos”, diz Rodrigo Afonso, diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania, citando o sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert José de Sousa, o Betinho, que criou projeto contra a fome, a miséria e pela vida em 1993.

Na época, diz Afonso, eram 32 milhões de brasileiros em risco de fome —a metodologia do cálculo, porém, era diferente. Segundo ele, a situação atual do Brasil não pode ser explicada apenas pela pandemia, já que os dados mostram que a fome vinha crescendo antes disso.

“A situação hoje é muito grave, trágica. Isso não vem com covid ou com a Guerra da Ucrânia. Na verdade, a gente está alertando desde pelo menos 2016.”

Kiko Afonso, Ação de Cidadania

O nível de segurança alimentar é dividido em quatro graus:

Segurança alimentar: alcança hoje 41,3% dos brasileiros. É quando a família tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.

Insegurança alimentar leve: atinge 28% dos brasileiros. É quando a família tem preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos no futuro, com qualidade inadequada resultante de estratégias que visam não comprometer a quantidade de alimentos.

Insegurança alimentar moderada: atinge 15,2% dos brasileiros. É quando há redução quantitativa de alimentos entre os adultos e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos.

Insegurança alimentar grave: atinge 15,5% dos brasileiros. É quando há redução quantitativa de alimentos entre as crianças e/ou ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos.

A pesquisa utiliza como parâmetro a EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar), também usada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Horrorizados”

A pesquisadora Ana Maria Segall, que participou do inquérito, pondera que não é possível cravar que estamos piores que em 1993, já que a metodologia usada à época era mais restritiva e falava sobre risco de fome —não da fome em si, como hoje. “O que podemos dizer com certeza é que está pior que em 2004, quando as pesquisas começaram a ser feitas com essa metodologia”, diz.

Segundo ela, desde 2018 já era possível perceber aumento nos patamares da pobreza extrema e fome.

Para Segall, apesar de os pesquisadores esperarem um resultado pior do que o de 2020, todos ficaram “horrorizados” com o resultado de 33,1 milhões de pessoas com fome. “Isso nos dá um sentimento de muita indignação. E o que mais chama atenção é a velocidade da fome, considerando o intervalo entre um levantamento e outro.”

Ela afirma que um dos detalhes que chama a atenção é que o percentual de famílias em insegurança alimentar leve caiu de classe social nesse período de pandemia. “E com essa queda vêm as complicações disso: o endividamento, a fome. Vivemos um grande empobrecimento da população.”

Para a pesquisadora, a parte mais dolorosa da pesquisa foi ver como a fome atinge mais as casas onde há três ou mais pessoas abaixo de 18 anos —em um em cada quatro desses domicílios (25%), há fome.

“Quanto menor a faixa etária da fome, mais repercussões ela vai causar, e prejuízos a longo prazo. Estamos falando de crianças que vão levar essas sequelas para o resto da vida.”

Ana Maria Segall, pesquisadora

A pesquisa também aponta que as pessoas estão buscando alternativas fora do convencional para tentar se alimentar.

Entre os que têm fome, 15,9 milhões citaram que tiveram de adotar estratégias consideradas inaceitáveis ou vergonhosas para adquirir comida. “São aquelas imagens que vemos em reportagens: pessoas atrás de caminhão de osso, buscando alimentos nos lixões…”, lembra Segall.

Por outro lado, de acordo com o estudo, fatores como salário e educação tiram as famílias da fome:

  • Em 67% dos lares com renda superior a um salário mínimo por pessoa, o acesso a alimentos é “pleno e garantido”.
  • Entre as casas em que o chefe da família trabalha com carteira assinada, 53,8% relataram segurança alimentar.
  • E 50,6% dos domicílios cujos responsáveis têm mais de oito anos de estudos estão na mesma situação.

Desmonte de políticas públicas

Kiko Afonso, da Ação da Cidadania, diz que houve uma mudança de foco na política de alimentos no país no governo Jair Bolsonaro (PL), que afetou a produção de alimentos, e regulação de estoques públicos.

“Houve uma ação para privilegiar o agronegócio exportador em detrimento da agricultura familiar. Todas as políticas públicas foram melhores para o agronegócio, com menos apoio e redução na produção dos alimentos. Só o feijão, nos últimos anos, perdeu 70% de sua área”, avalia.

Além disso, ele cita o desmantelamento de políticas como o PAA (Programa de Agricultura Familiar) e do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) como responsáveis pela alta.

“A gente deixou de subsidiar a agricultura familiar. Essa visão tem sido adotada por todos os órgãos. A pesquisa mostra que o país deixou de olhar para segurança alimentar das pessoas.”

Na última segunda-feira (6), o UOL mostrou que governo federal destruiu e praticamente zerou o orçamento do principal programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar, o Alimenta Brasil —ação voltada para a compra da produção agrícola de famílias e doação a pessoas em situação de insegurança alimentar.

Para o economista Francisco Menezes, que é analista de políticas da ActionAid e ex-presidente do Consea (Conselho Nacional Segurança Alimentar e Nutricional, órgão extinto em 2019 por Bolsonaro), a fome no país chegou a níveis inaceitáveis.

“Em 2020 já eram números grandes, ruins. Mas agora eles são assustadores. O que nós vemos é um quadro de desigualdade que impera no país, seja de raça, cor, gênero ou regional.”

Ele cita ainda as políticas para proteção social que foram desmontadas ou remodeladas, de acordo com ele, “de forma equivocada”.

“O governo acabou o Bolsa Família e criou o Auxílio Brasil, que tem muitos problemas: ele é confuso, difícil de entender porque mistura vários programas separados, o que o torna muitas vezes inacessível.”

Segundo revelou a coluna, somente em março o governo deixou de pagar o Auxílio Brasil a 2 milhões de famílias em extrema pobreza (ou seja, com renda per capita de até R$ 105).

“E existe um outro aspecto gravíssimo: o governo criou um programa para que pessoas em extrema pobreza que estejam fora [do Auxílio Brasil] entrem em um aplicativo para ingressarem. Isso é um paradoxo”, completa.

Fizeram parte da pesquisa as entidades:

  • Ação da Cidadania
  • Actionaid
  • Friedrich Ebert Stiftung Brasil
  • Ibirapitanga Oxfam Brasil
  • Sesc
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