sexta-feira, outubro 7, 2022
InícioEducaçãoSP admite ter de usar professor reprovado

SP admite ter de usar professor reprovado

Estado anuncia que, por dificuldades em preencher vagas, poderá ter de requisitar docentes temporários com nota vermelha

A prova foi adotada em 2009 pela gestão Serra; na época, o governo disse que iria barrar quem não atingisse a nota mínima

FÁBIO TAKAHASHI

A Secretaria da Educação de SP anunciou ontem que poderá atribuir aulas a professores reprovados em seu processo de seleção para docentes temporários para a educação básica.
Dos temporários que já trabalharam na sala de aula (pouco menos da metade do total de docentes), 40% foram reprovados -não conseguiram acertar metade das 80 questões.
Segundo o secretário da Educação, Paulo Renato Souza, haverá dificuldades para preencher vagas em algumas escolas, principalmente para as matérias de física e matemática.
Ao justificar a possibilidade de convocar professores reprovados, o secretário afirmou que “a nossa prioridade é garantir aulas aos alunos”.
Os sindicatos do setor dizem que é quase certo que os abaixo da nota de corte sejam convocados, principalmente para atuar na periferia das cidades da Grande SP, onde o desempenho dos alunos já é mais baixo.
Ainda não é possível saber quantos dos reprovados terão de lecionar, pois o processo de distribuição de aulas não começou -primeiro escolhem os concursados; os temporários preenchem as aulas que faltam.
Apesar do ano passado ter terminado com 80 mil temporários e cerca de 130 mil concursados, a rede chegou a precisar de mais de 100 mil não concursados (para suprir casos como licença e aposentadoria).
Além dos temporários, o exame também foi feito por outros candidatos -total de 182 mil, dos quais 48% não atingiram a nota de corte. O total de aprovados foi de 94 mil.

Novo discurso
A prova para seleção de temporários foi adotada no ano passado pelo governo José Serra (PSDB). Antes, o critério para a contratação eram os diplomas do candidato e o tempo de serviço.
Ao lançar o projeto, o governo afirmou que quem não atingisse a nota mínima não poderia lecionar. A possibilidade de reprovados darem aulas neste ano letivo foi anunciada ontem.
Paulo Renato afirmou que o corpo docente deste ano está melhor. A explicação do secretário é que foi “uma inovação” classificar docentes com base em seus conhecimentos.
Disse ainda que, caso tenha de contratar os reprovados, serão selecionados os de melhor desempenho. Além disso, a pasta irá criar cursos a distância para capacitação específica em física e matemática.

 

Um atenuante para o desempenho dos docentes, afirma Paulo Renato, foi a dificuldade das provas, consideradas por ele como “complexas e longas”.
O presidente do CPP (um dos sindicatos dos docentes), José Maria Cancelliero, teve avaliação semelhante. O exame foi feito pela Vunesp, que aplica o vestibular da Unesp.
Além de permitir que reprovados lecionem, o governo alterou outro critério. Inicialmente, só iria valer a nota da prova. Após negociar com sindicatos, a pasta decidiu levar em conta o tempo de magistério (que dá bônus de até 20% na nota).

MEMÓRIA: EM PROVA ANTERIOR, 1.500 CANDIDATOS NÃO ACERTARAM NADA

O governo de São Paulo chegou a aplicar um exame para selecionar professores temporários para o último ano letivo, em que 1.500 docentes zeraram. A seleção, porém, foi barrada pela Justiça, que entendeu que não havia base legal para a avaliação. Após a decisão judicial, o governo decidiu enviar projeto de lei à Assembleia Legislativa, que aprovou a proposta no ano passado

Pesquisador diz que resultado é constrangedor

 

 

Pesquisador da USP e especialista em avaliação, Ocimar Alavarse classificou como “constrangedor” o resultado do exame aplicado aos temporários.

 

FOLHA – Qual a sua avaliação?
OCIMAR ALAVARSE – É constrangedor, considerando que a prova tenha sido bem feita. Muitos professores não conseguiram acertar nem metade das questões, que já é pouco. Mas o grande problema é o número de temporários. Precisa fazer concurso, para que o professor seja estável, se fixe na escola. É uma vergonha que metade seja temporária [o governo anunciou concurso para 10 mil vagas].

FOLHA – Como melhorar o corpo docente da rede?
ALAVARSE – Na faculdade, precisa exigir mais. O Estado deveria assumir isso, com curso público de quatro ou cinco anos, dando bolsa. É questão de prioridade. A maioria hoje estuda em curso privado, noturno e de três anos.
Para os que já estão na rede, é preciso dar cursos. Como SP está fazendo isso? Com materiais feitos de uma hora para outra, cheios de erros, e ainda acusando o professor de não saber nada.

Fonte: Folha de São Paulo

Artigos Relacionados
-+=
PortugueseEnglishSpanishGermanFrench