TERREMOTO HAITI:Boas e más palavras

Laferrière expõe em suas obras, repetidas vezes, a exploração mais direta exercida pelos países ricos sobre os países pobres: o turismo sexual

Dany Laferrière é um autor haitiano. Coberto de prêmios e traduzido em várias línguas. Perseguido pelo ditador François Duvalier [1907-71], o sinistro Papa Doc, passou a viver no Canadá. Estava em Porto Príncipe quando ocorreu o terremoto. Conta, numa entrevista ao jornal “Le Monde”: “Saí logo para o pátio e me deitei no chão. Houve 60 segundos intermináveis; tinha a impressão que aquilo não ia acabar nunca, mas que o solo podia se abrir. Enorme. Tem-se o sentimento de que a terra se tornou uma folha de papel.


Não há mais densidade, não se sente mais nada, o solo fica completamente mole.” Laferrière sabe que as piores cretinices podem brotar dos cérebros humanos. Insiste então em sublinhar: “É preciso parar de empregar o termo “maldição”. É uma palavra insultante; subentende que o Haiti fez alguma coisa de mal e que está pagando (…)”. “Sofremos ciclones por razões precisas; não houve terremoto de tal magnitude há 200 anos. Se for uma maldição, seria necessário então dizer também que a Califórnia ou o Japão são malditos. Passa ainda que os tele-evangelistas americanos pretendam que os haitianos assinaram um pacto com o Diabo; mas não as mídias…”

Firmeza


Laferrière prossegue: “Seria melhor que elas (as mídias) falassem dessa energia incrível que eu vi, desses homens e dessas mulheres que, com coragem e dignidade, se entreajudam. Embora a cidade esteja em parte destruída e o Estado se encontre decapitado, as pessoas permanecem, trabalham e vivem.” “Então, por favor, parem de empregar o termo maldição. O Haiti nada fez, não está pagando por nada; é uma catástrofe que poderia ocorrer em qualquer lugar.” “Há outra expressão que seria preciso parar de empregar a torto e a direito: pilhagem. Quando as pessoas, com o perigo das próprias vidas, vão buscar nos escombros o que beber e se alimentar, antes que as máquinas venham arrasar tudo, isso não se aparenta à pilhagem, mas à sobrevivência.”

Tinta


“Como Fazer Amor com um Negro sem Se Cansar” é o primeiro livro de Laferrière e o projetou em âmbito internacional. Seus títulos são sempre sugestivos: “Eroshima”, “O Cheiro do Café”, “O Gosto das Jovens”, “Essa Romã na Mão do Jovem Negro É uma Arma ou um Fruto?” (em francês, romã se diz “grenade”, mesma palavra para a arma explosiva). Laferrière expõe em suas obras, repetidas vezes, a exploração mais direta exercida pelos países ricos sobre os países pobres: o turismo sexual. Há ali bem mais que denúncia, há fascínio e análise fina na busca de compreender mecanismos. Acima de tudo, há uma escrita soberba.

Estrelas


Heloisa Caldeira Alves Moreira traduziu “País sem Chapéu”, que inseriu em sua dissertação de mestrado, disponível na internet (buscar em www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp).


Vai aqui um trecho: “A noite existe neste país. Uma noite misteriosa. Eu, que acabo de passar cerca de 20 anos no norte, tinha quase esquecido esse aspecto da noite. A noite negra. Noite mística. E só de dia podemos falar do que aconteceu à noite. Vem ao espírito a famosa interrogação de Thales. Quem chega primeiro: a noite ou o dia? E Thales decide: a noite está um dia na frente. É como se dois países caminhassem lado a lado, sem jamais se encontrar. Um povo humilde se debate de dia para sobreviver. E esse mesmo país, à noite, é habitado somente por deuses, diabos, homens transformados em bestas.”

Fonte: Folha de São Paulo

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