Sobre o ódio

Na democracia, pertencemos a uma comunidade política onde todos podem ser deslocados de suas posições e interesses por meio do debate e/ou de acordos.
O debate político, quando feito com respeito e profundidade, possui extraordinário poder. Os melhores argumentos exercem coerção virtuosa e criam caminhos. Ainda quando isso não ocorre, a democracia permite pactos em torno de soluções intermediárias, ainda que provisórias. No acordo, os debatedores mantém suas posições, mas cedem em parte de suas pretensões, superando impasses. No Brasil, o ódio cresce porque a esfera pública virou um deserto para o pensamento e porque os pactos se tornaram improváveis pelo “jogo de soma zero”, onde é preciso derrotar o outro. Ao invés de propostas para o Brasil e lutas por reforma, temos uma disputa autofágica pelo poder, orientada por objetivos particularistas e pelo cinismo. Para o senso comum, esta é uma característica inerente à política, quando, na verdade, é sua negação. Entendo que um dos impasses do Brasil, aliás, consiste em termos uma democracia sem política.
leia também: ‘Os demônios do Demônio’, por Eduardo Galeano

A intolerância é a primeira postura que autoriza o ódio. Nela, há um núcleo irremovível de convicções que produz identidade grupal.  Contestar este núcleo equivale a uma ameaça ao grupo. Esses que ameaçam são “poderosos” e “insidiosos”; agem de forma “solerte” e “imoral” e mereceriam todo desprezo. Podem ser os tutsi, em Ruanda; os ibos na guerra civil da Nigéria; os armênios na Turquia; os judeus na Alemanha nazista; os “gusanos” em Cuba; os “terroristas” na ditadura militar; as “feiticeiras” na Idade Média; os negros no apartheid; os homossexuais no Irã; os albaneses no Kosovo; os “infiéis” para o Islã.

Os que odeiam o fazem sempre no plural, já que não podem conceder ao outro a honra de individualizá-lo. No ódio, se trata de desconhecer a humanidade do outro. Não se sustenta tal pretensão diante de uma pessoa concreta, com nome e olhos. É preciso, antes, transformá-lo em um ajuntamento, em um coletivo repugnante, em uma manada. Não por acaso, os nazistas raspavam as cabeças dos judeus e lhes retiravam todos os pertences e as roupas antes de encaminhá-los às câmaras de gás, em grupos. Não por acaso, se disseminou entre as polícias a expressão “vagabudos” para designar suspeitos. Não por acaso, a polarização protopolítica no Brasil virou xingamento entre “petralhas” e “tucanalhas”. O ódio tem muitos nomes, mas, onde se instala, promove a mesma dor e a mesma escuridão.

+ sobre o tema

Minha Casa, Minha Vida: Governo amplia limite de renda para compra da casa própria

Rendimento mensal máximo sobe de R$ 4.900 para R$...

Sobre leite, achocolatado, bananas e vitamina por Marcos Rezende

Antes de eu saber que era meramente comercial,...

Serra chama negros tucanos ao Palácio para abafar crise

Fonte: Afropress     S. Paulo - A crise aberta com as...

Candidaturas coletivas podem acabar já em 2024; a quem isso interessa?

As candidaturas coletivas podem deixar de existir já a...

para lembrar

O ódio é a herança da imprensa

Por Luciano Martins Costa Na sexta-feira (24), dia de encerramento...

O problema do Brasil é o ódio ao pobre

As noções de patrimonialismo e populismo são as ideias-guia...

As máquinas de vender intolerância e preconceito

Para compreender onda de fundamentalismo e crimes de ódio,...

À deriva no oceano do racismo e do ódio

Acredito que a minha arte é sempre um início de conversa que eu não sei como termina, porque o final dela está na vivência...

O problema do Brasil é o ódio ao pobre

As noções de patrimonialismo e populismo são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média. Elas, afinal, são as guardiãs da “distância...

“Conheci o nazismo. Não há dois lados para o ódio”, diz Schwarzenegger

"Conheci o nazismo. Não há dois lados para o ódio", diz Schwarzenegger. O "governator" Arnold Schwarzenegger mandou um recado duro e incisivo na noite desta...
-+=