Viúva de Abdias Nascimento quer programa de incentivo ao ativismo

Na data em que se comemora o centenário de Abdias Nascimento, líderes negros se reuniram ontem numa emocionante homenagem ao poeta, escritor e jornalista que lutou contra o racismo e transformou o tema em sua principal bandeira. Viúva de Abdias e também ativista, Elisa Larkin aproveitou a ocasião para apresentar à Secretaria estadual de Direitos Humanos uma proposta de criação de um programa de incentivo para conceder bolsas de apoio a alunos cotistas, além da ajuda a pessoas ou organizações engajadas no ativismo social.

— Muitos alunos cotistas não têm como dar prosseguimento aos estudos, devido às dificuldades financeiras para compra de material, livros e até para o transporte. É importante que esses alunos deem continuidade aos estudos — disse ela.

No evento, ocorrido no Centro Cultural Ação da Cidadania, na Zona Portuária — prédio erguido em 1871 pelo engenheiro abolicionista André Rebouças, que não permitiu o uso de mão de obra escrava — ainda foram comemorados os 70 anos do Teatro Experimental do Negro, também fundado por Abdias, e os 30 anos do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros, projeto criado em parceria com Elisa, que atua na recuperação da história e dos valores culturais negros.

— Convivi com a vida e obra de Abdias, não apenas como esposa, mas como companheira de luta no combate ao racismo, pela construção de uma sociedade com igualdade de oportunidades e justiça para todos — disse Elisa.

O líder, lembrado numa exposição que contava sua trajetória, em palestras e em declarações, foi chamado de “Zumbi contemporâneo”, numa referência a Zumbi dos Palmares. A cada discurso, uma plateia majoritariamente negra aplaudia.

Ministra lamentou racismo

A ministra Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, lamentou que ainda exista racismo no Brasil:

— Existe uma visibilidade muito grande de casos de racismo no Brasil. São atos racistas, que procuram reduzir a humanidade da pessoa negra ao compará-la aos animais. Lembro do caso daquele menino acorrentado num poste no Flamengo. Infelizmente, continuamos com taxas altas de homicídio de pessoas negras.

O ex-zagueiro francês Liliam Thuram, autor do livro “As minhas estrelas negras — de Lucy a Barack Obama”, também presente ao evento, afirmou que também considera o Brasil um país racista. E disse que o centenário de Abdias Nascimento não deveria ser comemorado apenas pelas pessoas negras:

— Infelizmente o Brasil tem dificuldades em reconhecer a importância dos homens e mulheres que vieram da África e que fizeram com o que o país tivesse essa cultura hoje — disse. — Eu diria que essa comemoração não pertence somente às pessoas de cor negra, mas a todos os brasileiros que querem construir uma sociedade igualitária. Basta sair um pouco às ruas do Rio para ver que a grande maioria das pessoas traz em suas feições a história do Brasil. São afrodescendentes, mesmo que alguns não queiram reconhecer.

A festa terminou com uma cerimônia inter-religiosa formada por integrantes do candomblé, da umbanda e indígenas, que, em procissão, foram até o Cais do Valongo, monumento emblemático da cultura negra. Lá desembarcaram mais de 500 mil negros escravizados entre 1811 e 1843, vindos, em sua maioria, do Congo e de Angola.

 

 

 

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