Às vésperas do Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) divulgou o Dossiê 2026, que reúne dados sobre assassinatos e outras formas de violência contra pessoas trans no Brasil ao longo de 2025. O documento aponta uma queda no número de homicídios, mas indica que a redução não corresponde, necessariamente, a uma melhora nas condições de vida ou na garantia de direitos dessa população.
Segundo o levantamento, o Brasil segue, pelo 18º ano consecutivo, como o país que mais assassina pessoas trans no mundo. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos, frente a 122 no ano anterior — uma redução de 34%. Para a ANTRA, o dado deve ser interpretado com cautela: a entidade afirma que a diminuição está associada ao aprofundamento da subnotificação e ao apagamento institucional da violência, e não a mudanças estruturais no cenário de exclusão.
“Menos registros não significam menos violência. Pelo contrário: há uma intensa movimentação que pretende inclusive institucionalizar a transfobia. E a gente vive nesse país do paradoxo”, afirmou, durante evento de lançamento do estudo, Bruna Benevides, presidente da ANTRA e conselheira da Conectas.
Subnotificação e apagamento institucional
O dossiê destaca que a ausência de dados oficiais sistematizados sobre a população trans permanece como um dos principais entraves para o enfrentamento da violência. Sem informações produzidas e consolidadas pelo Estado, a formulação de políticas públicas, a responsabilização de agressores e o monitoramento de direitos ficam comprometidos.
Desde 2011, a ANTRA atua como uma das principais fontes de monitoramento desses casos no país, a partir de dados coletados na imprensa, denúncias diretas e redes de apoio. Para a entidade, a omissão estatal na produção de dados não é neutra: trata-se de uma escolha política que contribui para a invisibilidade e para a perpetuação de um ciclo de violações.
Quem são as vítimas
A análise do perfil das vítimas revela a sobreposição de desigualdades. Do total de assassinatos registrados, 97% vitimaram travestis e mulheres trans. A maioria tinha menos de 35 anos, era negra e vivia em contextos de pobreza. O relatório aponta ainda que muitas dessas pessoas foram empurradas para o trabalho sexual como consequência direta da exclusão do sistema educacional e do mercado formal de trabalho.
Outro dado que chama atenção é a interiorização da violência. Em 2025, 67,5% dos crimes ocorreram em cidades do interior, onde o acesso a redes de proteção, serviços públicos e mecanismos de denúncia tende a ser ainda mais restrito.
Ódio digital e normalização da transfobia
Além da violência física, o dossiê chama atenção para o crescimento do ódio antitrans nas redes sociais. Dados da pesquisa Explana 2.0, realizada pelo data_labe e incorporada ao relatório, indicam que plataformas como Instagram, Facebook e X concentram grande parte da disseminação de fake news e discursos discriminatórios contra pessoas trans.
Entre as pessoas entrevistadas, 93,9% relataram já ter tido contato com conteúdos transfóbicos nas redes, e 55% afirmaram ter sido profundamente afetadas por esse tipo de violência. Segundo a pesquisa, mais da metade dos conteúdos denunciados permanece sem remoção, o que contribui para a normalização da transfobia e para a reprodução da violência fora do ambiente digital.
Linguagem, política e disputa por direitos
Para compreender como essas violências se consolidam também no plano simbólico e institucional, o dossiê dialoga com análises presentes no livro recém-lançado Guerras antigênero (Mórula Editorial), de Danillo Silva, doutor em linguística aplicada e professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL). A obra examina como a linguagem se tornou um campo central de disputa política no Brasil contemporâneo, especialmente em torno de temas relacionados a gênero, sexualidade e direitos humanos.
Segundo o autor, “parte significativa do que a produção intelectual do campo feminista denomina ‘ofensivas antigênero’ corresponde a iniciativas políticas que buscam neutralizar, reverter e/ou criminalizar avanços na promoção da cidadania de pessoas trans no Brasil”, processo que acaba por “cristalizar, em diferentes práticas institucionais, tais como legislações e políticas públicas, a violência de gênero”. Para Silva, essas dinâmicas não se dão apenas de forma explícita, mas se enraízam no funcionamento cotidiano do Estado.
Nesse sentido, o pesquisador afirma que “as guerras contra a produção de cidadania a partir do gênero e da sexualidade se materializam, sobretudo, por meio de estratégias que operam abaixo do radar”. Trata-se, segundo ele, da naturalização de construções discursivas que produzem efeitos concretos de violência e exclusão. Expressões como “proteção da infância”, “defesa da família”, “ideologia de gênero”, “liberdade religiosa” e “sexualização precoce” “funcionam como signos catalisadores das forças antigênero”, ao infiltrar nos discursos do Estado “racionalidades conservadoras e antidemocráticas, contrárias aos valores constitucionais e aos direitos humanos”.
Essa leitura ajuda a compreender como o cenário descrito pelo dossiê da ANTRA não se limita a episódios isolados de violência, mas está inserido em um contexto mais amplo de disputa política, no qual a produção de cidadania a partir do gênero e da sexualidade é sistematicamente questionada, fragilizada e, em muitos casos, institucionalmente combatida.
O que significa visibilidade
Diante desse cenário, a ANTRA reforça que o Dia da Visibilidade Trans não pode ser reduzido a um marco simbólico. O dossiê defende a necessidade de políticas públicas estruturais, como a regulamentação das plataformas digitais, a investigação de redes organizadas de disseminação de ódio, a implementação de cotas para pessoas trans em universidades e concursos públicos, a garantia do uso do nome social em todos os serviços estatais e o reconhecimento da produção de dados feita pela sociedade civil.
Mais do que ocupar espaços, a entidade afirma que a verdadeira visibilidade está ligada à redução das violências, ao acesso efetivo a direitos e ao compromisso do Estado brasileiro com a vida, a dignidade e a cidadania plena das pessoas trans.