Tornar-se Negro – Cap. II Antecedentes Históricos da Ascensão Social do Negro Brasileiro

por José Ricardo D’ Almeida

Cap. II – Antecedentes Históricos da Ascensão Social do Negro Brasileiro: A Construção da Emocionalidade.

Assim nos situa Neusa Santos seu tema diante do tempo histórico para a construção da identidade negra na modernidade. Ela diz que, devemos pensar que a história da ascensão social do negro tem um paralelo com a construção da sua emocionalidade, quer dizer, é uma história fundada na história de um modo do negro organizar e lidar com os afetos.

O negro socialmente dominado, subordinado e inferiorizado por uma concepção original de seu ser, de sua individualidade e do seu grupo social “viu-se obrigado a tomar o branco como modelo de identidade ao estruturar e levar a cabo sua estratégia de ascensão social”. Sua representação inferior na ordem social escravocrata correspondia a uma situação de fato. Depois, com o fim da escravidão as representações de sua inferioridade e condição social subordinada foram re-elaboradas e expandidas desde uma ordem divina passando para uma ordem da natureza. Com o desenvolvimento das ciências sociais uma condição “natural” de cor/raça se tornou equivalente de sua condição social e de classe. Sua integração na moderna sociedade de classes passa a se orientar por um projeto de ascensão social que representaria sua “redenção econômica, social, e política, capaz de torná-lo cidadão responsável digno de participar da comunidade nacional e diante de uma situação social em que “ser bem tratado era ser tratado como branco”. Daí que, “assemelhar-se ao branco…via ascensão social”, significava “tornar-se gente”.

O processo de integração do negro na sociedade de classes ocorre com incentivos e bloqueios de maneira ambígua a fim de “fragmentar a identidade, minar o orgulho e desmantelar a solidariedade do grupo negro” (citado de “A Integração do negro na sociedade de classes” de Florestan Fernandes)

Embranquecer de todas as formas através da cultura e fisicamente era a porta de entrada (ou de saída) para experimentar a “democracia racial” e a “ascensão social”. Nesse contexto, democracia racial significa sobretudo a não segregação racial e que associada ao individualismo burguês se tornaram os paradigmas da ascensão social do negro.

Ao lado disso, o preconceito de cor/raça permite manter o negro num lugar social subordinado e inferiorizado nas relações sociais e pessoais funcionando também como um filtro para conter a ascensão social individual e do grupo.

De uma lado se encontravam “aqueles que se conformavam com a “vida de negro” e do outro os que ousavam romper com o paralelismo negro/miséria” e “subir na vida”, hostilizando-se uns aos outros, separando-se socialmente e solidariamente.

Para Neusa Santos “a história da ascensão social do negro é, assim, a história da sua assimilação aos padrões brancos de relações sociais. É a história de uma identidade renunciada, em atenção às circunstâncias que estipulam o preço do reconhecimento ao negro com base na intensidade de sua negação”.

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