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Pastora trans no altar não é pecado. É divindade e sopro de fé

Alexya Salvador se tornará a primeira mulher trans a ser nomeada reverenda na América Latina

Por Franklin Félix, do Carta Capital

A PASTORA ALEXYA SALVADOR (FOTO: WANEZZA SOARES)

“Todo esse movimento ganha mais significado ao ser realizado no mês da visibilidade trans. O Brasil é o país que mais mata travestis, homens e mulheres trans no mundo. Ser ordenada clériga é a confirmação de que pessoas iguais a mim podem estar em todos os espaços da sociedade e da religião.” Alexya Salvador

O mês de janeiro é considerado o mês da visibilidade trans, um mês de luta, marcado por questionamentos à invisibilidade histórica que as travestis, mulheres e homens transexuais enfrentam no Brasil em relação aos seus direitos.

Por conta disso, no dia 26 de janeiro, São Paulo protagonizará um dos eventos mais aguardados por religiosos/as que acreditam numa religião inclusiva, amorosa, libertária e dialógica e que marcará a história do cristianismo, da liberdade religiosa e dos direitos LGBT+, em especial da população trans, em toda a América Latina.

A ordenação clerical de Alexya Salvador ocorrerá na Paróquia da Santíssima Trindade, sede da Igreja Anglicana. Ela se tornará a primeira mulher trans a ser nomeada reverenda na América Latina.

Alexya já é pastora da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), fraternidade que existe há 50 anos. É casada com Roberto, professor da rede pública estadual, e tem dois filhos adotivos, o Gabriel (12 anos), que é uma criança com deficiência, e a outra é a Ana Maria (12 anos), transgênero como a mãe.

Alexya é um dos rostos femininos da divindade. Sua túnica azul bebê e rosa se destaca no altar. “Ela é trans” – sussurra o crente novato enquanto houve Alexya falar sobre Deus. Continua a pregação no altar da esperança, emanando vida e contrariando as estatísticas sociais. Nesse mesmo altar que, por vezes, é usado pelos coronéis da fé para dizer que seu corpo precisa de “cura”. Quem cura os lucradores da fé do poder dominador? São eles que visceralmente dizem que seu corpo, seus gostos, seu amor – e agora – sua ordenação como reverenda são “pecados”.

Pecado é querer enxergar somente a mulher trans na esquina da subalternidade!

Alexya no altar não é pecado, é divindade, é sopro de fé!

Divindade histórica dessas que não tem volta. A primeira de muitas divindades históricas.

Crianças brincam durante o culto. “São os filhos dela” – sussurra o crente novato. É tão fácil encontrar Deus, é só observar crianças brincando aleatoriamente. E ela continua a falar e a gesticular no altar. Olhos atentos e ouvidos espiritualizados para ouvir aquela que nunca é convidada para falar de Deus. “Trans só pensa em sexo” – sussurra o preconceito social moralizador. “Onde já se viu? Na minha época não tinha essas coisas…” – resmunga os inconformados que não aceitam que a realidade pode e deve mudar.

Chegou o dia da sua ordenação como reverenda, o novo sempre vem.

Fazemos um destaque para salientar que neste momento o Word sublinhou a palavra reverenda de vermelho, definindo reverenda como “palavra estranha e não existente.” Alguma semelhança com o fato de não termos uma reverenda trans na América Latina?

Chegou o dia da sua ordenação.

Ela veste sua túnica e se olha… Como escreveu Pedro Munhoz, “quem tem coragem de negar a Deus diante do espelho?”.

Alexya sobe ao altar aclamada pelos aplausos de alívio espiritual em tempos de fé manchada. Rodeada de líderes religiosos diversos bem no mês em que falamos da visibilidade trans.

Uma perspectiva ampla de ecumenismo nos permite estender essa mesa para todas as pessoas de boa vontade, sejam elas de fé ou não, mas que compartilhem de um compromisso com a justiça e a inclusão de todas as pessoas.

A palavra da salvação tem muitas vozes e ecos, é diversa e sonoramente diferente. Nos sentimos lisonjeados de estarmos presentes neste momento celebrando a vida de uma mulher trans. Por vezes, somos convidados para os velórios, não à toa Jesus morreu com a mesma estimativa de vida de uma travesti no Brasil, que é de 33 a 35 anos.

Mas, embora essa população ainda seja tratada à margem da sociedade, especialmente por quem deveria acolher – como os/as religiosos/as, por exemplo -, algumas conquistas vêm sendo obtidas.

Uma das mais importantes foi o decreto presidencial, publicado em abril de 2016, que autorizou o uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal. Mais recentemente, a Resolução 1/2018 do Conselho Federal de Psicologia, que orienta a atuação profissional de psicólogas(os) para que travestilidades e transexualidades não sejam consideradas patologias e a Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.265/2019 que prevê a ampliação do acesso ao atendimento a essa população na rede pública e estabelece critérios para maior segurança na realização de procedimentos com hormonioterapia e cirurgias de adequação sexual.

Viva Alexya Salvador!

Viva todas as travestis, mulheres e homens transexuais.
Viva à Igreja da Comunidade Metropolitana.
Amém.

Serviço:

Ordenação Clerical de Alexya Salvador
Data: 26 de janeiro de 2020 às 16 horas
Local: Templo da Igreja Anglicana
Praça Olavo Bilac, 63 – Santa Cecília – São Paulo/SP

* Com colaboração de Tabata Tesser, socióloga e membro do grupo Católicas pelo Direito de Decidir

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