Guest Post »

Os Incels e a romantização do homem tóxico na cultura pop

Resolvi finalmente assistir à série Bates Motel, que narra os eventos acontecidos na vida de Norman Bates, o assassino de Psicose, antes de ele virar um psicopata. A série é ambientada nos dias atuais, mas busca elucidar fatos que poderiam ter levado Bates a se tornar um dos mais icônicos personagens dos filmes de Hitchcock.

Por 

Foi justamente assistindo à interação de Bates com as mulheres da série que um alarme soou na minha cabeça e eu comecei a me sentir extremamente irritada com a narrativa, ainda que esteja gostando muito da produção em si: Norman é um psicopata e já sabemos disso, mas na série, ele ainda é apenas um garoto idiota, mimado, com um baita complexo de Édipo e que tem crises TODA vez que é contrariado. Ou seja, um tipo de garoto facilmente encontrado em diversos ambientes e que dificilmente se daria bem na vida real.

Norman Bates e Bradley (cena da série)

Até aí, nada de novo, tanto quanto não é novo o fato de todas as garotas e mulheres interessantes da série se sentirem loucamente atraídas por ele em algum momento de suas vidas. Começando com Bradley, a garota padrão, loira, linda, rica, magra e popular na escola que já na primeira aparição de Norman, se mostra muito interessada nele. Se a história fosse narrada sob a perspectiva de Norman, como acontece na série You, entenderíamos que sua noção da realidade é afetada, no entanto, não é o caso aqui.

E por que isso é algo necessariamente ruim? Bom, o argumento de integrantes de movimentos como o dosIncels (Involuntary celibates = celibatários involuntários) para matar mulheres é justamente o fato de eles acreditarem que têm direito a ter relações sexuais com mulheres que os rejeitam. Entre o perfil mais comum desses integrantes, está o do nerd tóxico, ou seja, homens completamente desinteressantes, viciados em games ou quadrinhos, que insultam, perseguem e ameaçam mulheres nerds e que acreditam que mereçam mais do que recebem delas (Friendzone que eles chamam, né?).

Esse mesmo perfil de homens que odeiam as mulheres é explorado no livro sobre a vida de Degas, famoso pintor das bailarinas em posições de exercício, que mostra que o fato de uma mulher ser usada como musa de algum artista, não significa que esse artista seja um herói ou um gênio de pensamento elevado, nem que ser musa é um status que privilegie a mulher de alguma forma.

Obviamente, não é possível culpar exclusivamente a cultura pop pela ascensão desses grupos, pois a misoginia, uma das expressões mais terríveis do machismo, é um sintoma também estrutural e cultural. No entanto, se todas as representações às quais somos expostos desde muito pequenos reforçam a ideia de que mulheres incríveis sempre se apaixonam por homens débeis, homens medíocres, feras, corcundas, homens-peixe e afins, sempre sob o argumento de que mulheres maravilhosas são aquelas que enxergam além das aparências, quando o inverso raramente ocorre ou é motivo de chacota para os homens, bom, é meio óbvio que iremos internalizar essa mensagem em maior ou menor grau.

 

Howard – The Big Bang Theory (cena da série)

Se engana muito quem acredita que obras ficcionais não influenciam nossas tomadas de decisão na vida real. Uma busca rápida em sites de busca acadêmicos traz diversos resultados de pesquisas em Sociologia, Psicologia, Comunicação… que indicam o quanto a ficção nos ajuda a interpretar a realidade, lidar com problemas, reforçar estereótipos e mitos ou pode ajudar na construção e melhora da autoestima por meio da representação da diversidade.

Um estudo recente publicado na revista científica de Psicologia da Universidade de Surrey, Inglaterra, demonstra como piadas sexistas veiculadas em revistas masculinas influenciam seus leitores a acreditarem que comportamentos machistas são ok. Entre vários experimentos realizados com centenas de homens de idades variadas, um deles pedia que identificassem quais frases haviam sido proferidas por um estuprador e quais pelas piadas nas revistas. Grande parte dos participantes não acertou metade das frases e entre uma das falas consideradas engraçadas está essa aqui:
” Se a garota que você levou para jantar não abrir as pernas para você, lembre-se que das estatísticas: 85% dos casos de estupro não são noticiados”

Ou seja, a exposição constante e massiva a um tipo de discurso, como observamos em relação às fake news durante o período eleitoral no Brasil, é capaz de moldar comportamentos, como já havíamos apontado sobre um outro estudo que mede o contágio emocional de notícias via redes sociaisAqui no Minas já falamos bastante sobre como certas representações nos são nocivas e de como às mulheres é negada a complexidade de sua personalidade.

Diversos sites também exploram os famosos tropes dos quais estamos exaustas, como o da Manic Pixie Dream Girl – menina linda, descolada, inteligente e divertida que se apaixona pelo cara problemático, a Nasci sexy ontem – garota linda que é extremamente sexy, com enorme apetite sexual e tão ingênua como uma menina de 7 anos que se apaixona pelo protagonista problemático, a estuprada – que é violentada para que o protagonista possa ter justificativa para agir, a morta, a feia que fica linda, a nerd gostosa, e tantas outras que nunca têm o direito de existir se não for para servir de interesse romântico para um cara que, muitas vezes, não é nada além de mediano.

Mesmo assim, para os roteiristas, esses caras merecem ser chamados de “fofos, sensíveis, diferentes, emotivos” pelas garotas mais lindas da história e, mais ainda, merecem transar com elas, como acontece com Norman Bates ao longo da série, afinal, que mulher incrivelmente linda e interessante não morre de vontade de transar com um moleque problemático?

Há uns 20 anos, nós poderíamos acreditar que esses caras são mesmo incríveis, porque não conhecíamos nada diferente. Mas hoje, com acesso a informação, com diálogos entre as mulheres, com índices crescentes de feminicídios causados por homens que não “gostam” de ouvir “não”, já entendemos que homens medíocres não estão escondendo sua personalidade maravilhosa debaixo de uma timidez. Eles são apenas o que são mesmo. E não estou entrando nem no mérito da aparência, porque de fato, aparência não deveria ser critério para que as pessoas se envolvessem, certo? No entanto, as produções de cultura pop insistem em colocar mulheres totalmente dentro do padrão físico imposto ao lado de homens que estão bem longe disso e o problema, como já mencionei, é que o contrário é motivo de piada, nunca de orgulho entre os caras.

Ou seja, a tal da “Friendzone” tão enaltecida na cultura pop, não existe! Afinal, mulheres não devem absolutamente nada a homens que as tratam bem, já que tratar bem um ser humano é um requisito básico para a convivência em sociedade, não é?

Lembro de uma fala que era assim: os nerds destratavam as mulheres porque antigamente eles eram destratados por serem nerds. Como hoje ser nerd é algo positivo, o cara tem que aceitar que se uma mulher não quer nada com ele, não se deve ao fato de ele ser nerd. Ele talvez só seja um babaca mesmo.

Portanto, eu só consigo pensar na quantidade infinita de obras em que os protagonistas estão longe de ser homens com os quais qualquer mulher que eu conheço namoraria, mas eles seguem ao lado de mulheres lindíssimas, inteligentes, descoladas e com metade de suas idades. Fora a quantidade de novelas e livros que romantizam a perseguição e a violência que as mulheres sofrem, as colocando como apaixonadas pelos homens que as perseguem, cerceiam, humilham…

Se ainda há mulheres como a Bela, de a Bela e a Fera, e sabemos que elas existem aos montes, lógico, não significa que grande parte de nós nos sintamos representadas por elas. Há diversos motivos pelos quais mulheres ainda seguem esses padrões desiguais, principalmente em países com maior desigualdade social e discrepância de direitos entre os gêneros. Mas está mais do que na hora de superarmos isso, não é mesmo? Uma das maneiras de superar esse problema é por meio de maior inserção das mulheres na direção e produção de obras e também, por meio do consumo do que produzimos, como indica Neil Gaiman.

Megan Fox em Transformers (cena da sériedo filme )

As produções que eu lembrei enquanto escrevia: 500 dias com ela, Her, O brilho eterno de uma mente sem lembranças, Grey’s Anatomy, 50 tons de cinza, Crepúsculo, Harry Potter (que menina namoraria o chato do Ron????), Friends, The Big Bang Theory, Big Eyes, A esposa, How I met your mother, Deadpool, quase todos os contos de fadas, O quinto elemento, Tron, House, Simplesmente amor, Vidro (Casey, sério????)…. seria uma lista infinita. Na música, então, de “Mama I’m in love with a Criminal”, da Britney a “I used to love her but I had to kill her”, do Guns, passando por quase todos os estilos como MPB, Funk, Feminejo, Sertanejo, Samba, Pagode, Rock, Blues….

Arte de Helô D’Ângelo https://instagram.com/helodangeloarte?utm_source=ig_profile_share&igshid=7k3aia0aip75

 

Related posts