1º Prêmio Abdias Nascimento – Especial Jornalista Antonieta de Barros Célia Regina, Mulheres Negras. Revista Raça Brasil-SP

Em época de crise mundial, elas estão na contramão da história. Suas histórias de vida têm em comum a personalidade, a persistência e a preparação, conjugadas em luta e resistência. Mulheres que fazem acontecer. São exemplos notáveis de mulheres negras executivas, jornalistas, cientistas, atletas, pesquisadoras, DJs, que mostram com garra sua capacidade de criação, de inventividade, de compromisso e seriedade com a produção do conhecimento, com o esporte, com a produção de informações, de música e de poesia. Sim, somos capazes. Basta termos a oportunidade

Única não adianta

Alegre e bem-humorada, ela foge do estereótipo do cientista carrancudo e ranzinza. Essa disposição de espírito parece ter ajudado Sônia Guimarães a ultrapassar sólidas barreiras para se tornar a primeira negra brasileira Doutora em Física, título adquirido pela Th e University Of Manchester Institute Of Science And Technology, e respeitada professora do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Primeira pessoa da família a cursar a universidade, Sônia teve total apoio, sobretudo, da mãe, já que o pai implicava com o fato de ela ir estudar longe de casa, em São Carlos, interior de São Paulo. A sólida formação adquirida em várias especializações não impede que, ao participar de congressos nacionais como única profissional negra, perceba “que ninguém acredita no meu currículo, de primeira mão, eles esperam que eu vá trabalhar no congresso e não apresentar um trabalho de pesquisa.”

Sobre a superação das dificuldades encontradas no mercado de trabalho pelas mulheres negras, acredita que é preciso estudo e dedicação: “elas têm que estudar, se especializar, se tornar altamente qualificadas, pois por serem negras, tudo será muito difícil, portanto, têm que ser as melhores.” O investimento em formação pode incentivar a participação das mulheres em variados espaços de poder. “Necessitamos de mais mulheres negras escolhendo, fazendo a seleção de pessoal.

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(Foto: Imagem retirada do site Revista Raça)

Não adianta ser a única. Se formos muitas e em várias posições hierárquicas, isso vai melhorar”, destaca. No dia-a-dia, as manifestações de racismo se entrelaçam com as de sexismo, deixando dúvidas sobre quais das duas é mais perniciosa. “É difícil saber se é por que eu sou mulher ou porque sou negra. Mas os homens nunca acreditam em minha capacidade ou inteligência. Estão sempre esperando que eu dê um fora, ou fale algo errado, estão sempre tentando me corrigir. Corrigem coisa que eu falei corretamente, só dizem de outra forma, mas é a mesma coisa que eu já tinha dito”, salienta Dra. Sônia.

Na posição de pesquisadora e professora, acredita que a ciência pode melhorar tudo. “Com o conhecimento você pode dominar situações, reagir, brigar, correr atrás do que quer, ter idéias novas. No final teremos um presidente negro aqui também, como nos Estados Unidos, em 40 anos. Mas precisamos começar agora. A diversidade de idéias só faz engrandecer o saber”, conclui.

Sônia: luta contra o racismo e o sexismo para se impor na carreira científica

Sônia Guimarães (Foto: Reprodução/TV Globo)

Incentivo à criatividade

O ambiente familiar propício à experimentação foi um incentivo para a formação profissional de Maria Augusta Arruda. Filha de um ator e professor e de uma terapeuta, aprendeu, desde cedo, a exercitar suas múltiplas inteligências.

Primeira mulher negra a ganhar o prêmio L’Oréal-Unesco-ABC para Mulheres na Ciência, é Doutora em Biociências Nucleares pela UERJ e pesquisadora da Fiocruz. Sua pesquisa destina-se a entender doenças hemolíticas como a anemia falciforme, que atinge preferencialmente a população negra.

O INVESTIMENTO EM FORMAÇÃO PODE INCENTIVAR A PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES EM ESPAÇOS DE PODER

A exclusividade deste tipo de prêmio, obtido em 2008, é tida como resultado de uma luta que não é de agora. “Sei que o fato de estar ocupando este espaço é consequência da luta travada não só pelos meus antepassados diretos, sobretudo das mulheres de fibra como minha tataravó, bisavó, avó e mãe, e de todos aqueles que devotaram suas vidas à luta contra a opressão. Mais do que empunhar bandeiras, louvo àqueles que se comprometeram com a formação moral-acadêmica de seus dependentes, a despeito das adversidades”.

Maria Augusta Arruda (Foto: Imagem retirada do site Para Mulheres na Ciência)

Maria Augusta: mulheres de fibra brigaram para abrir espaço para essa geração

A convivência em espaços escolares mais seletos, onde crianças negras, normalmente, são exceção, não interferiram na autoestima de Maria Augusta. “O que posso relatar é que eu e minha irmã sempre fomos ‘as diferentes’. As discrepâncias étnicas e sociais em nosso país são flagrantes, o que pode ser constatado, sobretudo, pela falta de acesso a uma educação sólida”, admite.

Ela se sente regozijada por perceber mudanças na comunidade acadêmica, pois acha que “está se tornando um pouco mais democratizada, que, cada dia que passa, adquire a ‘cara’ da nossa população.” No tocante às políticas públicas específicas para as mulheres negras, acredita que os estudos feitos são de grande relevância. “Realmente acho que passa pela reafirmação da autoestima, valorizando não só os aspectos estéticos, mas também intelectuais”, aponta.

É PRECISO RECONHECER QUE NO PASSADO AS CONDIÇÕES ERAM PIORES E MUITO SE CONQUISTOU. A LUTA É DIÁRIA MAS AS MULHERES NEGRAS NÃO DESISTEM DE IMPOR SEU VALOR

Fabiana Claudino (Foto: Reprodução/ Facebook)

Fabiana: trajetória vitoriosa e persistência

Força e fibra

No começo, ela nem queria jogar vôlei. Hoje é campeã olímpica. A mais nova jogadora da seleção feminina de vôlei, Fabiana Claudino, começou nas quadras aos 14 anos, no Minas Tênis Clube. Incentivada pelos pais, que estiveram ao seu lado desde o começo da carreira, conseguiu transpor as dificuldades e lutar por seus objetivos. Suas conquistas foram alcançadas pouco a pouco. Sua determinação pode ser comprovada pela sua trajetória vitoriosa nas quadras. Campeã e melhor jogadora do Mundial Juvenil (2003), prata na Copa do Mundo (2003) e campeã do Grand Prix (2004) e Ouro em Pequim (2008).

Tendo como principal habilidade o ataque, Fabiana acha que a vida da população negra, de modo geral, melhorou, mas ainda há muito a conquistar. “A raça negra está mais reconhecida e mais aceita no mercado. Muita coisa mudou, mas no mercado publicitário e na mídia temos ainda poucos negros. Modelos, por exemplo, quase nenhum”.

Sobre o sistema de cotas adotado por mais de 50 universidades pelo país, mas que não se reflete na economia, na mídia, em grandes empresas e corporações, Fabiana é contundente “É um espelho do grande preconceito que temos no Brasil. Todos têm a mesma capacidade, brancos e negros. Então, o sistema de cotas só deveria ser utilizado pelos menos favorecidos financeiramente”. Embora reconheça que, na população brasileira, os negros são exatamente os mais afetados pelas desigualdades econômicas e sociais, daí a importância das políticas de ação afirmativa.

A MULHER TEM A APTIDÃO NATURAL DE REALIZAR MUITAS TAREFAS AO MESMO TEMPO, O QUE A COLOCA EM VANTAGEM EM RELAÇÃO AO HOMEM

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Nilza Campos (Foto: Imagem retirada do site Revista Raça)

Nilza: o importante é estar alerta para as oportunidades

Determinação e coragem

Desde pequena, ela sempre gostou de ‘brincar com números’. Na adolescência, queria logo trabalhar. O pai, decidido, avisou que poderia trabalhar sim, mas que teria de continuar os estudos. Assim foi feito. E o mundo corporativo ganhou uma profissional altamente qualificada e determinada em seus objetivos. Hoje, Nilza Campos é gerente de Projetos da Atos-Origin, empresa franco-holandesa do ramo Tecnologia da Informação (TI), em São Paulo.

As múltiplas exigências impostas às executivas de grandes corporações não lhe assustam. “O fato da mulher atuar ao mesmo tempo em diversas frentes facilita a realização de diferentes tarefas no ambiente de trabalho.”

Atualmente, trabalha com uma equipe pequena, mas já teve sob sua coordenação 12, 13 pessoas, entre homens e mulheres. Reconhece a dificuldade, sobretudo dos homens, em aceitar uma mulher como chefe. Contudo, acredita que teve mais problemas com mulheres que com homens.

Sobre os avanços alcançados pelas mulheres negras, acha que hoje elas consigam mostrar mais seu potencial. “O importante é que esteja sempre alerta às oportunidades”, destaca. Um ponto importante apontado por Nilza é a necessidade de investimento na educação. “Educação, escola e família. Estes é o tripé para uma boa formação humana”. Palavra de quem sabe o que diz.

Incentivo e autoconfiança

Aos 14 anos de idade, Nancy Pires decidiu que seria jornalista. Nancy e Nilza são irmãs, prova de que um raio cai sim, duas (ou mais) vezes num mesmo lugar. O incentivo da família, somado à sua determinação, foi fundamental na construção de uma carreira vitoriosa. Formada em Comunicação pela Universidade Cásper Líbero, e com Mestrado em Administração na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), há três anos é Gerente de Relações com a Imprensa do Grupo Santander do Brasil.

 

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(Foto: Imagem retirada do site Revista Raça)
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(Foto: Imagem retirada do site Revista Raça)

 

A IGUALDADE RACIAL, DE GÊNERO E A VALORIZAÇÃO DA DIVERSIDADE SÃO FATORES QUE DEVERIAM SER PERSEGUIDOS NAS GRANDES EMPRESAS

No emprego anterior, na Volkswagen do Brasil, trabalhou com o atual ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, cuja confiança em seu trabalho deu um impulso importante na sua carreira. Para ela, “o bom de trabalhar com Miguel Jorge é que ele trata as pessoas de forma muito igualitária, não só em relação ao gênero, como à raça e à distribuição de cargos”. A igualdade e a valorização da diversidade são fatores que deveriam ser perseguidos nas grandes empresas. “Quando você é tratada sem discriminação, isso te impulsiona, te faz acreditar. Primeiro que é capaz. Depois, que pode prosseguir, é uma alavanca. São as barreiras psicológicas que são transpostas, também”, afirma Nancy. Sobre a atuação do mundo corporativo, na melhoria das desigualdades no mercado de trabalho, ressalta que o papel fundamental das empresas é na promoção de maior igualdade de oportunidade. “Sem isso não há como avançar”. Empresa e sociedade saem ganhando.

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Nancy Pires (Foto: Imagem retirada do site Revista Raça)

Nancy: vencer o preconceito é transpor barreiras psicológicas

AS MINAS DO HIP-HOP

LUNNA – RAPPER

Lunna é paulistana, tem 29 anos, rapper, produtora e diretora de um site de hip hop. Mãe de Niely, 6 anos, trabalha como escriturária no Conselho Regional de Medicina de São Paulo, desde 2006. “A mulher negra está se impondo muito mais, está expondo sua beleza, sua inteligência, seus cabelos black power, suas tranças. Acredito que, de uma forma geral, mulheres negras, brancas e periféricas estão sabendo conquistar seu espaço. Hoje a mulher vai à luta, perdemos o receio, o medo escravista que tínhamos em nossas mentes, agora ninguém nos segura.”

Como numa engrenagem, acredita que a solidariedade e a união das forças trarão a esperada transformação na sociedade brasileira. “Aquelas que estão conseguindo um espaço devem puxar as outras e, assim por diante, algumas darão a cara à tapa, outras as apoiarão. Mas num futuro breve estaremos todas juntas relembrando o passado de preconceito, de subordinação.”

CRIS SOUL – DJ

Cris Soul é uma carioca de 28 anos, mãe de Kauê, de um ano e meio, educadora social e DJ. Trabalha na Ong Child Hope e aponta que a mulher negra ainda sofre com a falta de exposição. “Somos pouco representadas em trabalhos de destaque na moda, nas novelas da tevê e na mídia em geral”. Para mudar, sugere que sejam realizados fóruns, implementadas políticas públicas, capacitação para a juventude e estímulo para o aumento do nível de informação. “Direitos e deveres devem ser mais conhecidos para que sejam exercidos plenamente pela juventude negra”, sentencia.


Célia Regina da Silva, RJ, é jornalista pela UFRJ, mestre em Ciências Sociais (UERJ), doutoranda em Comunicação Social pela UMESP e tutora a distancia em gênero e diversidade na escola (GDE), do CEAD – UFLA / UAB. É ex-bolsista do Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford. A pesquisa que desenvolve no Doutorado tem como foco a participação feminina no hip hop, as relações de gênero e as estratégias de comunicação digital.

Tem experiência no trabalho em ONG´s e organizações comunitárias, como CEAP, Viva Rio, Coisa de Mulher, CDI , ISER, Orunmilá, atuando em projetos de inclusão social voltados para jovens e mulheres, onde ministra aulas e oficinas de comunicação comunitária, cidadania, direitos humanos e de inclusão digital.

 

 

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