O caso da advogada argentina Agostina Páez que imitou um macaco contra um atendente negro de um bar no Rio não é apenas mais um triste episódio para as estatísticas de injúria racial. É um lembrete pedagógico de que o diploma de Direito, às vezes, serve menos para defender a Justiça e mais como um salvo-conduto para a barbárie.
A cena segue o roteiro repetido e trágico que conhecemos bem, seja protagonizado por um hermano, um gringo ou um compatriota: o cliente insatisfeito que, ao ter um desejo contrariado, não recorre ao Código de Defesa do Consumidor, mas ao código da Casa Grande.
Ao chamar o trabalhador de “macaco” ou questionar sua humanidade, a turista não estava apenas externando um preconceito pessoal, mas tentando colocar as coisas em seus “devidos lugares”. O dela, no topo da pirâmide civilizatória, e o dele, na base servil.
É curioso, para não dizer trágico, que alguém cuja profissão é lidar com as leis demonstre tamanho desconhecimento e desprezo pela legislação do país que visita. Talvez a advogada estivesse acostumada com a impunidade estrutural que permeia as relações de classe na América Latina. Ou talvez (e isso é o que mais dói), tenha se sentido em casa.
Afinal, o Brasil, apesar de ter endurecido suas leis equiparando a injúria racial ao racismo (crime inafiançável e imprescritível), com regras mais duras do que a Argentina, segue exalando aquele ar rançoso de que, com o sobrenome, a cor de pele e a conta bancária corretos, tudo acaba em pizza.
Muitos correram para as redes sociais para destilar xenofobia contra os argentinos, generalizando de forma burra o comportamento de vizinhos como se o Brasil fosse um alecrim dourado livre de racismo estrutural. Conseguem ser quase tão tolos quanto a advogada.
O racismo dela choca, e deve chocar, mas ele encontra eco na forma como a nossa própria gente trata porteiros, entregadores e babás negros todos os dias. O rebosteio dela fede tanto quanto o cometido por muitos brasileiros.
O que a doutora”” descobriu da pior forma é que, por aqui, a paciência histórica está cada vez mais curta. A reação de quem filma, de quem denuncia e da polícia que prende em flagrante mostra que a corda, aos poucos, começa a esticar para o outro lado. O atendente, que estava ali para servir, serviu sim: de exemplo de resistência e dignidade ao denunciar.
Que a impossibilidade de deixar o Brasil também sirva de lição não só para ela, mas para qualquer um que ache que a cor da pele define a hierarquia do respeito. O país não pode ser o paraíso tropical da impunidade racista. E para quem acredita que pode humilhar trabalhador porque tem um diploma na parede, precisamos garantir a Justiça como necessária etapa de formação.