sábado, agosto 13, 2022
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Religiões, verdade e desgraça

Professor Paulo Ghiraldelli Jr.

Todas as religiões falam a verdade. O problema é entender do que a verdade dita é verdadeira. Para entender isso é necessário compreender o contexto no qual o que é dito ganhou seu valor de verdade.

Veja um dito da religião grega do tempo de Sócrates: “conhece-te a ti mesmo”. Muitos filósofos e historiadores posteriores quiseram entender essa frase. O próprio Sócrates, que a adotou para si, confessou que a viu como alguma coisa que deveria tornar os habitantes de Atenas capazes de chegarem, no diálogo examinador da filosofia, a perceberem que talvez não vivessem de acordo com o que acreditavam viver. Talvez não pudessem dizer se realmente faziam o que diziam fazer com suas habilidades, uma vez que não tinham claro a natureza mesma do que faziam. Diziam-se corajosos e, no entanto, no exame filosófico, não conseguiam responder corretamente à pergunta “o que é a coragem?”. Diziam-se devotos e, ao passarem pelo exame filosófico, não conseguiam responder à pergunta “o que é a devoção?” e assim por diante. Desse modo, o recado do dito do Templo de Apolo, uma vez posto diante dos rostos dos atenienses por Sócrates, tornava-os mais conscientes do quanto eles não poderiam saber tudo como diziam. Talvez houvesse um tipo de conhecimento só pertencente aos deuses, e assim, os atenienses, tão orgulhos de si, deveriam perceber que tinham antes retórica que saber efetivo.

Veja agora uma passagem do Evangelho, a da historieta de Jesus sobre “o bom Samaritano”. O samaritano deveria, aos olhos de todos, ser o último dos homens a ajudar alguém. No entanto, diante do assaltado, não só o ajudou quando do assalto como ainda lhe deu roupas, comida e dinheiro. Jesus não contou isso para mostrar o que devemos fazer quando alguém precisa de nós. Contou para percebermos que não devemos ter restrições contra os que são diferentes de nós, como o Samaritano aparecia para os olhos de todos ali (ao menos até o episódio do assalto). Ele, o Samaritano, poderia ser muito bem ser um homem bom e, diante do que fez, deveríamos nos envergonhar de nossos preconceitos e, se possível, revê-los. Em certo sentido, também isso foi um tipo de “conhece-te a ti mesmo”. Conhece-te a ti mesmo como preconceituoso à medida que pode conhecer quem é de fato o outro.

Essas duas passagens nascem de escritos morais. Escritos morais de Platão, no primeiro caso, escritos morais de parte do povo judeu, no segundo caso. Não são escritos morais laicos. São escritos morais religiosos, uma vez que estão ligados às divindades inspiradoras dos homens. Mas, como todo bom escrito religioso, ele pode ser abstraído da crença nos deuses e ser adotado pelo seu conteúdo exclusivamente moral, e ser tomado como uma verdade no seu contexto de origem. Agora, tais escritos mostraram-se melhores que isso, pois puderam ser adotados como uma boa verdade a ser dita não só para gregos antigos ou judeus cristãos. Eles ultrapassaram barreiras de tempo e espaço e, então, vieram a ser constituir em clássicos da literatura moral. São verdadeiros exemplos clássicos de escritos éticos. Assim, eles são uma verdade que adotaríamos para nós, ainda que, na vida de cada um, seja algo muito difícil de seguir.

As religiões boas são assim: elas se tornam proprietárias de verdades clássicas no âmbito moral. Elas fazem um povo viver segundo o seu ethos ou, então, corrigir o seu ethos em favor do que seria um melhor comportamento para a sobrevivência do grupo originário e, talvez, de outros grupos. Um texto clássico em termos morais faz com que ampliemos os círculos dos que podem receber o nome de “nós” (como diz Rorty). Assim, diante desses dois exemplos, qualquer um de nós pode se sentir herdeiro de Sócrates (daí a psicanálise como terapia, no âmbito privado) e de Jesus (daí a tolerância liberal no âmbito público).

Nenhum de nós precisa crer na existência ontológica dos deuses de Sócrates. Nenhum de nós precisa crer na existência ontológica do Deus de Jesus. Isso é completamente dispensável. Mas, é difícil não tomar o que disseram nesses dois exemplos como informações verdadeiras, capazes de fazer de nós pessoas melhores em termos morais – “versões melhores de nós mesmos”, diria Rorty. É assim que a religião serve quando ela não perde a religiosidade, ou seja, sua capacidade de ligação, de fazer vingar um ethos. Mas, essas são religiões não inventadas por um ou outro indivíduo, pela idiossincrasia de um sabichão. Elas parecem realmente divinas porque surgiram de práticas coletivas que visavam tornar o ethos de um povo uma forma canônica de agir. Ou seja, não eram religiões de um povo, eram os códigos de formação do próprio povo. Era o código que viria expressar o Todo e, portanto, os deuses ou o Deus, sinônimo de Todo para a consciência popular.

Agora, podemos, por falta de cultura ou por uma escolarização capenga, não sabermos nada disso e entrarmos para religiões sem religiosidade. Não são religiões, são ideologias menores. Nem mesmo isso, são regras de comportamento não de uma ética, mas de uma etiqueta, um código pequeno de proibições inventado para que um ingênuo se submeta e, então, caia em outros engodos, como o da magia, “milagres”, etc. Isso tem uma finalidade clara: aquilo que Lutero denunciou: a venda de indulgências. Mas agora, nas religiões sem religiosidade de cada esquina, não é a venda da porta do Céu que está sendo oferecida, é a venda da casa própria na Terra. Pastores inescrupulosos se valem da liberdade de culto no Brasil para dizerem aos fiéis: “não paguem aluguel, entreguem o valor do aluguel para Jesus (ou seja, para o meu bolso)”. Gente como Malafaia faz isso. Uma boa parte dos pastores faz isso. Fazem bem pior que o padre, que cobrava só o dízimo, não um aluguel inteiro ou o “primeiro salário”. Esse tipo de gente não lida com religião, lida com negócio. Mas existiria religião sem negócio? Impossível. Sabemos disso.

O negócio agora, desse pessoal todo, dos padres Marcelos e Bispos Macedos da vida, nada é senão a construção de grandes templos. Todos querem dinheiro não para eles mesmos, dizem, porque querem é “louvar o Senhor” por meio de grandes templos. E pedem dinheiro. Mesmo que não roubem para si, fazem um roubo. Pois os grandes templos são para exibir poder e, então, terem força política para seus negócios privados. Mostram que comandam multidões e, então, metem medo no Estado, nos políticos, nos intelectuais, nas instituições comerciais etc. Todos se toram reféns deles, pois ameaçam a sociedade com um recado implícito no que contam por aí: “eu tenho fiéis”. Compram TVs e ameaçam todos mais ainda. Quanto mais fiéis, mais força, mais capazes de não só “fazerem um deputado ou governador”, mas fazerem um presidente! Não basta para eles poderem falar, por outorga própria de autoridade, em nome de divindades extraterrenas, mas querem falar por meio da verdadeira divindade, a bem terrena que temos: o dinheiro. Mostram ter dinheiro e mostram ter fiéis. Na democracia que construímos até agora, nada causa mais medo ao adversário que isso. Assim, esses pastores preparam-se para comandar o Brasil.

Esses deterioradores da religião não permitem mais a existência da religião. Ou seja, seria tolo, no contexto atual, ouvir aqueles que dizem: “eu faço religião honestamente”. Ora, no contexto moderno, em uma situação em que o mundo já está “desencantado”, no sentido de Max Weber, é ridículo achar que uma religião pode ser honesta. Ela pode ter lá verdades, mas a base dela é falsa: ninguém pode se auto colocar como intermediário entre as divindades e os homens e se dizer honesto. Foi isso que Lutero falou quando disse que todos poderiam ler a Bíblia e tomar o próprio caminho, para, em seguida, se desmentir dizendo que alguns seriam mais iluminados que outros na leitura. Então, fazendo isso, justificou sua própria posição e, enfim, a proliferação de pastores para todo o lado, pequenos papas analfabetos ou sem-vergonhas andando pela Terra.

A única solução para a verdade moral das religiões é elas se manterem cativas do comando do Estado laico. Fora disso, eles podem se transformar no que já se transformaram no Brasil: a desgraça de uma nação.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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