Projetos de lei no Parlamento russo querem proibir de salto alto a palavras estrangeiras

Bizarrices propostas pelos deputados em Duma indignam os russos; em julho entra em vigor lei sancionada por Putin que proíbe palavras grosseiras em shows, filmes e meios de comunicação

por O GLOBO

MOSCOU — Os russos estão perplexos com os recentes projetos de lei propostos em Duma, Câmara baixa do Parlamento, dentre eles a proibição para mulheres de menos de 40 anos de fumar, usar salto alto, tênis ou roupa íntima com renda sintética. Há também uma proposta que prevê multa para quem utilizar palavras estrangeiras em público.

— Se as pessoas forem autorizadas a fazer tudo o que querem voltaríamos a idade da pedra — diz o deputado Mijail Degtiariov, do partido ultranacionalista Liberal Democrata, que apoia o projeto que proibi palavras estrangeiras em público.

Para Ivan Nikichuk, deputado do Partido Comunista e autor do projeto de lei que proibi o consumo de cigarros por mulheres de menos de 40 anos e também na presença de crianças menores de 14 anos, sua lei não é contra o povo.

— Nós não queremos proibir tudo. O que desejamos é deixar uma geração com boa saúde — declarou o parlamentar de 70 anos à AFP. Mas a justificativa é controvérsia já que proíbe apenas as mulheres de fumar.

Outro projeto que atinge em cheio as mulheres é sobre o salto dos sapatos.

Em junho, o deputado do partido centro-esquerda Russia Unida, Oleg Mijeiev, apresentou proposta para impor aos fabricantes de calçados um tamanho mínimo de dois centímetros a máximo de quatro ou cinco para os sapatos femininos. Ou seja, nada de salto alto e nem tênis, sapatilhas ou mocassins.

Ele justifica sua proposta dizendo que sapatos planos ou de salto são perigosos para a saúde.

— Os efeitos negativos na saúde para quem usa saltos muito altos ou planos são hoje reconhecidos por especialistas no mundo todo. É preciso mudar esta tendência — indica Oleg nas cinco páginas do projeto de lei.

— Quando escutei falar sobre a proibição do tênis e do salto alto fiquei atônita — disse Elizaveta Krasnopevtseva, de 17 anos.

— Acreditava que era impossível chegar a semelhante nível de idiotice. Não se pode impor essas proibições.

Além da população a imprensa russa também anda se indignando e denunciando os abusos de Duma. Em fevereiro, a imprensa do país já havia comentado com sarcasmo o projeto de lei que proibia a fabricação de roupa íntima com renda sintética.

Liberdade de expressão

Mas mesmo com a sociedade protestando, leis controvérsias já foram promulgadas.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, assinou uma lei que entra em vigor à partir de julho proibindo as palavras grosseiras nas salas de espetáculos, filmes e meio de comunicação, em uma clara forma de reprimir a liberdade de expressão.

Pouco depois de sua reeleição para um terceiro mandato no Kremlin, em 2012, Putin adotou textos que segundo a oposição estavam destinados a silenciá-los. É o caso da lei que obriga as organizações não governamentais que têm uma atividade política e recebem financiamento estrangeiro a registrar-se com “agentes estrangeiros”.

Segundo analistas, na realidade os deputados russos tem pouco poder, já que as leis destinadas a serem realmente adotadas devem ser submetidas diretamente pelo Kremlin ou governo.

— Os parlamentares não são loucos ou psicopatas. Eles tentam apenas se transformar no que o sistema espera deles, ou seja, o que Putin espera deles — explica o analista independente Dmitri Orechkine.

Fonte:O Globo

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