Por uma desracialização de fato! Entrevista com Carlos Moore

O principal objetivo de “Racismo e Sociedade”, novo livro de Carlos Moore, doutor pela Universidade Paris VII, é desmontar a estrutura simbólica do racismo. “O racismo é algo que permeia toda a sociedade.

 

As relações interpessoais são o reflexo do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade”, defende o autor, na entrevista a seguir, concedida com exclusividade a este jornal: Gazeta Mercantil – O senhor diz que “o racismo é prejuízo para o racista”.


O Brasil vive hoje uma realidade repleta de desigualdade. O senhor alia essas desigualdades ao racismo?

 

Sim. O racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são o reflexo do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade. São as relações interpessoais, elas por si, que são o refúgio exclusivo do racismo. É uma, metaconsciência que permeia toda a sociedade.

 

Gazeta Mercantil – A idéia de um mundo “democraticamente racial” é mito?

É claro que é mito. A mestiçagem é um fator dominante na sociedade. Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo das índias e das africanas. Você está falando de mestiçagem, mas você esquece como o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas. Ou seja, é a inseminação violenta das fêmeas do grupo dominado pelo macho do grupo dominante e a eliminação física dos machos do grupo dominado-conquistad o. O hino à mestiçagem está dizendo “nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo”. A mestiçagem é isso e toda a ideologia da “democracia racial” é essa: “Vamos mudar o fenótipo do negro, não mudar o fenótipo do branco. Vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano”.


Gazeta Mercantil – Entre preconceito e racismo o senhor faz uma diferenciação clara. Qual é?

Racismo é algo histórico, uma forma de consciência. Preconceito é qualquer coisa. Eu posso ter preconceitos contra as pessoas que eu considero como feias e essas pessoas não têm que ser brancas ou negras. Podem ser de qualquer cor porque se eu tenho um padrão fenotípico na cabeça, este é o padrão que eu considero bom. Por exemplo, Gisele Bündchen, eu posso considerar que seja o padrão e geralmente esse é o padrão para o mundo ocidental. Ele padronizou e estabeleceu a imagem normativa, que é ariana. Eu posso discriminar e ter preconceito com qualquer pessoa que se afaste dessa imagem normativa dominante. O racismo é uma questão de querer exterminar o outro. Aqui neste País, depois de 1888, a decisão foi mestiçar os negros. Inundaram o País de branco, de “sangue branco” como eles diziam e acabavam com eles assim. Não se podia matar 70% da população. Isso também foi feito em outros países da América Latina. Na Republica Dominicana, em 1935, milhares de negros foram exterminados, o que evidencia essa decisão de não compartilhar recursos. É muito importante saber que racismo se elabora em torno da partilha de recursos. Os negros sempre têm que ser os vetados. Veja, por exemplo, a discussão sobre a cota para negros nas universidades públicas. Porque se eles entram, a classe média negra vai surgir, vai se expandir. Se a classe média se expande vão surgir novas demandas pela repartição dos recursos neste País.


Gazeta Mercantil – E quando o senhor fala em “desracialização”, o que o senhor quer dizer com isso?

Desracializar quer dizer, em primeiro lugar, tirar o fenótipo do lugar onde ele está. O fenótipo está normatizando as relações. Entre os negros se pratica esta maneira de eugenismo, de se casar com as pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com o cabelo mais liso, de escolher um tipo de nariz que seja leptorino, com um septo alto. Os narizes que eles chama de “chato” não são privilegiados nesta sociedade. Os lábios carnosos não são privilegiados e os cabelos crespos não são privilegiados e a pele bem preta não é privilegiada. Há uma espécie de eugenismo individual em que as pessoas já foram programadas para escolherem parceiros cujo fenótipo se aproxima ao fenótipo do padrão estabelecido que é um padrão ariano, nórdico, de loiros, cabelos lisos, loiros e olhos verdes. Desracializar é destruir esta imagem normativa. O fenótipo dita quem vai ser o seu parceiro. Os próprios pais negros ensinam que seus filhos precisam “adiantar a raça”. A sociedade é a grande professora.


Gazeta Mercantil – Como o senhor pensa que vai ser a recepção de seu novo livro no Brasil e no mundo?

Os racistas vão receber um golpe duro. Eles se aproveitam da ignorância para fazer avançar as redes deles. Quanto mais ignorância há na sociedade, mais os racistas ficam contentes. O Brasil é contrário as correntes progressistas que estão aí no mundo. Então, podem existir monstruosidades como essa idéia da “democracia racial”. O branco brasileiro normal está convencido de que vive no melhor País do mundo e que os negros estão contentes. Tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se eles não mexerem no sistema vão perder o País. E ninguém quer, ninguém que seja sensato quer que o Brasil se desintegre, que termine no caos como terminou a União Soviética.


Gazeta Mercantil – O senhor afirma que a história da humanidade é uma história de imperialismos, de massacres, de genocídio, de opressão e de ódio. Conseguiremos reverter tudo isso?

Constantemente, a sociedade está sendo atravessada por duas correntes diferentes e opostas. Uma corrente de barbárie, regressão e animalização e, outra corrente, que está constantemente chamando a atenção para outra maneira de viver, na busca de uma sociedade ideal. É uma luta. Mas, há outro caminho para o ser humano, não para negros ou para brancos. Não há caminhos separados. Esta bifurcação racial foi criada historicamente, mas se você olhar de maneira bem objetiva e concreta a História, a finalidade da espécie é única. Não há outro caminho.

Fonte: AfroKut

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