Zuleika Alambert (1922 – 2012) Política, deputada estadual por São Paulo, feminista e jornalista.

Nasceu em 23 de dezembro de 1922, na cidade de Santos (SP). Seus pais foram Josefa Prado Alambert e Juvenal Alambert. Viveu com o dirigente comunista Armênio Guedes por 27 anos, não teve filhos.

A Segunda Guerra Mundial despertou seu senso político, com o bombardeio de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942. Nessa época foi formada a Liga de Defesa Nacional, contra o Estado Novo, pela libertação dos presos políticos e pelo rompimento com o Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão. Zuleika integrou-se a este movimento em Santos, ajudando a organizar a primeira greve de portuários com o objetivo de impedir a chegada de mercadorias espanholas, já que a Espanha estava sob o governo autoritário de Franco, e tomando parte nas manifestações pelo envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) à Europa.

A Liga de Defesa Nacional coletava remédios para enviar ao continente europeu, através do Comitê de Ajuda aos Pracinhas. Este tipo de ajuda era conhecido como “esforço de guerra”. Quando as tropas brasileiras retornaram em março de 1945, outra luta começou, pela legalidade plena, contra a ditadura do Estado Novo, formando-se comitês populares pela democracia e contra a carestia. No desenvolvimento deste trabalho, Zuleika teve os primeiros contatos com os comunistas.

Em 1945, ajudou intensamente na campanha eleitoral para eleger deputados/as constituintes que tivesse uma visão socialista do poder e que fossem comprometidos com a democracia e a paz. Dois anos depois, na eleição de 02 de dezembro de 1947, para a constituinte estadual, candidatou-se por Santos, pela legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Com 4.654 votos, chegou a primeira suplente. Tinha 25 anos.

Dias depois da proclamação dos resultados, o PCB excluiu da sua lista preferencial o deputado eleito Clóvis de Oliveira Neto, acusado de envolvimento sexual com uma menor. Zuleika assumiu o mandato, de 26 de setembro a 14 de novembro de 1947, destacando-se na luta pela causa operária. Com a renúncia do deputado Mantílio Muraro, passou a ocupar efetivamente o cargo a partir de 15 de novembro, tornando-se a primeira deputada do PCB, no Brasil. Entre outros, apresentou um projeto de lei defendendo o abono de Natal, que é o embrião do 13º salário, e outro em defesa de salários iguais sem distinção de sexo. Ao defendê-lo, afirmou:

“Para trás ficaram os dias em que as mulheres de todas as categorias sociais viviam, em nossa pátria, exclusivamente para seu lar e para seus filhos, sem participar diretamente da vida política, social e econômica da Nação. Porém, com o agravamento de nossa crise econômica, afogada em seus lares com o problema da inflação e da carestia da vida, explorada diariamente nos locais de trabalho por patrões sem escrúpulo que sempre veem nela a presa fácil de sua ganância, começaram a compreender que só unidas e organizadas poderiam cumprir as leis, que existem e lhes dizem respeito, e, sobretudo, poderiam lutar por suas mais sentidas reivindicações, conquistando dentro da sociedade o lugar que, por direito, lhes cabe, não como esmola, mas como justiça.”

Seu mandato, no entanto, foi declarado extinto em 12 de janeiro de 1948 com base na Lei Federal nº 211, de 07 de janeiro de 1948, que cassava o PCB. Zuleica despediu-se da Assembleia Paulista com um discurso forte em que chamava de “roubo” a cassação dos mandatos de 11 deputados.
Na fase da ilegalidade do PCB, teve que sair de São Paulo. Mudou-se para o Rio de Janeiro e continuou atuando clandestinamente, inclusive redigindo documentos para o partido, como por exemplo, a Carta do Amazonas, manifesto de protesto em defesa da floresta amazônica. Zuleika trabalhou na área cultural, principalmente com mulheres e jovens e, como consequência dessa atividade foi designada secretária-geral da Juventude Comunista. Levou delegações para os Festivais da Juventude de 1952 (Alemanha) e 1961 (Romênia). Além disto, participava intensamente nos Congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE). Ajudou a construir o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, movimento de vanguarda que alavancou as atividades culturais do Brasil nos anos 60. Continuou a colaborar com a imprensa comunista nos anos 60.

Por sua forte ligação com os estudantes, foi perseguida depois do golpe de 1964. No entanto, nunca foi presa, chegando a ajudar muitos estudantes a saírem do país. Em 1969, foi para a Hungria como secretária da Federação Democrática Mundial da Juventude. No Chile, em 1971, organizou os comunistas e promoveu a Associação de Mulheres no Exílio, para que não perdessem os vínculos com o Brasil.

Em 1974, depois do golpe que depôs e assassinou o presidente Allende, passou quatro meses em Caracas, na Venezuela, indo depois para a União Soviética. O objetivo desta viagem foi tratar da saúde; estava subnutrida e com problemas renais graves. Ficou por lá cerca de um ano e depois foi para Paris, participar da organização do Comitê Europeu de Mulheres Brasileiras, novamente ajudando as mulheres no exílio. Este comitê teve um programa de rádio e um jornal, formando uma rede de solidariedade, para co as exiladas.

Com a anistia, em 1979, retornou ao Brasil e fixou-se no Rio de Janeiro. Nessa época, considerava-se uma marxista “que estudava os problemas das mulheres”, recusando-se a ser identificada como feminista. Depois de fazer uma palestra intitulada A Democracia e a Mulher, que proferiu em vários locais do Brasil, e instigada pela reação contrária do público feminista às ideias que expusera, ocorreu uma mudança na forma de pensar de Zuleika, e assim aproximou-se desse movimento.

Membro do órgão máximo do seu partido, o Comitê Central, propôs a elaboração de uma política específica para as mulheres, aprovada pelo PCB em 1980. Zuleika foi uma das fundadoras do Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo, criado pelo governo Montoro em 1983, e presidiu o órgão em 1985/1986. Recebeu o título de Cidadã Paulistana em 1986, do movimento de mulheres o título de Feminista Histórica e do Congresso Nacional o prêmio Bertha Lutz. Desde então, tem-se dedicado ao trabalho de difundir a luta das mulheres em nosso país.

A partir de 1989, quando participou de uma reunião internacional, em Porto Alegre, onde foi discutido o problema do meio ambiente e da mulher e inspirada pela ECO 92, Zuleika passou a atuar na vertente eco-feminista, pensando a questão de gênero ligada às macropolíticas. Escreveu, entre outras obras, Uma jovem brasileira na URSS (1953); Estudantes fazem História (1964); A situação e a organização das mulheres (1980); Feminismo – o ponto de vista marxista (1986); Metodologia de trabalho para as mulheres (1990); Mulher – uma trajetória épica. (1997).

Zuleika voltou a viver no Rio de Janeiro, continuo estudando, ensinando e escrevendo sobre o ecofeminismo. Morreu no dia 27 de Dezembro de 2012, quatro dias depois de completar 90 anos.

• Dicionário Mulheres do Brasil, de Schuma Schumaher e Érico Vital Brasil, Editora Zahar, 2000.

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