Racismo avança muito além da marca de escanteio

 

São Paulo vê disparar processos por ofensas raciais, que ocorrem diariamente e sem grandes alardes

Entre 1 de janeiro e 15 de abril deste ano, o número de processos de discrimação racial instaurados pela Secretaria Estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania no estado de São Paulo corresponde a 70% do total de todo o ano de 2013 e é praticamente igual ao de 2012 inteiro. De acordo com a pasta, em 2014 já foram 28 ações judiciais, contra 40 no ano passado e 29 em 2012.

Os dados, obtidos com exclusividade pelo DIÁRIO, vêm na esteira da campanha #somostodosmacacos, na qual celebridades de diversas áreas se solidarizaram com o jogador brasileiro do Barcelona Daniel Alves, que comeu uma banana jogada no campo por um torcedor, no último domingo. Na campanha, os famosos seguram a fruta em fotos publicadas em redes sociais (leia mais na página 3).

Apesar do aumento nos processos, o número de denúncias encaminhadas à secretaria não segue a mesma vertente. Ainda de acordo com a pasta estadual, em 2012 o órgão recebeu 132 denúncias, em 2013, 102, e até o dia 15 de abril deste ano, 24.

O fato de em 2014 o número de processos instaurados até agora ser maior do que o de denúncias, de acordo com a secretaria, pode se explicado pela parceria que a pasta tem com entidades como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e Defensoria Pública.

Vitória

O desempregado Alex Marques da Silva, de 23 anos, é um exemplo de negro que já sofreu racismo. Em novembro de 2012, enquanto fazia compras em um shopping na Avenida Paulista, ele foi xingado por uma mulher que se dizia superior por ter origem alemã. “Ela me xingou de macaco, de negro fedorendo, de tudo de pior que se pode imaginar”, disse. Duas mulheres negras que estavam na loja com Silva também foram ofendidas por serem afrodescendentes.

Os três moveram uma ação judicial por racismo contra a mulher. Em decisão em primeira instância, eles venceram e a ré foi condenada a quatro anos de reclusão em regime semiaberto, além do pagamento de R$ 29 mil por danos morais a cada um dos três. Cabe recurso e a condenada aguarda o próximo julgamento em liberdade.

“Até hoje sofro as consequências daquele dia terrível para mim. Fui muito humilhado. Por meses fiquei com vergonha de voltar ao shopping, onde almoçava todos os dias porque trabalhava na região da Avenida Paulista. Tive de ir em psicólogo para fazer tratamento. Fiquei arrasado. É muito difícil emocionalmente lidar com este desprezo”.

‘Esta campanha só reforça o preconceito’

Na avaliação da presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/SP, Carmem Dora de Freitas Ferreira, a campanha #somostodosmacacos, liderada por celebridades que se solidarizaram com o jogador Daniel Alves, vítima de racismo em jogo do campeonato espanhol, no último domingo, incentiva o preconceito e não combate esse mal.

“É um absurdo essa campanha. A atitude do Daniel Alves de comer a banana merece aplausos, mas o que se viu em seguida de modo algum merece o mesmo. Não somos macacos coisa nenhuma. Somos todos seres humanos. Essa campanha pode ser classificada até como um crime de injúria”, afirmou a advogada.

A mesma opinião tem a coordenadora de políticas para a população negra e indígena da Secretaria Estadual de Justiça e Defesa da Cidadania, Elisa Lucas Rodrigues. “A campanha foi um movimento infeliz. Pode até ter tido uma boa intenção, mas na prática não funcionou do jeito esperado. Dizer que somos todos macacos é diminuir a importância humana. Eu não me considero macaco. E não sou macaco.”

Avanços

Para o presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, Paulino de Jesus Francisco Cardoso, o aumento do números de processos por discriminação racial é resultado da maior inserção do negro na sociedade. “O negro só passou a ter direitos no Brasil a partir da Constituição de 1988. De la para cá, houve avanços. A população negra está mais estudada e, consequentemente, mais sábia de seus direitos. A tendência é a de que atos de racismo não fiquem sem ação judicial. Por outro lado, há uma parcela da sociedade que não engole essa ascensão e vai promover atos racistas com mais frequência por não suportar a presença dos negros em ambientes antes exclusivo de brancos”, disse.

Luciano Huck aproveita para vender camisetas da grife

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Fonte: Diário de SP

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