terça-feira, novembro 29, 2022
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Borba Gato não caiu e o Brasil continua sem estátuas representativas de pessoas negras

Heróis e heroínas negras ainda começam a ser conhecidos pela população e estão bem longe de serem representados como devem

Ateei fogo no Borba Gato! Há um ano quando a estátua do bandeirante ardeu em chamas todos os negros com consciência racial acenderam um fósforo mental para corroborar com a queda da imagem de 13 metros de uma figura até então vista como herói, mas que matou nossos antepassados. Muitos de nós, como eu, não esteve na região de Santo Amaro, na capital paulista, nem planejou a ação, mas viu o movimento como parte de uma reparação histórica que ocorreu no mundo todo.

Na cidade de São Paulo, que até 2020 tinha 366 monumentos dos quais só sete homenageavam pessoas negras, sendo a maior parte retratada de forma subalternizada, a Secretaria Municipal de Cultura resolveu construir cinco novas estátuas de pessoas negras importantes: Geraldo Filmes, Madrinha Eunice, Itamar Assumpção, Carolina Maria de Jesus e Ademar da Guia. A maior parte delas já faz parte da paisagem urbana da cidade, mas um detalhe importante: as estátuas são minúsculas, medem 1,67 metro, não tem uma base para tornarem-nas maiores e nem mesmo carregam placas explicando quem são aquelas figuras de bronze que surgiram nas vias públicas. Os descendentes de Madrinha Eunice providenciaram uma placa por conta própria e instalaram nesta semana ao lado da estátua da fundadora da primeira escola de samba paulistana, a Lavapés.

Prefeitura de São Paulo, você jura que essa é a homenagem que pessoas negras merecem ou foi apenas uma esmola para continuarmos subrepresentados na paisagem urbana? Se a cidade com o maior capital econômico do Brasil e também com a maior população negra (cerca de 4 milhões ou 32% dos seus 12 milhões de habitantes) não tem estátuas representativas de pessoas pretas ou pardas o que dirá das demais? Rio de Janeiro, Recife e Salvador, por exemplo, possuem estátuas de Zumbi, mas todas pequenas. Não há um monumento grande, uma praça bastante conhecida, uma referência arquitetônica sobre pessoas negras em nenhuma cidade brasileira que realmente seja grandioso e atraia turistas para tirar fotos com elas.

No Senegal, o monumento da renascença africana faz esse papel e rende imagens lindas nas redes sociais. Na África do Sul, só o ex-presidente Nelson Mandela tem 15 monumentos espalhados pelo país. Algumas estátuas são gigantes e levam turistas a viajarem só para tirar foto com elas (eu fiz isso). Adoraria que a Praça (Franklin) Rooseveelt, em São Paulo, chamasse (Nelson) Mandela.

Mas por aqui, heróis e heroínas negras ainda começam a ser conhecidos pela população e estão bem longe de serem representados como devem. Salvador, por exemplo, tem várias homenagens à família Magalhães (aeroporto, avenida, bairro, centro de convenções), mas só um pequeno busto para Luiz Gama, o maior abolicionista brasileiro, nascido na capital baiana. Quando estive num evento no Centro de Convenções renomeei informalmente o espaço que ganhava o nome do avô do então prefeito, Antônio Carlos Magalhães Neto, para Luiz Gama. Adoraria ver essa mudança de denominação ocorrendo de fato.

No Recife, para chegar à pequena estátua de Zumbi é preciso passar pelo Parque 13 de Maio e pela Avenida Princesa Isabel. O movimento negro sabe bem o quanto a data da abolição e a responsável pela assinatura da Lei Áurea, não representam nossas lutas e nem garantiram a real liberdade das pessoas pretas. Enquanto isso, um dos principais líderes do período da escravização continua tendo posta a prova o quanto sua luta foi importante para garantir a liberdade a milhares de pessoas nos idos de 1600 e não tem sequer uma estátua representativa.

Essa, portanto, é uma batalha que ainda estamos longe de vencer. Além de raras representações de pessoas negras nas cidades, as homenagens a escravocratas, líderes da ditadura militar, bandeirantes e afins continuam em nossas cidades. O Projeto de Lei 404/2020 que a deputada Erica Malunguinho (PSOL/SP) propôs e teve abaixo-assinado do Guia Negro segue preso nas etapas burocráticas da Assembleia Legislativa de São Paulo, sem previsão de votação em plenário e muito menos esperança de aprovação.

Enquanto tivermos representantes que não nos representam (na cor e na atitude) e não avançarmos na mudança da narrativa histórica brasileira, bandeirantes e escravocratas seguirão impunes e homenageados. As perguntas que ficam são: até quando nomes, imagens e estátuas de Borba Gatos e afins continuarão a povoar nossas cidades? E quando pessoas negras terão praças, ruas e monumentos que as homenageiem na grandiosidade do que representam para a nossa sociedade?

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