Quilombo nos Parlamentos reúne candidaturas comprometidas com a justiça racial 

30/07/26
Por Beatriz de Oliveira
O relançamento da iniciativa contou com candidaturas negras de todo país, baseadas na premissa de que a participação política da população negra é necessária para o fortalecimento da democracia

Enquanto houver racismo, não haverá democracia. Foi com essa premissa que a Coalizão Negra por Direitos relançou o Quilombo nos Parlamentos,  iniciativa que reúne candidaturas negras de todo país. A reestreia foi marcada por um pujante evento público realizado no Club Gomes, na região central de São Paulo, na última quarta-feira (29). O objetivo é construir um projeto político brasileiro baseado na justiça racial, na democracia e na garantia de direitos. 

Para Ingrid Farias, ativista da Articulação Negra de Pernambuco, a ação marca mais um passo do movimento negro na construção da história do Brasil. “O Quilombo nos Parlamentos está focado numa perspectiva racial, no enfrentamento ao racismo e às desigualdades, mas, acima de tudo, é uma agenda que mostra para o Brasil, que emerge das populações negras e periféricas, um projeto de nação”, disse. 

“Tem uma importância no que aconteceu hoje em relação à constância, por termos conseguido fazer uma ação há quatro anos e reproduzi-la esse ano. Isso demonstra que o nosso projeto político de organização da população negra está funcionando. E ele se exercita justamente nesses momentos em que conseguimos cobrar a classe política através de uma agenda de defesa da vida da população negra”, afirmou Beatriz Lourenço, militante da Uneafro e diretora de Estratégias e Áreas do Instituto de Referência Negra Peregum. 

A iniciativa Quilombo nos Parlamentos foi criada em 2022, quando apoiou mais de uma centena de pré-candidaturas negras em todo país. Em 2026, segue com o compromisso de fortalecer a democracia por meio da participação política da população negra. 

“Num país como o Brasil, formado por maioria negra, deveria ser natural a participação negra na política. Mas sabemos que os processos de desigualdade que construíram, e ainda constituem o país em que vivemos, não permitiram isso, o que faz com que a participação negra vire esse eixo de luta”, pontuou Thuane Nascimento, diretora executiva no PerifaConnection. 

O evento contou com falas de candidatos e candidatas nas Eleições de 2026 de todo país. Estavam presentes nomes como Benedita da Silva (PT – RJ), Marina Silva (REDE – SP), Leci Brandão (PCdoB – SP), Macaé Evaristo (PT – MG) e Áurea Carolina (PSOL – MG). 

“Estamos aqui porque essa iniciativa de aquilombar os parlamentos têm uma força social, cultural, política e simbólica muito grande (…) Se as coisas forem resolvidas para o povo preto, para o povo indígena, para as mulheres, para a população LGBTQIA+, pode ter certeza que estarão resolvidas para todas as pessoas”, disse Marina Silva. 

“Esse manifesto, lançado hoje, não é só um papel, é um compromisso. Ele diz que não aceitamos migalhas de ninguém e que queremos orçamento para a educação, saúde com equidade racial e uma segurança pública que não mate a nossa juventude”, discursou Leci Brandão. 

Benedita da Silva, por sua vez, reforçou a responsabilidade dos parlamentares negros de abrir caminhos para outras candidaturas comprometidas com a justiça racial. “Em 42 anos de vida pública, houve momentos em que pensei que estivesse sozinha. A minha alegria é saber que o movimento de hoje me dá a segurança e a tranquilidade de que a nossa luta, ainda que não esteja terminada no que diz respeito à ocupação do parlamento,está próxima [do êxito]”. 

Além disso, a ação apresentou a Carta Compromisso da Coalizão Negra para as Eleições de 2026, que explicita as desigualdades nas representações de poder e o racismo nas estruturas políticas do país. 

“As eleições de 2026 renovam o desafio de impedir a retomada do poder executivo do nosso país por uma extrema direita absolutamente violenta, contrária a direitos, destruidora de políticas sociais, entreguista, racista e misógina”, lê-se num trecho. 

Entre os compromissos assumidos pelas candidaturas que aderiram ao Quilombo nos Parlamentos, estão: o enfrentamento às desigualdades raciais, o direito à creche e a preservação da infância negra, a titulação de territórios quilombolas, o fim da militarização das políticas de segurança pública e o estímulo a candidaturas negras do campo progressista nos processos eleitorais. 

Outro documento apresentado foi o Manifesto do Quilombo nos Parlamentos para as eleições de 2026, que reúne os princípios e prioridades políticas da iniciativa para o próximo ciclo eleitoral. 

“Para mudar a fotografia do poder nas eleições 2026 e promover verdadeira ‘reintegração de posse’ ao povo negro brasileiro nas assembleias estaduais e no Congresso Nacional – Câmara dos Deputados e Senado Federal – apresentamos para a sociedade candidaturas negras comprometidas integralmente com o avanço da luta contra o racismo e contra todas as formas de discriminação”, pontua-se num trecho. 

A noite contou ainda com a presença de intelectuais e militantes do movimento negro. É o caso de Sueli Carneiro, de Geledés – Instituto da Mulher Negra;  Hélio Santos, do CEDRA; Iêda Leal, do MNU; e Monica Oliveira, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco.

“Estamos aqui para expressar solidariedade, compromisso e responsabilidade com o conjunto de candidaturas negras que se apresentaram para nós nessa noite. Estamos aqui para dizer que nós, como princípio organizador da Coalizão, acreditamos piamente que sem combater o racismo não há democracia neste país”, destacou Sueli Carneiro. 

Hélio Santos, por sua vez, pontuou: “nós somos 113 milhões de brasileiros, somos a maioria dos eleitores e quando a gente fotografa o poder, encontramos lá outras pessoas. Eu gostaria que, neste ano, nós de fato fizéssemos a diferença”.

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