Todas as violações que vi

por Prof. Msc. Ana Cláudia Laurindo de Oliveira

Conheci o menino no dia do aniversário da mãe e ele me contou essa história. Que  toda a espiritualidade abraçe o menino e conte para ele todas as histórias de  conto e encantos que a vida não permitiu que ele ouvisse. Siga em paz, menino. Solta as amarras terrenas e um dia, quando houver permissão haverá muitas  e outras conversas, entretanto essa é sua hora de seguir em frente. Existem outros chamados, outras histórias para serem vividas. Vai…


(In memoriam a José Alexystaine Laurindo)
Agora eu posso falar. O protegido está sob a guante celestial e nos resta a obrigação social de despir aquilo que Foucault denuncia como a fraude ocidental entre crer e constatar. Falando de crenças sociais extremamente funcionais para a manutenção do poder. 


Temos a opção de deixar passar como mais um, ou resgatar a construção da representação social da marginalidade, um recurso utilizado sempre que é oportuno no intuito de eclipsar a verdade das injustiças institucionalizada. 


Apesar da dor, que é incomensurável, a lucidez da cientista social sobrevive à turbulência da revolta. José Alexystaine Laurindo era mais que um adolescente mal saído dos 15, era também a imagem de uma vítima da violência e da omissão institucional, antes de tombar vítima da violência brutal que lhe ceifou a vida promissora que tinha. 


Aos 12 anos de idade, quando visitava a casa de seus avós após um feriadão em Matriz de Camaragibe, pedalava com dois amigos. Saindo a corrente de sua bicicleta, parou na intenção de consertar e pegou uma pequena pedra, que largando aleatoriamente acabou acertando o carro da guarda municipal. Após o incidente os amigos debandaram assustados, quando foram perseguidos pelo motorista, o guarda municipal José Adriano dos Santos, e o então chefe da guarda, José Petrúcio. Na corrida, seus amigos conseguiram fugir, enquanto ele foi propositalmente atropelado e caiu no meio da rua. Na descida do carro o motorista deu coronhadas, pisou suas costas e encostou um revólver em sua cabeça, ameaçando atirar. Ensanguentado e algemado com as mãos para trás, foi levado pelos guardas à delegacia regional. Era por volta de 19:30 hs. 


Lá chegando foi recepcionado por um policial do qual nunca tive acesso ao nome, que não economizou tapas e safanões, ao transferir o menino em choque nervoso para o camburão, jogando-o na parte de trás onde tem uma cela, para procurar os dois amigos que haviam fugido. Não houve anúncio a nenhum familiar. No percurso o motorista fazia manobras que o levavam a rolar ensangüentado e algemado pelo camburão. Chegando a passar defronte à casa dos meus pais, que nosso menino apontava como sua casa, sendo desdenhado, maltratado com palavrões e informado de que seria o último. Neste ínterim, amigos avisaram a meu pai sobre o ocorrido, correndo meu velho de 67 anos à delegacia. 


Lá chegando, foi mal recebido pelo delegado Belmiro Cavalcante de Albuquerque, e foi obrigado a apreciar meu filho dentro da cela junto aos adultos detentos, ainda algemado. Solicitou que retirassem as algemas, no que foi atendido, mas ouviu acusações de um arrombamento ocorrido em uma escola da cidade quando nosso menino se encontrava em nossa casa na cidade de Maceió, sem chance alguma de fazer parte dele. Desfechou várias acusações, profetizando um futuro de crime para a pequena vítima. 


Enquanto isso, nós, pais atônitos e indignados ligávamos para todos aqueles que pudessem ajudar nosso filho a ser solto, pois continuava preso. Ligamos para Deputado Paulão, que nos encaminhou o advogado Mirabel Alves, Dr. Gilberto Irineu, já presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, culminando na cúpula da Segurança Social, na época representada pelo General Sá Rocha, que passou a incubência ao Coronel Ronaldo, todos intercederam pelo menino, que foi liberado por volta das 22 hs, estando na delegacia o Conselho Tutelar local, que fotografou as escoriações e a arbitrariedade das algemas. 


Cheguei a referida cidade à meia-noite, abraçando meu trêmulo menino, dormindo com ele o sono agitado da injustiça vivida. Viajando muito cedo para Maceió, encontramos o advogado Mirabel Alves, que nos conduziu para o exame de corpo de delito seqüenciando com a representação do delegado e policiais civis envolvidos no caso de tortura de menor, na Corregedoria da Polícia Civil. 


Nosso filho entrou em mutismo por quinze dias, e eu, sua mãe, protocolei denúncia na Comissão de Direitos Humanos da OAB Maceió, e no Ministério Público da cidade de Matriz, ao promotor Adriano Jorge. Isso se deu em agosto de 2007. 


Passamos a buscar a cura para a ferida aberta na auto-imagem de Alexystaine, pois segundo Lucien Goldman o sujeito é algo socialmente constituído, cuja consciência é organizada pelas categorias da sociedade. E no limiar de sua condição biológica de adolescente, os transtornos de identidade tornavam-se visíveis. A psicóloga que o acompanhou, Drª Adriana Carvalho, analisava suas dificuldades, todas no âmbito de si para consigo, desinteressando dos estudos e outras formas de convívio social, sem representar jamais um risco para a sociedade. 


A fragilidade de nosso rebento nos levou a silenciar muitas coisas no intuito de poupá-lo. Algumas vezes foi chamado para dar depoimento, e a cada ida, reavivava a dor, calava, se isolava. A luta da família foi intensa! A alegria demorou voltar para seu belo rosto. Enquanto isso, Matriz fervilhava e anunciava a impunidade em altos brados! Tentativas de intimidação com membros da família ocorreram. O então prefeito, Marcos Paulo do Nascimento promoveu o chefe da guarda para secretário de segurança da cidade, vereadores discursavam o canto da marginalização da vítima e o silêncio imperava no judiciário. Ao completar um ano da tortura espalhamos cartazes pela cidade cobrando justiça, a guarda municipal destroçou as faixas! Mas também distribuímos uma carta aberta, essa foi lida! 


Os policiais civis e o delegado, assistidos pelo jurídico da Adepol criavam suas defesas, enquanto nós de nada sabíamos, sendo chamados algumas vezes para endossar o já dito, e depois nunca tivemos notícia do resultado. Tempos depois eu e meu pai fomos intimados pelo delegado Belmiro para depor em sua sala, as acusações que fizemos contra ele próprio e seus agentes, o que fizemos com altivez pois nosso senso de justiça era mais forte, nosso menino foi convidado para depor em Maceió, e já estava desencantada com o trâmite que o obrigava a reviver algo que ele desejava esquecer. A tortura continuava! 


Em outubro de 2009 fui intimada a depor no fórum de Matriz, e o então juiz Igor Figueiredo, na presença do advogado Mirabel Alves, do promotor de justiça Jorge Adriano, de dois advogados da prefeitura de Matriz e os acusados, José Adriano e José Petrúcio. O juiz utilizou lamentáveis métodos coercitivos, desqualificando minha fala atribuindo interesses políticos partidários, menosprezando meu relato, abusando do posto referindo-se preconceituosamente ao meu filho, supondo envolvimento dele em roubo, desafiando minha retórica e força moral ao extremo quando utilizava inclusive ironia. 


Nosso menino tinha um forte laço afetivo com a cidade onde foi criado! Era amigo de muitos jovens, usuários ou não de drogas. Para ele não fazia diferença, pois seus critérios eram mais puros que os da sociedade, era amigo de quem gostava, sem categorizar ou rotular ninguém! Separando uma briga, foi emboscado e assassinado na plenitude dos 16 anos, no ápice da vida! Quando a delegada da cidade, em infeliz entrevista ao repórter Wadson Correia do siteCadaMinuto supôs o crime ao envolvimento dele com drogas e tráfico, uma aberrante atitude de quem deveria investigar a causa real, pois neste artigo apresento para a sociedade e as instituições que não nos deram respostas ao primeiro crime cometido contra José Alexystaine Laurindo, que ele não é um caso corriqueiro de drogadição, mas um mártir da violência institucionalizada que gestaciona a violência bruta, e sua morte é muito mais que uma pequena intriga do submundo, mas um silenciamento, uma aparente vitória de inimigos sagazes dos que lutam e defendem (até a morte!) os DIREITOS HUMANOS

Fonte: Raízes da África

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