sábado, janeiro 28, 2023
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Um pedaço do Congo no Rio

Fonte: Folha de São Paulo

Congoleses que fugiram da guerra civil preferem deixar seu país para morar em favelas cariocas, sem família e sem emprego


Terça-feira, 20h. Falta espaço na pequena igreja onde dezenas de africanos prestigiam o culto celebrado pelo pastor congolês Laza Ndosi. O idioma é lingala, falado em vários países da África. Após o sermão, um coral canta músicas religiosas em lingala.

A cena, que se repete toda semana, não ocorre em nenhum país africano, mas na favela Cinco Bocas, em Brás de Pina, bairro da zona norte carioca que concentra boa parte dos 286 congoleses que trocaram o país de origem -palco de violentos massacres devido à guerra civil que se estende há anos- pelo Rio. O número é da Caritas, ONG ligada à Igreja Católica que ajuda refugiados.

Segundo o Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão do Ministério da Justiça, 364 congoleses vivem hoje no Brasil como refugiados.

Para ser refugiado, o estrangeiro precisa comprovar ser vítima de perseguição em seu país ou que morava numa região onde ocorre grave violação dos direitos humanos. A partir daí, recebe auxílio da ONU, do governo brasileiro e de ONGs.

Sem falar português (a língua oficial do Congo é o francês), sem trabalho, sem família -a maioria fugiu sozinha-, resta aos africanos se instalar numa região que ao menos concentre pessoas da mesma origem.

Mas um dos principais motivos para se instalar em Brás de Pina é a falta de dinheiro. “Na favela ninguém paga água nem eletricidade”, diz o pastor. Mas Brás de Pina não é exatamente um lugar sossegado. “Os tiroteios eram tão comuns que decidi me mudar”, diz Prudence Libonza, 28, que vive em Duque de Caxias (a 35 km do Rio).

 

Depois de morar na rua, campeã de judô vira babá

Eureka Bokufe tinha 20 anos quando se tornou campeã nacional de judô do Congo na categoria até 57 quilos. Como prêmio, foi convidada a viajar ao Brasil para disputar o campeonato mundial da modalidade, em setembro de 2007.

Ela sabia que uma guerra civil assolava seu país, mas nunca havia presenciado um confronto -nenhum havia ocorrido na região onde ela morava.

A poucos dias do embarque, a euforia pela primeira viagem internacional foi interrompida por guerrilheiros que invadiram a cidade onde morava. Na casa de Eureka, eles obrigaram a judoca a manter relação sexual com o próprio irmão, da mesma faixa etária.
“Fiquei apavorada. Na região onde eu morava, as pessoas nem beijavam na boca em público”, conta Eureka.

Com estradas interrompidas, não chegou à capital do Congo a tempo de embarcar com sua delegação para o Brasil. Mesmo atrasada, viajou sozinha.
“No avião, conheci um africano que me deixou com medo do Rio, dizendo que havia muito ladrão aqui. Ele se ofereceu para cuidar dos meus documentos e do meu dinheiro. Quando desembarquei fiquei muito surpresa. Nunca tinha visto pessoas brancas, a não ser no avião. E no aeroporto havia mulheres com roupas muito curtas. Fiquei olhando e o africano fugiu com minhas coisas.”

Sem dinheiro nem documentos, chorando, Eureka pediu ajuda a outras pessoas, e um estrangeiro a avisou que em Brás de Pina havia muitos africanos. Foi até lá, mas não teve abrigo -a hospedaria mantida pela Caritas era só para homens. “Fiquei dormindo na rua, na escadaria de uma igreja”, conta Eureka, que procurou os colegas judocas, mas soube que tinham voltado para o Congo.

Após alguns dias, Eureka foi adotada por uma africana que deixa os filhos sob seus cuidados. “Trabalho como babá e não recebo nada, mas moro e como de graça”, diz.
Com raras notícias dos familiares no Congo, Eureka sonho em voltar a treinar judô, mas não consegue dinheiro.

 

Espancado: Enfermeiro fugiu após ajudar vítimas da violência
O enfermeiro Charly (não revelou o sobrenome), 28, trabalhava no Congo quando um confronto entre soldados e guerrilheiros deixou muitos feridos. Foi preso ao prestar socorro às vítimas. “Primeiro, fiquei só dois dias na cadeia. Meus familiares pagaram fiança e fui solto. Mas, quatro dias depois, voltaram a me prender e então fiquei quatro meses.” Afirma que todo dia era espancado. Com ajuda da família, ele fugiu de avião para o Rio, onde encontrou um amigo com quem divide uma casa.

 

Sindicalista fugiu sem saber para onde navio estava indo

“Eu era chefe de família e sustentava mulher e filhos. Hoje me sinto uma criança. Dependo do dinheiro dos outros para comer e até para tomar ônibus, porque não tenho nem R$ 2,20. Mas, se estivesse no Congo, não estaria vivo.”

Estevan (nome fictício, pois ele preferiu não dar o verdadeiro), 51, resume assim seus sentimentos. Ex-presidente de um sindicato de portuários que fora comandado por seu pai e seu avô, foi perseguido no Congo.

Antes de sua casa ser invadida, Estevan fugiu pelo telhado. Depois soube que a mulher morreu na hora da invasão, vítima de um ataque cardíaco.
Auxiliado por amigos, fugiu do país embarcando clandestinamente em um navio. Mas nem imaginava para onde iria.
“Quando a viagem terminou, saí e me misturei aos estivadores. Chegaram a perceber que eu era clandestino, mas alguns desconhecidos me ajudaram.”
Só quando não havia mais risco de ser preso, perguntou onde tinha ido parar. “Me disseram que eu estava no maior porto do Brasil”, relembra. Era Santos (a 72 km de SP).
Estevan foi à rodoviária e conheceu um pastor carioca residente em Santos. “Ele me contou que no Rio havia uma comunidade grande de africanos, e então vim pra cá.”

Atualmente hospedado no abrigo da Caritas em Brás de Pina, Estevan chegou ao Brasil em 2006, e só há duas semanas conseguiu seu primeiro emprego: das 2h às 11h entrega legumes em restaurantes do Rio.
“Sonho fazer faculdade de gastronomia e trabalhar com isso no Brasil”, conta ele, que encara o emprego recente como “um estágio” para a atuação como chef de cozinha.

 

Sabia que eu seria morta se não fugisse”

Prudence Libonza trabalhava como secretária no setor de protocolo da Presidência da República do Congo, em 2007, quando conheceu um dos líderes da oposição ao governo. Eles logo começaram o namoro. Influenciada pelo namorado, virou espiã.
“Passei a colher informações sobre o governo para passar a ele, e fiz até escuta telefônica em telefones de gabinetes”, conta. “Eu gostava dele e ele de mim, nosso namoro não era só uma questão de conveniência. Mas ele ajudava minha ONG”, diz Prudence, que também comandava uma entidade para auxiliar mães solteiras.

Após alguns meses, quando o namoro já havia rendido uma gravidez, a espionagem foi descoberta. “Sabia que eu seria morta se não fugisse.” Ela viajou de barco até Angola, onde passou alguns meses. “Mas havia acordo entre os governos. Se eu fosse descoberta lá, seria enviada de volta para o Congo.”

A solução foi oferecida por um amigo, piloto de avião. Ele conseguiu o passaporte de outra mulher e entregou-o a Prudence, que embarcou rumo ao Brasil com o documento. Ao desembarcar no aeroporto Tom Jobim, conheceu uma angolana que comentou sobre a concentração de africanos em Brás de Pina. A ex-espiã começou, então, a reconstruir a vida.
Primeiro, em 2008, deu à luz sua filha, brasileira. Simultaneamente, conseguiu ser aceita como refugiada. Depois, teve que aprender a língua portuguesa e procurar emprego.
“Ninguém quer empregar alguém que tem um documento onde está escrito “refugiada”. Além disso, eu ainda não falo português direito”, diz Prudence, desempregada.
“A saída é fazer bicos. No prédio da Central do Brasil (centro) tem muitos congoleses que trabalham como cabeleireiros”, diz a moça, que recebe R$ 530 mensais da ONU.

 

Não há uma região segura no Congo”

Décadas de conflito envolvendo uma miríade de grupos armados aproximam as favelas do Rio e as selvas do Congo. O país africano, independente em 1960, nunca teve um momento de sossego.
Aguentou 32 anos de ditadura, e desde que se tornou nominalmente uma democracia, em 1997, é uma mina de ouro, diamantes, cobre e cobalto pilhada por mercenários e senhores da guerra, locais e estrangeiros.

Não há região segura na República Democrática do Congo, mas o leste é especialmente tenso. Quando a violência é aguda, as mortes se contam aos milhões, como no conflito que envolveu dez países entre 1999 e 2003. Mesmo em períodos como o atual, de “paz”, o Congo é um inferno de ataques, desgoverno e pobreza. Em comparação, cruzar o oceano para cair numa favela pode ser tentador.

 

Matéria original: Um pedaço do Congo no Rio

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