Religião e eleições

Por: Vitor Gomes Pinto

 

Barack Hussein Obama teve seu pensamento moldado pelos sermões racistas e incendiários do reverendo negro Jeremiah Wright e Mitt Romney, que já foi bispo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, simplesmente não é cristão. Os radicais estão a postos, mas serão ouvidos em 6 de novembro próximo? Cada detalhe da preferência do eleitorado norte-americano está sendo esmiuçado, à medida em que mais e mais se aproximam as eleições. Os candidatos estão definidos, com Barack Obama buscando a reeleição pelo Partido Democrata e Mitt Romney na condição de seu opositor pelo Partido Republicano. Há pesquisas para todos os gostos e é preciso ficar atento para cada tendência, considerando que a vantagem geral de Obama tem variado entre dois e sete pontos percentuais, ou seja, ainda não garante nada. Entre os brancos norte-americanos, Romney mantém uma vantagem de 54% contra 37%, com 9% indecisos, mas 90% dos negros, 68% dos hispânicos e 57% dos demais grupos étnicos onde predominam os asiáticos votarão contra ele.

A situação é mais preocupante para os dois concorrentes quando se trata de convencer alguém a mudar seu voto em função da religião, que tem sido um tema tradicionalmente de grande peso nos pleitos nacionais e locais dos Estados Unidos e agora não há de ser diferente. De acordo com o Instituto Gallup, quanto mais religioso, mais republicano e conservador é o eleitor. Os estudos dividem os votantes, por exemplo, em muito, moderadamente e pouco religiosos, segundo a importância que tem o culto na vida diária de cada um. Os dois primeiros grupos têm comportamento exatamente inverso, pois 54% dos muito religiosos (são quatro de cada dez) elegerão Romney, enquanto o mesmo percentual favorecerá Obama entre os moderados. Já os pouco ou não religiosos (três de cada dez eleitores) apoiam maciçamente o candidato democrata.

Durante o largo período das primárias republicanas, os crentes mais radicais se congregaram em torno de Rick Santorum, mas tão logo ele perdeu a disputa, não tiveram dúvidas em se unirem a Romney. Protestantes, que constituem pouco mais da metade dos votantes, favorecem os republicanos numa relação de 48% contra 43%. Já os católicos devem repetir o padrão das duas últimas eleições, favorecendo predominantemente aos democratas, graças ao forte apoio proporcionado pelos hispânicos. É interessante observar que entre os que declaram não possuir uma identidade religiosa formal, 67% elegerão Obama.

Há os que mostram uma resistência contra o mórmon Romney com base na longa história que a religião tem de discriminação contra pessoas negras. Muitos outros pensam como o reverendo Philip Roberts de Kansas, autor do livro “Mormonism unmasked (desmascarado)” e o consideram um não-cristão por não aceitarem o que chamam de seita criada em 1820 por Joseph Smith, seu primeiro profeta que, entre outras coisas, afirmou que Jesus Cristo ao voltar à terra passou uns dias em Missouri. No outro lado estão os adeptos do rico empresário Joe Ricketts com seu plano para “derrotar definitivamente” a Obama, ligando-o à Teologia de Liberação Negra de Jeremiah Wright. Pretendem fazer exatamente o que John McCain, o candidato republicano derrotado em 2008, disse para não fazer quando bloqueou essa mesma estratégia que em sua essência é fundamentalista e racista. “Foi por isso que perdeu”, dizem. Até aqui, tanto Romney quanto Obama repudiam os radicais.

No Brasil o quadro é bem distinto, a começar pelo grau de dedicação religiosa de cada um. A afirmativa de que este é um país católico continua sendo verdadeira, com base no Censo de 2010 no qual 75% das pessoas assim se declararam, uma proporção oito pontos inferior à constatada vinte anos antes. Esta, no entanto, não é uma verdade absoluta, pois muitos dos “católicos” costumam frequentar terreiros de umbanda ou de candomblé e no seu dia-a-dia não dispensam uma reza e um despacho para afastar os maus espíritos. Os protestantes multiplicaram-se nos últimos vinte anos, passando de 9% para 14,6% dos brasileiros, enquanto os que se declaram “sem religião” subiram de 5,1% para 7,5%.

Já se foram os tempos em que uma suposta declaração de Fernando Henrique de que seria ateu levou-o a perder a prefeitura de São Paulo, em 1985, para o esperto Jânio Quadros. Ainda assim, o voto religioso concedido a Marina Silva impediu dona Dilma de vencer no primeiro turno em 2010. As diferenças entre crentes, indiferentes e não-crentes, embora os primeiros sejam fundamentalmente eleitores dos partidos de direita, não costumam influenciar de maneira decisiva os pleitos brasileiros. Os temas em discussão são, habitualmente, de interesse mais restrito. As bancadas evangélicas (32 deputados e 3 senadores) e católica batalham por vantagens como a concessão de canais de rádio e televisão ou se mobilizam para bloquear lei como a do silêncio (música e cânticos que interferem com a vizinhança). O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão e o ministro do STJ Marco Aurélio de Mello sofreram cerrado bombardeio, o primeiro por ter sugerido um plebiscito sobre a legalização do aborto e o segundo por ter revelado seu voto descriminalizando o aborto em casos de fetos com anencefalia. A questão dos casamentos entre gays, que divide democratas (em geral a favor) e republicanos (contrários), não tem eco ideológico claro entre os candidatos tupiniquins. Tanto lá como aqui, já não é admissível o voto apenas em função das crenças próprias ou do candidato, mas em boa parte do mundo atual guerras e revoluções causadas por diferenças religiosas continuam separando os homens.

Vitor Gomes Pinto é escritor. Analista internacional

 

 

 

Fonte: Bem Parana

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