sábado, junho 25, 2022
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“O Enem não pode adiar?”: O MEC dá nota 1000 para as injustiças sociais

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) é uma espécie de vestibular produzido pelo Ministério da Educação. A prova tem como objetivo medir o conhecimento das/dos estudantes do Brasil inteiro para que eles tenham a oportunidade de ingressar nas universidades públicas e o pleito de bolsas nas faculdades particulares através do Prouni.

A chegada e o avanço do coronavírus no Brasil e as medidas de isolamento social ocasionaram a suspensão das aulas em todas as escolas públicas e particulares, deixando milhares de educandas e educandos sem acesso ao espaço físico das instituições. O não acesso ao espaço físico de aulas não impede que as escolas particulares, instituições privilegiadas, continuem com suas atividades pedagógicas por meio das plataformas online, principalmente, com um enfoque maior para as turmas de ensino médio que prestarão o ENEM em novembro de 2020. Logo, as escolas públicas seguem sem aulas sob qualquer instância. As/os estudantes seguem no prejuízo em relação aos prazos das provas. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, mantém as datas das provas não considerando as disparidades extremamente cruéis quando consideramos duas realidades: escolas particulares x escolas públicas. Ele afirma em reunião com o senado que: “O ENEM não foi feito para corrigir injustiças”.

Realmente, a prova por si só, como instrumento de avaliação, muitas vezes desproporcional aos contextos sociais, não tem o efeito de corrigir injustiças. Mas, a Educação sim! Como bem diz Paulo Freire, grande educador brasileiro, o ato de educar se instrumentaliza através da prática da liberdade e nunca deve se distanciar dos que estão oprimidos. Educação é a chave para o combate às injustiças sócio-raciais.

A realidade das escolas públicas, majoritariamente, é de estudantes negras e negros, pobres, periféricos que, muitas vezes, frequentam a escola para garantir alguma alimentação por dia com a merenda escolar. É uma realidade muito cruel, pois o foco educacional fica em segundo plano. Muitos desses jovens não têm acesso à internet, computador e celular, o que dificulta, ainda mais, a possibilidade de estudos por conta própria (online) – o que não deveria ser a regra nesse momento, pois exclui a responsabilidade do Estado como principal responsável de conduzir processo educacional no Brasil.

O MEC, no dia 04 de maio, publicou um vídeo campanha sobre o exame com o título: “Enem 2020: O Brasil não pode parar”. Através desse slogan mecanicista podemos observar o reforço à meritocracia: “se você estudar o suficiente, você consegue!”

Não. Não é bem assim. As injustiças sociais nas quais o ministro diz que o ENEM não veio para corrigir, elas existem e se tornam cada vez mais latente quando nos referimos ao acesso nos espaços de poder. Sim, educação é poder! Universidade é poder! E o governo trabalha para que os jovens pobres, negros, periféricos, das zonas rurais, intencionalmente, não adentrem esses espaços estruturados pelos que lutam a favor da exclusão. As falas e atitudes do ministro da Educação só reafirmam o pensamento do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”

Portanto, enquanto mulher negra, ex estudante de escola pública, por mais oportunidades sem distinção de raça, classe, regionalidade, eu estou na campanha: #AdiaENEM!

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
<https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/05/em-reuniao-com-senadores-weintraub-diz-que-enem-nao-foi-feito-para-corrigir-injusticas.shtml> Acesso em 06 de maio de 2020.
<https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/estudantes-criticam-video-do-inep-sobre-enem-que-diz-que-vida-nao-pode-parar-24410158 > Acesso em 06 de maio de 2020.

 

 

 

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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