Primeira contra-almirante do Brasil diz que mulheres têm visão diferenciada

Para Dalva Mendes, maternidade possibilita compreensão maior da vida.
Oficial se formou na Marinha grávida e marchou de bata.

Por: Carolina Lauriano

 

 

Na formatura da primeira turma do corpo auxiliar feminino de oficiais da Marinha do Brasil, em 1981, quatro mulheres se destacavam, entre as 202, por conta da roupa e da marcha. Bata no lugar do terninho e passadas mais suaves no lugar das pisadas fortes dos oficiais. Eram as grávidas do grupo, que desfilaram separadas da turma. Entre elas estava a médica Dalva Maria Carvalho Mendes, que se tornou a primeira mulher da história a ocupar um cargo de oficial general das Forças Armadas e recebeu a platina de contra-almirante na última segunda-feira (26).

“Eu engravidei no curso, então fiquei apavorada, porque fiquei achando que eu ia ser mandada embora e quando me formei estava eu lá, sou uma daquelas quatro meninas que estão com a batinha”, contou ela, para quem a experiência da maternidade é o que diferencia homens e mulheres. “Essa é uma lembrança que nós nunca devemos esquecer: nós somos mulheres, não devemos ser iguais aos homens, graças a Deus somos diferente. A gente não deve renegar esse nosso potencial, só nós podemos ser mães, amamentar. É uma essência só nossa. Faz com que a gente fique muito mais compreensiva com a humanidade. Temos uma visão diferenciada”, concluiu.

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Por trás do uniforme branco impecável e do coque de cabelo muito bem feito, uma carioca de fala doce, sorriso largo e que foi buscar o espiritismo para sossegar a inquietude sobre os mistérios da vida.

Contra-almirante é a primeira patente entre os oficiais generais – as demais são vice-almirante, almirante de esquadra e almirante, sendo que este último, o mais importante, só existe em época de guerra. Dalva Mendes foi promovida pela presidente Dilma Rousseff na sexta-feira (23) e passou a vigorar no domingo (25). Ela deixou o cargo de capitão-de-mar-e-guerra para assumir o terceiro posto mais importante da Marinha, que simboliza duas estrelas.
No dia do decreto, ela se juntou com os filhos e comemorou com queijos e vinhos. Essa semana a agenda ficou lotada, o telefone não parou de tocar e a caixa de email encheu. Desde segunda-feira, a contra-almirante, de 56 anos, recebe uma reverência maior por onde passa. “Afinal, é um cargo que pra se chegar é todo um caminho grande”, lembra.
A partir de dezembro ela deixa a direção da Policlínica Naval Nossa Senhora da Glória, na Tijuca, Zona Norte do Rio, para assumir um posto na Escola Superior de Guerra, na Urca, Zona Sul da cidade. “Agora vou pegar um pouquinho mais de trânsito”, disse a contra-almirante, moradora da Tijuca.

Viúva há seis anos e mãe de dois filhos – o analista de sistemas Carlos Eduardo Carvalho Mendes, de 30 anos, e a 1º tenente da Marinha Luciana Carvalho Mendes, de 27 – Dalva Mendes cresceu querendo ser médica. A mãe queria que ela fosse professora. “Naquela ocasião, sendo uma das melhores da turma, você podia fazer o normal sem fazer concurso. Eu tive essa possibilidade, mas eu não quis. Eu falava ‘mãe, se eu fizer o normal eu vou desvirtuar o que eu estou querendo fazer'”, contou a médica anestesista.

A contra-almirante diz que não é vaidosa. Os brincos pequenos usados com a farda são os mesmos que ela escolhe no dia-a-dia fora do trabalho. Anel, apenas ‘unzinho’, que esqueceu em casa no dia da entrevista. Maquiagem, pouca coisa. “Batonzinho, blushzinho e pó”, resumiu. É fã de Música Popular Brasileira. “Adoro Elis Regina, aliás, nós somos do mesmo dia de nascimento, 17 de março”, explicou a oficial, lembrando que é do signo de Peixes. “Sensíveis, mas também determinadas”, definiu.
Na literatura, cita os romances policiais de Agatha Christi e os livros espíritas do médico André Luiz. “Ele tem um enfoque que facilita para o meu olhar algumas questões. Até ajuda a gente a entender melhor e a ser menos rebelde. Porque a gente questiona muito e por isso que eu fui ser espírita, porque na verdade eu nasci católica apostólica romana. Fui batizada, crismada, fiz primeira comunhão. Mas depois aquilo não me era suficiente. Eu precisava entender um pouquinho porque que as crianças nasciam com problema, porque alguns nasciam virados para lua e outros não”, explicou.
A oficial das Forças Armadas vai à academia pelo menos duas vezes por semana e, quando pode, vai ao clube e à praia nas horas vagas. “Mas o que gosto mesmo é ficar em casa com os meus filhos”, confessou.

O posto de contra-almirante corresponde ao de general-de-brigada no Exército e ao de brigadeiro na Aeronáutica. Atualmente há 2.882 oficiais mulheres na Marinha, o que representa 33% do quadro total de oficiais, segundo informações da Marinha.

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Fonte: G1

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