Visibilidade Lésbica: 24,76% das mulheres ouvidas em LesboCenso dizem que foram estupradas

Entrevistadas também afirmaram que pessoas conhecidas cometeram 75,13% desses crimes. Dados fazem parte da primeira etapa do levantamento, que ouviu 22 mil mulheres.

Na semana em que é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, dados do primeiro mapeamento de vivências lésbicas no Brasil preocupam. Na primeira etapa do LesboCenso nacional, lançada no auditório da seccional estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE), no Recife, 24,76% das mulheres lésbicas ouvidas disseram que já foram estupradas.

Elas também afirmaram que 75,13% desses crimes foram cometidos por pessoas conhecidas.

Ao todo, 22 mil mulheres lésbicas de todo o país responderam a um questionário virtual sobre quem são e como vivem. Em Pernambuco, 664 mulheres foram entrevistadas no LesboCenso.

Uma pernambucana que preferiu não ser identificada se inclui na estatística alarmante. Ela disse que levou 16 anos até conseguir falar sobre os estupros cometidos pelo próprio tio.

“Ele vinha, passava a mão em mim, passava a mão nas minhas partes. Eu tinha 14 para 15 anos. E não foi apenas uma vez, foram várias. Ele dizia para mim que não era para eu contar para ninguém, porque se não ia fazer uma coisa de ruim comigo”, lembrou.

O LesboCenso, em termos de abrangência, é considerado o primeiro do mundo voltado para a comunidade lésbica.

A iniciativa foi realizada pela Liga Brasileira de Lésbicas e pelo Coturno de Vênus do Distrito Federal, mas várias outras organizações ajudaram na realização da pesquisa, a exemplo da Rede Nacional de Lésbicas e Bissexuais Negras Feministas Autônomas (Candaces).

De acordo com a ativista Grazielle Tagliamento, coordenadora do LesboCenso, é possível afirmar que os dados são uma fotografia das vivências de mulheres lésbicas do Brasil.

“Não existe no mundo. Existem pesquisas menores ou focando em um ponto, por exemplo o dossiê do lesbocídio que foca na questão do lesbocídio, mas com essa abrangência é o primeiro do mundo”, disse.

A maior parte das entrevistadas já sofreu algum tipo de lesbofobia (78.61%) e tem conhecidas que já sofreram algum tipo de violência por serem lésbicas (77.39%). Os tipos de atos lesbofóbicos mais destacados foram assédio moral (31.36%), assédio sexual (20.84%) e violência psicológica (18.39%).

Das situações de violência, as que mais se destacaram foram interrupção da fala (92.03%), contato sexual forçado sem penetração (39.17%), impedimento de sair de casa (36.46%) e relações sexuais com penetração forçadas (24.76%).

“Eu tenho certeza de que os poderes executivo, legislativo e judiciário hoje têm conteúdo para que possamos avançar nas políticas para a população lésbica na sua transversalidade”, afirmou Rivânia Rodrigues, articuladora da rede nacional Candaces.

LGBTfobia em Pernambuco

Na base de dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE), os crimes de lesbofobia não são contabilizados separadamente. Eles integram o indicador de LGBTfobia, com base na equiparação legal da LGBTfobia ao crime de racismo, feita pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com dados enviados pela SDS ao g1 em maio deste ano, entre janeiro e abril ocorreram no estado 16 crimes diversos com motivação de LGBTfobia, racismo ou xenofobia. Em 2021, ocorreram 33 denúncias e, em 2020, foram 55.

Entre janeiro e abril deste ano foram registrados ainda 15 assassinatos de pessoas LGBTQIA+. Em 2021, foram 28 assassinatos. Em 2020, 47 destas pessoas foram assassinadas.

O g1 solicitou à SDS dados atualizados sobre estes crimes e orientações sobre como estes casos devem ser denunciados, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

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