O mimimi do blogueiro da Veja sobre “Moonlight” é o incômodo de ver negros no poder. Por Sacramento

O blogueiro da Veja Felipe Moura Brasil ficou indócil com os resultados do Oscar 2017. Para ele, “Moonlight” não mereceu o prêmio de melhor filme, assim como a atuação curta e nada histriônica de Mahershala Ali não foi suficiente para dar ao ator o prêmio de melhor coadjuvante.

Por Marcos Sacramento, do DCM 

Na opinião de Moura Brasil, o filme só ganhou porque a temática agradou aos valores políticos do júri da Academia. “Vi ‘Moonlight’. Filme sobre negro gay maconheiro que sofria bullying não tinha como não levar Oscar, prêmio de melhor filme para a esquerda”, escreveu no Twitter.

Insatisfeito, apontou sua ira direitista e conservadora para o Oscar do ator Mahershala Ali com o seguinte post:

“Mahershala Ali é ator muito competente mas é constrangedor que tenha ganho Oscar por atuação de 30 minutos em papel que tão pouco lhe exige”.

Talvez o blogueiro quisesse uma atuação barulhenta, cheia de gritos no melhor estilo das pornochanchadas brasileiras, mas o tweet seguinte revela que a atuação de Ali foi o que menos o incomodou:

“Difícil crer que não pesou para o Oscar de Mahershala Ali o fato de ser negro muçulmano em tempo de histeria anti-Trump em Hollywood.”

Difícil mesmo é crer que Moura Brasil faria esta sequência de tweets se “Moonlight” contasse a história de um pobre menino gay branco, residente em uma periferia branca, que sofresse bullying de outros meninos brancos e fosse acolhido por um traficante de drogas branco.

O filme funcionaria com a mesma intensidade fossem os personagens japoneses, suecos ou turcomenos em um bairro empobrecido e etnicamente homogêneo no Japão, na Suécia ou no Turcomenistão.

Mas como “Moonlight” foi dirigido e é estrelado por negros, foi alvo da insinuação de que ganhou os prêmios mais pelo quesito correção política do que pelas qualidades artísticas.

Se a lógica do blogueiro estivesse certa, o prêmio de melhor ator seria para Denzel Washington em vez de Casey Affleck, contra o qual, inclusive, pesa uma acusação de assédio sexual.

Outra premiação sob medida para agradar “à militância” seria a da irlandesa-etíope Ruth Negga como melhor atriz, mas quem levou a estatueta foi a branca Emma Stone.

O mimimi do blogueiro da Veja não teria importância se fosse apenas picuinha de gente mal amada ou polêmica para ganhar cliques. Porém ela revela como que até nos momentos de glória os negros ficam em desvantagem em relação aos brancos.

Fosse o vencedor do Oscar de ator coadjuvante um W.A.S.P (sigla em inglês para branco, anglo-saxão e protestante), ninguém diria que foi premiado para agradar aos parâmetros ideológicos do júri.

Quando se é negro a história é outra. Sempre surge alguém para insinuar que a pessoa está naquela condição privilegiada devido à benevolência de terceiros.

Às vezes até os defeitos são relacionados à cor da pele, como Ricardo Noblat insinuou ao comentar um embate entre os ministros do STF Ricardo Lewandowski e Joaquim Barbosa.

No artigo “Joaquim Barbosa: Fora do eixo”, Noblat sugeriu que ferocidade do então presidente do STF fosse consequência da sua baixa autoestima pelo fato de ser negro.

“Para entender melhor Joaquim acrescente-se a cor – sua cor. Há negros que padecem do complexo de inferioridade. Outros assumem uma postura radicalmente oposta para enfrentar a discriminação. Joaquim é assim se lhe parece. Sua promoção a ministro do STF em nada serviu para suavizar-lhe a soberba. Pelo contrário”, escreveu o jornalista.

Noblat e Felipe Moura Brasil sintetizam o pensamento de muita gente, para quem todo negro com talento foi ajudado e negro arrogante no fundo não passa de um pobre coitado.

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