Quem participa da governança global? Juventudes, interseccionalidades e a CSW 

05/02/26
Por Anne Heloise Barbosa do Nascimento e Ester Sena

No âmbito das grandes conferências internacionais, a participação da sociedade civil é um dos pontos primordiais para a concretização de resultados legítimos, efetivos e transparentes. Ela decorre das lutas históricas de grupos que enfrentam, de forma contínua, processos de marginalização e o racismo sistêmico, sendo fundamental para garantir representatividade, justiça e equidade nos espaços de tomada de decisão. 

O processo de participação é sempre desafiador, mas um grupo específico de sociedade civil vem participando cada vez mais dos grandes espaços de alto nível internacional: a juventude. A participação de jovens nos espaços multilaterais vem acompanhada de uma articulação no campo dos direitos humanos voltada para uma perspectiva protagonizada por grupos historicamente marginalizados e invisibilizados. Nesse sentido, as conferências internacionais servem como canal de geração de direitos, os quais levam em conta as pautas de raça, gênero, sexualidade, idade e classe para dentro dos debates. 

Assim, jovens, crianças, adolescentes, populações afrodescendentes, povos indígenas, comunidades quilombolas estão se tornando atores relevantes para os debates internacionais, mostrando que um processo sem a sua participação, escuta e representação é apenas uma capa que encobre processos de exclusão históricos e, inviabiliza a construção de um presente-futuro que enfrenta os grandes problemas globais sentidos de maneira desigual por esses atores. 

Um dos grandes espaços e mecanismos em que a sociedade civil vem realizando movimentos estratégicos é a Comissão sobre a Situação da Mulher das Nações Unidas (em inglês Commission on the Status of Women – CSW). Conferência que acontece anualmente, durante o mês de março, na sede da ONU em New York. 

De acordo com a ONU Mulheres, agência da ONU que realiza o secretariado do encontro de líderes globais, “a Comissão sobre a Situação da Mulher é o principal órgão intergovernamental global dedicado exclusivamente à promoção da igualdade de gênero, dos direitos e do empoderamento das mulheres”. Um dos mecanismos realizados pela Comissão é o CSW Youth Group, rede global de jovens feministas e organizações lideradas por jovens que atuam em coordenação com a ONU Mulheres para a construção das Recomendações Globais das Juventudes e dos Adolescentes.  

No ano de 2026, o tema prioritário da CSW é “Garantir e fortalecer o acesso à justiça para todas as mulheres e meninas, incluindo a promoção de sistemas jurídicos inclusivos e equitativos, a eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias, bem como de barreiras estruturais”. 

De outubro a dezembro de 2025, a ONU Mulheres recebeu os resultados das consultas públicas realizadas pelos jovens, acerca do tema prioritário. Ao todo, foram realizadas mais de 280 consultas, reunindo mais de 23 mil jovens em 65 países para tratar do acesso à justiça e levar as suas demandas por políticas públicas para a CSW. 

A participação do sul global foi expressiva. O continente africano se destacou com o maior número de contribuições, das 280 consultas, o continente foi responsável por 152. Por outro lado, a América Latina, enquanto região com a maior proporção de jovens afrodescendentes, é uma das regiões que menos realizou consultas às juventudes, com apenas 08 contribuições enviadas.  

Apenas 17 submissões indicaram a participação de pessoas afrodescendentes, e 29 a de pessoas trans e não binárias. Esses dados evidenciam que as oportunidades de participação social permanecem desigualmente distribuídas, não alcançando de forma efetiva grupos cujos direitos humanos são historicamente violados e cujas vozes seguem sub-representadas nos processos de tomada de decisão. Ainda assim, é relevante ressaltar que esses marcadores de interseccionalidade estão devidamente reconhecidos no documento das Recomendações Globais das Juventudes. 

Portanto, pode-se observar que mesmo após 07 anos desde o início desse incentivo a participação das juventudes globais nos processos preparatórios para a CSW, ainda existem pontos a serem aprimorados, indicando que o aprofundamento do diálogo, o aperfeiçoamento dos mecanismos participativos e o compromisso contínuo com a inclusão são caminhos essenciais para consolidar uma governança internacional verdadeiramente plural. 

Logo, podemos observar algumas situações que poderiam ser melhor trabalhadas para tornar o processo das recomendações das juventudes mais inclusivo:

  • Primeiramente, é preciso uma maior mobilização e divulgação para as consultas às juventudes, através das redes sociais, newsletters e sites da ONU; 
  • Após, é necessário que os escritórios nacionais e regionais se engajem no esforço de mobilização, recebendo também recomendações que não estão nas línguas oficiais da ONU (inglês, espanhol, francês, árabe, chinês e russo), bem como disponibilizando um formulário para recebê-los na língua oficial de cada país, diminuindo as barreiras linguísticas;
  • Depois da CSW, é importante que também sejam dadas devolutivas efetivas das recomendações que entraram nas Conclusões Acordadas, de modo a celebrar as vitórias e traçar estratégias para os desafios que persistem, enquanto grupo global de juventude. 

Acesse as Recomendações Prioritárias Globais de Alto Nível das Juventudes e dos Adolescentes aqui 


Anne Heloise Barbosa do Nascimento 
CSW Youth Group

Referências 

UN WOMEN. Commission on the Status of Women. UN Women, [s.d.]. Disponível em: 

https://www.unwomen.org/en/how-we-work/commission-on-the-status-of-women. Acesso em: 30 jan. 2026. 

YOUNG FEMINIST CAUCUS. CSW70 Global Youth and Adolescent High-Level Priorities, jan. 2026. Disponível em: https://youngfeministcaucus.org/wp-content/uploads/2026/01/csw70-global-youth-and-adolescent-high-level-priorities.pdf. Acesso em: 30 jan. 2026.

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