‘Voz Ativa’ recalibra critérios para informar sobre feminicídios

01/07/26
  • Guia visa ajudar comunicadores a não repetir erros que normalizam a violência
  • Autoras mapearam padrões de reportagens sobre assassinatos de mulheres

Hoje em dia é pouco provável que a desafortunada expressão “crime passional” faça parte de uma reportagem sobre feminicídio, mas outros cacoetes daninhos —que refletem falta de formação e reflexão sobre o assunto— continuam a habitar as manchetes quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher.

O uso da voz passiva —que apaga a ação do agressor—, a escolha de fotos sensuais para mostrar as vítimas, a falta de contextualização social e étnico-racial das mulheres e a menor relevância dada ao assassino —mesmo quando já oficialmente identificado— são alguns dos elementos frequentes em relatos sobre esses crimes e terminam esvaziando a brutalidade das mortes.

Isso é o que indicam, com clareza e riqueza de exemplos, as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues em “Voz Ativa: O Manual do Jornalismo Antifeminicídio” (Drops Editora), guia prático com o objetivo de ajudar a eliminar (maus) hábitos do jornalismo nosso apressado de cada dia —que no final culpabilizam a vítima e naturalizam a violência.

O manual surge como um desdobramento, para consulta rápida, da pesquisa das autoras para o livro “Histórias de Morte Matada Contadas Feito Morte Morrida“, publicado em 2021.

“Quando a imprensa trata um feminicídio como se fosse uma fatalidade, está contando morte matada feito morte morrida, e é exatamente esse apagamento que o livro investiga”, afirmam as autoras. “Quando você passa anos mapeando como a imprensa brasileira cobre feminicídios e identificando padrões que se repetem há décadas, chega um momento em que apontar o problema não é mais suficiente. Precisávamos oferecer uma ferramenta de correção.”

A realidade do jornalismo, permeado pela multitarefa e por prazos exíguos para a entrega de reportagens, não foi ignorado para a construção das propostas, com o objetivo de “tornar a boa prática mais fácil que a má”:

“Não se trata de má-fé individual, trata-se de um olhar que foi construído e normalizado ao longo de décadas e que precisa ser desconstruído com a mesma consciência”, pontuam Oliveira e Rodrigues. “Se o jornalista tem à mão uma ferramenta que mostra, em segundos, como reescrever um título sem perder agilidade e sem incorrer em risco jurídico, a barreira cai. Não estamos pedindo que o jornalismo pare o mundo para se transformar. Estamos oferecendo atalhos para que ele seja melhor dentro da velocidade que já tem.”

As autoras desenvolvem outros formatos para o guia —como workshops e conteúdos digitais— para que as recomendações, e sua prática, avancem em outros âmbitos para além das redações e dos criadores de conteúdo, como universidades e entre o público consumidor de notícias.

“A voz passiva apaga o agressor, o recorte racial importa”, afirmam. “O que acontece é que esse saber cede diante de uma pressão estrutural muito concreta: o tempo, o clique, o algoritmo, a precarização da profissão.”

Avançar em protocolos de escuta com familiares de vítimas e nos cuidados com profissionais que cobrem o tema também são ações de longo prazo alinhadas ao manual.

“Por trás de cada título mal escrito, de cada foto indevida, há uma pessoa real, uma mulher com nome, com história, com família”, ponderam as pesquisadoras. “Há a família que vai ler ou ter conhecimento daquela notícia e que precisa sobreviver também à forma como ela foi contada. O manual existe por elas.”


Denise Mota – Jornalista especializada em diversidade, escreve sobre quem vive às margens nada plácidas do Ipiranga, da América Latina e de outras paragens

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