O que as ocupações das escolas públicas podem nos ensinar sobre educação/escolarização?

Nem só de rusgas políticas, acordos e desacordos, ódios, golpes e bizarrices institucionais tem (sobre)vivido o país nos últimos meses. Num momento onde nunca se discutiu tanto sobre política em todas as esferas da vida, a politização de aluno/as e professore/as das escolas públicas em algumas regiões do Brasil não têm merecido o mesmo destaque e repercussão, sobretudo na grande mídia, e é por isso que precisamos escrevivê-la. Pode-se afirmar que embora as regiões sejam diversas, refiro-me em específico aos movimentos de ocupação das escolas em São Paulo, Rio de Janeiro e mais recentemente em Fortaleza, os motivos para a intensa empatia para com esses movimentos por parte de aluno/as, professore/as e parte da sociedade civil, convergem em muitos pontos: descaso com as escolas em suas estruturas físicas e propostas educacionais, professore/as que a cada dia perdem um pouco de sua autonomia e direitos no exercício da profissão, corrupção nas verbas destinadas à educação de uma maneira geral, dentre outras reinvindicações. No entanto, o que tem chamado à atenção, embora todos os outros pontos que elenquei de uma maneira ou de outra permeiem os processos de escolarização em seus avanços e recuos, é talvez o modelo de escola que vêm passando por uma intensa crise.

Por Idalina Maria Almeida de Freitas – Docente do curso de História – UFRN-Caicó via Guest Post para o Portal Geledés

Se pararmos para pensar em todas as propostas experimentadas nas ocupações que envolvem o gerir os espaços das escolas tais como: aulas públicas, eventos, oficinas de leitura e arte, alimentação coletiva, dentre outras, o envolvimento visceral deste/as com outras possibilidades de vivenciar/criar de forma educacional o contexto escolar pode nos levar a pensar numa revolução na escola pública?

Roberto Parizotti/Secom CUT

 

Sem dúvida essas novas formas de ocupação do espaço escolar, pensadas e apropriadas a partir dos próprios estudante/as, além de transpor as ações do estado, que se contrapõem a esse processo, também nos traz a oportunidade de aprender e praticar o que bell hooks chama de “transgressão”, educar para transgredir ou a educação como prática de liberdade, ou seja, transgredir as fronteiras que fecham cada aluno numa abordagem do aprendizado como uma rotina de linha de produção. Obviamente muitos professore/as estão envolvidos de maneira direta nesse processo, confirmando o que algumas pensadoras feministas citadas por hooks em seu texto, as lacanianas Jane Gallop e Shoshana Felman, dizem sobre a presença do professor/a em sala de aula, suas responsabilidades em relação ao desenvolvimento dos aluno/as, não somente no efeito mental e intelectual, mas na maneira como esse aluno/a percebe a sua realidade. Esses ensinamentos e práticas sem dúvida percorrem os ditos espaços formais e informais de educação, e nestes casos resignificam a escola.

Outra reflexão importante que permite ser entendida a partir desses movimentos encontra-se em Henri Giroux, a noção de uma pedagogia crítica, aquela que vê as escolas enquanto esferas públicas e democráticas, comprometidas em educar os aluno/as nas linguagens da verdadeira democracia. São propostas educacionais transformadoras que devem envolver e trabalhar muitas vezes fora dos contornos limitantes das disciplinas, assegurando aos estudantes um papel ativo nos contextos de formação de suas próprias práticas sociais. Aliados também do movimento são as pautas discutidas, na contramão do recrudescimento da sociedade e de muito representantes do poder público em relação às discussões de cunho feministas, raciais e classistas, os movimentos de ocupação têm posto em prática outros olhares sobre esses temas, não somente na promoção de rodas de conversas temáticas, mas na própria estrutura do movimento que conta com uma diversidade nas comissões de trabalho, portanto não somente atualizam de maneira teórico-metodológica e até superficial as intersecções de tais temas, eles e elas realmente os vivenciam enquanto pensamento e ação.

O movimento de ocupação das escolas têm talvez promovido por meio de uma luta extremamente bem organizada em suas reivindicações, aprendizados e discussões a cerca do papel dos pais, professores universitários e da educação básica, ativistas, pesquisadores, em relação a uma proposta de educação verdadeiramente transformadora, no momento em que agrega esses profissionais nas dependências da escola numa outra perspectiva, por meio de atividades e trocas de experiências, visando a obtenção de velhas reivindicações, mas legitimamente empenhado/as na construção de algo novo.

 

 

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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